Maria Elza Escreve

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Quero morar no mato

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que a próximo cor da moda será o branco. Quem disse? Alguém, eu não sei quem, determina… e o “mundo” obedece…

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Pessoas e suas roupas que a fazem descoladas, influentes, pertencentes estarão por aí, em todos os lugares, usando a cor branca, ora se não!

    Afinal, essa  será a cor chic para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

  • Um ouvido novo, para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

  • Me dê um lyke?

    As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.

    Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.

    Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.

    Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.

    Ah, e o que dizer dos publicitários?

    Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.

    E estas eram  expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!

    Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo. 

    Os tempos mudaram. E como!

    Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.

    E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.

    Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?

    Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!

    Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional! 

    Estamos na era do: “Me exibo, logo existo!”

    Ah, mas o correto não é: “Penso, logo existo”?

    Tudo depende de qual influencer você segue.

    E viva o poder!

    Não, não estou me referindo ao poder constituído.

    Mas ao poder das redes sociais.

  • Retalhos

    Sobre o que o tempo leva, e o que ele nunca tira.

    Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.

    E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.

    É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…

    Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.

    Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.

    O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.

    Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.

    O verde da grama.

    O bege do pelo do cachorro.

    Quantas lembranças!

    Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.

    Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.

    Mas não foi só isso.

    Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.

    E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!

    O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!

  • Então é Natal!

    Faça a conta. Faça a compra. Faça a lista.

    Afinal, dentro de poucas semanas será Natal.

    “É apenas mais um”, dirá o jovem.

    “Talvez seja o último”, pensará o idoso.

    “Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.

    “O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.

    “Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.

    Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.

    Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.

    Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.

    É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.

    Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?

    Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.

    A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.

    Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.

    Ou não?

    Ah, sei bem…

    Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.

    Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.

    Esse é um assunto tabu.

    Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre; 

    a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”; 

    o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .

    E que ela jura que desta vez “é prá valer!”

    E assim se tem a festa de Natal.

    O Menino Jesus?

    Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.

    E o espírito natalino? Ah…

    Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,

    perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.

    Então é Natal!

  • O Bairro Novo

    As calçadas são cinzas. Os muros também. 

    Opa! E as casas? Cinzas!

    E “harmonizam-se” com a cor preta e outros tons da mesma cor…

    Que moda é essa? Qual o guru da arquitetura moderna foi o precursor dessa escolha? 

    Sigo com o Google Maps aberto, como quem caminha sem saber o caminho, mesmo tendo um mapa na mão.

    É um bairro novo, de classe média alta.

    As casas, recentes, seguem o mesmo modelo arquitetônico: fachadas altas, linhas retas, vidro escuro, cimento aparente. A estética da segurança, do silêncio e da sobriedade. Tudo muito moderno. Tudo muito igual.

    Não bastasse a surpresa da cor, há algo mais que me inquieta.

    As janelas não se abrem. Não há som de crianças, nem cheiro de comida, nem sombra de varal. As ruas estão limpas. E totalmente vazias. O traço comum é o isolamento: portões que se erguem automaticamente, carros que entram e saem sem que se veja o rosto de quem os conduz.

    Casas habitadas por presenças ausentes.

    O cinza não está apenas nas paredes. Está também na atmosfera.

    Olho para o alto, ufa! Que alívio ver o céu azul…Suspiro. Mas ainda sinto o espírito do lugar.

    Há uma palidez existencial ali, como se a forma da moradia tivesse moldado o modo de viver.

    E me pergunto: quando foi que morar deixou de ser habitar e passou a ser apenas isolar-se?

    Quando foi que o abrigo virou trincheira?

    Sei que tudo é moda. A cor da tinta, o estilo da fachada, a lógica do silêncio.

    Mas temo que o hábito de fechar-se por fora acabe por selar também o lado de dentro. Que o desejo de proteção vire indiferença. Que o medo se disfarce de elegância.

    Ainda assim, insisto em acreditar que nem tudo se apaga sob o concreto.

    Que, de vez em quando, ao abrir o vidro para deixar escapar o calor do carro, alguém note o verde das plantas, o brilho do sol, o céu azul.

    Que um canto de pássaro ainda provoque surpresa.

    Que uma frase, uma música, uma lembrança rompam o lacre do hábito e façam vibrar algo bom no coração das pessoas que ali vivem. 

    Porque, no fundo, morar é mais que possuir um espaço.

    É deixar-se afetar por ele.

    E viver é mais que proteger-se do mundo: é permitir que o mundo nos atravesse, nos transforme, nos toque.

    Mesmo que as paredes sejam cinzentas.

    Ainda que a moda diga o contrário.

    Toco a campainha. Vou atuar, sei que vou…

  • Dia de Algodão-Doce

    Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto.

    Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo.

    Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida.

    É aquele instante que, de repente, nos olhamos surpresos e sorrimos ao mesmo tempo.

    Vamos de histórias:

    Há quem conte os degraus antes de subir uma escada. Há quem só se sinta tranquilo se alinhar os talheres na mesa. Uns somam os números das casas; outros evitam pisar nas linhas do chão.

    São rituais pequenos, manias inofensivas. Dá a impressão de que a pessoa se organiza por dentro, como se o mundo só fizesse sentido a partir de certas repetições.

    Cada pessoa tem sua forma de lidar com o caos. Alguns o enfrentam com listas; outros, com orações.

    Eu, confesso, traduzo o mundo em comparações.

    Vejo bichos nas expressões humanas, metáforas nas situações, poesia nas coincidências.

    Hoje, por exemplo, vivi um dia de algodão-doce.

    Estava na missa. Era dia do meu aniversário.

    Ajoelhada, olhos baixos eu  agradecia a Deus por mais um ano de vida. Ao levantar a cabeça vi um menino que vinha sorrindo em minha direção.

    Pareceu-me vagamente familiar…

    Meu neto?

    Surpresa, olhei para o corredor por onde ele entrou e vi outro neto… e mais outro… depois o pai, a mãe, minhas filhas e seus filhos, nora, genros.

    Levantei do banco da igreja e percebi: estava cercada!

    Filhos, filhas, netos! Todos ali reunidos, como que guiados por um mesmo chamado silencioso.

    Uma onda de amor me envolveu.

    A riqueza da vida interior proporciona experiências lindas até na simplicidade.

    Dia de algodão-doce, com certeza! 

  • Ou nada, ou tudo

    Costumo rezar sozinha.

    Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor.

    Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário.

    Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa.

    Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”.

    Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força.

    A vida me exigiu muito cedo: de menina curiosa a mulher adulta, mãe de quatro filhos, de cuidada a cuidadora. 

    Entre tarefas e cansaços, descobri nos pensamentos e nas preces uma forma de preservar a sanidade.

    Hoje, quando paro para divagar, também observo o mundo:

    as preocupações das pessoas, a política que interfere em suas vidas, as esperanças ou frustrações, diante do futuro.

    Nesse cenário, a prece ganha nova importância.

    Não apenas individual, mas coletiva: por filhos, pela chuva, pelos desamparados, pelos que sofrem. 

    É um gesto que acalma a mente e fortalece o espírito.

    Não me envergonho de reconhecer o valor dessas pausas.

    Ao contrário: me aplaudo.

    Trago comigo amor-próprio, antídoto contra julgamentos.

    Manoel de Barros dizia que alguns aprendem a carregar “água em peneira”.

    De certo modo, também aprendi.

    Nos instantes que pareciam não servir para nada, encontrei a diferença entre rezar em coro e rezar em silêncio.

    Hoje sei: no meu nada, a oração se fez tudo.

  • O Que Serei Quando Eu Crescer?

    Não… não vou escrever sobre os influencers… nem falar da infância usurpada… tampouco dos “responsáveis” pais… nem se o assunto da semana atende à pauta X ou Y.

    Como bem disse uma colega escritora: “tudo parece ser mais do mesmo.”

    Também não vou falar sobre coisas insanas, ou assuntos pavorosos. 

    Mas a minha inquietude em ver as letrinhas uma atrás das outras, formando palavras, enfileirando emoções, causando aflições, não é fácil de ser administrada.

    Sendo assim, fui lá em meus escritos antigos buscar algo inusitado ou diferente, um “achado”, talvez.

    Minha mente-esponja absorve muito, e dessas memórias escrevo contos: às vezes bobos, outros nem tanto.

    Portanto, a minha crônica semanal será um desses contos singelos, da idosa atual olhando a menina ingênua e curiosa do passado:

    O Menino

    Na missa, ajoelhado, mãos postas, olhos fechados, ele rezava.

    A cena se repetia todos os domingos. Roupa branquinha, cabelos pretos cacheados, olhos pintados, ele rezava.

    A garota se encantava com a sua postura e imaginava qual seria o seu pedido. Não, ela não tinha alcance para se comover com a prece em si, pois tinha uns sete ou oito anos. E, nessa idade, apesar da beleza da cena, o que mais a impressionava eram seus olhos. 

    Por sobre as pálpebras fechadas, ela via o risco preto do lápis.

    E durante a semana o esquecia.

    No domingo seguinte, lá estava ele outra vez: olhos fechados, olhos pintados.

    Com a curiosidade própria das crianças, a garota tentou saber com a irmã por que ele usava “coisas de moças”.

    Levou um pito e foi mandada calar a boca. Nenhuma resposta, nenhum crédito.

    Passaram-se os anos, e ela nunca mais o viu.

    Era meados dos anos 60, em uma cidadezinha provinciana.

    O tempo passou, e a cena foi ficando guardada em um canto chamado memória…

    Em uma cidade pequena, na única igreja local, frequentada pelos idosos de famílias tradicionais, pais e mães jovens com suas barulhentas crianças, mocinhas faceiras, beatas e solteironas, um rapazinho ia à missa de domingo, com os olhos maquiados…

    Era uma grande demonstração de coragem, numa época tão longínqua e num interior tão conservador!

    Anos depois a garota soube que o menino audacioso e corajoso se tornou um ótimo professor e diretor da escola pública do município.

    E a curiosidade da garota se transformou em respeito e admiração.

    Fim.

    Pronto! Com esse pequeno conto minhas palavras voltaram. Não sobre os modismos, as pautas repetidas, nem o que se diz nas redes sociais. 

    Foram lembranças que, ao surgirem como um “serendipity” iluminaram o presente e deram novo fôlego à minha escrita.

    Confesso, porém, que não há como apenas contar algo do passado, sem fazer um paralelo com os jovens que hoje ocupam os noticiários.

    A ousadia e a inquietude da juventude são normais, até necessárias.

    Mas entendo que a formação e os valores recebidos em família são os alicerces para formar um adulto saudável e responsável.

    O dever, a consciência moral , o respeito não são modismos dispensáveis. 

    Há muito tumulto, no que estamos vendo e vivendo, pois o ser humano parece ter se esquecido de que a dimensão da vida é muito maior do que o sucesso instantâneo e a aprovação midiática.

    Nesse papel apenas nos tornamos marionetes, ávidos por validação, a qualquer preço.

    E penso, olhando para trás e para frente, que talvez a resposta à velha pergunta “O que serei quando eu crescer?” esteja menos em escolher uma profissão e mais em perguntar: “alguém um dia contaria a história da minha vida, com admiração e carinho?”

  • Sonhos Juvenis

    Eu queria amar! Quem manda ficar lendo livros românticos? Não devo culpar os escritores. Não eram heroínas épicas, grandiosas, orgulhosas, princesas.

    Nem moças descendentes de famílias tradicionais, preparadas para encontrar namorado entre os filhos dos frequentadores das altas rodas, da elite, ou filhos de amigos poderosos como os próprios pais, também. Casamentos entre iguais, diriam as interessadas mães.

    Se minhas heroínas fossem essas, eu não teria criado falsas ilusões. Embora eu deva confessar: lia tudo que me caía às mãos!

    Tanto é que sei distinguir as grandes heroínas das moças comuns. As do meu universo, eu via, conhecia, mesmo que fosse só de passagem, e, de certa forma, eu me assemelhava a elas.

    Colegas de escola, filhas de senhoras conhecidas, de donos de lojas, de pessoas a quem se dava bom dia ou boa tarde, e diriam: passou aqui a filha de fulano, ela já é uma mocinha.

    Esse era o mundo ao qual eu pertencia. Fisicamente.

    Porque, em pensamentos, eu vivia grandes amores, conhecia novas cidades, era razão de disputa entre rapazes. E o herói sempre se apaixona pela mocinha. No caso, eu.

    Sonhava com o amor selvagem, sensual, e a imagem de quem seria o homem amado mexia com meus sentidos.

    — Onde você está com a cabeça, Anita?

    — Oi, professor, em nenhum lugar. Estou aqui.

    — Não respondeu à chamada. Podia te dar falta.

    — Desculpe, professor. Presente!

    Não respondia por estar viajando… em suas mãos, em seus braços, nos músculos da perna que se adivinhavam debaixo do linho branco de sua calça.

    “Que homem bonito”, pensava.

    Sorte tem a prof. Marta em ser casada com um homem desses.

    De onde saíam esses pensamentos? Ah, com certeza, dos hormônios em rebuliço em meu corpo de adolescente.

    Mas a principal fonte era dos livros de amor que passavam de mão em mão entre os colegas da escola.

    — Trouxe?

    — Calma, vou terminar no recreio e te dou. Não consegui ler ontem. Minha mãe estava na costura, como sempre, mas meu pai ficou em casa.

    — E eu tenho só dois dias para ler. Sábado meu pai chega da fazenda.

    — Tá bom, tá bom.

    Na verdade, a forma como despertamos para o amor, a paixão ou o que chamamos de fraquezas humanas não faz a menor diferença.

    A natureza e o homem, esses têm suas próprias ordens e leis. Quem poderá definir onde começa um ou outro?

    Bom mesmo é lembrar-me da época. Dos devaneios. Da imaginação. Oh, juventude! Como o viver era leve!

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

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