Maria Elza Gonçalves

  • A Presença

    Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?

    Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?

    Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.

    Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.

    Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.

    Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.

    Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.

    E que prêmio!

    Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.

    Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.

    Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.

    Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.

    Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.

    Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.

    Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Quero morar no mato

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que a próximo cor da moda será o branco. Quem disse? Alguém, eu não sei quem, determina… e o “mundo” obedece…

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Pessoas e suas roupas que a fazem descoladas, influentes, pertencentes estarão por aí, em todos os lugares, usando a cor branca, ora se não!

    Afinal, essa  será a cor chic para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

  • Então é Natal!

    Faça a conta. Faça a compra. Faça a lista.

    Afinal, dentro de poucas semanas será Natal.

    “É apenas mais um”, dirá o jovem.

    “Talvez seja o último”, pensará o idoso.

    “Vou ter que gastar meu décimo terceiro”, pensa o pai. Ou a mãe.

    “O serviço vai dobrar”, lamentam a vendedora, a empregada, o patrão, o carteiro.

    “Preciso variar e garantir o estoque”, diz o quitandeiro gourmet.

    Ovos, uvas, pêssegos e toda a sorte de frutas ditas natalinas.

    Ah, sem esquecer da famigerada e hilária uva-passa.

    Os avós, os tios ricos, os pais de primeira viagem, os de última ou até os de ocasião fazem uma vistoria geral na casa. Afinal, Natal é festa da família.

    É hora de mandar lavar os tapetes, consertar cadeiras, fazer inventário de copos, pratos e talheres.

    Hum… chegou a hora da decisão: vai mesmo ter amigo-oculto?

    Aquele costume sem autor conhecido, o verdadeiro elefante branco na sala, ou no espaço-cenário onde a família vai se reunir.

    A tal brincadeira que não brinca, mas insiste em aparecer.

    Apesar de todos, e cada um , jurarem que detestam.

    Ou não?

    Ah, sei bem…

    Presentes úteis, inúteis, indefinidos, caros, errados, “nada a ver”.

    Comprados com ou sem boa vontade. Com antecedência ou de última hora, em lojas cheias, vendedores apressados, cuja maior preocupação, no momento, é a comissão de venda.

    Esse é um assunto tabu.

    Assim como o tio inconveniente que bebe e conta a mesma piadinha de sempre; 

    a prima de nariz empinado que vai dar “só uma passadinha”; 

    o décimo namorado que a irmã leva às festas de família .

    E que ela jura que desta vez “é prá valer!”

    E assim se tem a festa de Natal.

    O Menino Jesus?

    Dorme, cercado de ovelhinhas e reis magos, debaixo da árvore pisca-pisca comprada na promoção relâmpago do site da Shein.

    E o espírito natalino? Ah…

    Esse talvez esteja embrulhado, sem etiqueta,

    perdido entre os papéis de presente e as sobras do peru.

    Então é Natal!

  • Acalento

    Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono.

    Por quem? Por elas, as palavras.

    Já perceberam como elas chegam?

    Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras.

    Delas, sou fã, parceira e amiga.

    Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam.

    Ahhh, as palavras…

    Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados.

    E os sons? Variados, engraçados, escrachados…

    O ritmo? Esse é um capítulo à parte!

    Arranham as letras, como a palavra arara, por exemplo,

    ou são sedutoras, como veludo.

    A intensidade de grito, a elegância de néctar.

    Acho surpreendente também como elas se tornam moda, autoridade, prestígio.

    Vou exemplificar com o que tenho ouvido: “ponto focal”.

    Alguém poderia me explicar o que seria um ponto não focal?

    Me lembra muito o “estado da arte”, que em época passada, era uma expressão obrigatória no linguajar de quem queria soar moderno, no mundo corporativo. 

    Mas essas não me ocupam a mente.

    Eu gosto mesmo daquelas que me acalentam.

    Falando nisso… olhem a lindeza da palavra acalentar!

    Ela tem um som que embala, um jeito de colo, um gesto de abrigo.

    Parece que, ao pronunciá-la, o mundo sossega — e o coração também.

  • Frio com Memórias

    Mãos enregeladas, dedinhos roxos de frio, boca seca e gretada, olhos lacrimejando… Que frio!

    O assovio do vento, misturado ao fungar dos narizes, soma-se ao barulho das vozes tagarelas dos valentes meninos e meninas que dobram a esquina correndo, apressados para terminar o percurso ao avistar a grande escola. Entram aos atropelos!

    No inverno, a fila do pátio é dispensada. Cada um segue direto para sua sala e acomoda-se em seu lugar. Acalmado o burburinho, abrem-se os livros. Começa a aula e o tempo passa rápido, principalmente para os que venceram o caminho a pé, pois chegaram na energia do percurso.

    Esses são a maioria. Mas há também os que chegam de carro, vestidos com casacos de náilon, toucas grossas e luvas coloridas. A escola é pública, mas tem prestígio. Imagine só: há alunos que sequer precisam fazer o ano extra preparatório para a admissão ao curso ginasial!

    Nós pertencemos à classe baixa. Nossos casacos são de flanela; a mãe improvisa lenços na cabeça, ergue a gola das camisas e faz o melhor que pode dentro dos seus parcos recursos.

    Mas o melhor mesmo é a hora do recreio! Seguimos em fila, da sala até o refeitório, onde a dona Ana já nos espera com os caldeirões fumegantes. É o lanche dos menos “favorecidos, os pobres mesmo. Leite em pó, bolachas, mingau de fubá de milho.

    No recinto, noto a pilha de produtos, todos com o emblema do governo e de uma tal “LBV”. Curiosa, leio e descubro que as letras significam Legião da Boa Vontade. Sei lá o que é isso… A fila do lanche anda rápido. Recebeu seu quinhão? Pode sair para o corredor, onde bate o sol.

    Isso tudo é passado. Mas que passado glorioso! Éramos muitos irmãos. Sabe o que isso significa? Nós, treze meninos e meninas, mais os primos, os vizinhos, os afilhados, todos indo à escola, por direcionamento dos pais, sem nenhum incentivo de bolsa isso ou aquilo, sendo  alfabetizados, cumpridores de horários, respeitosos com professores e funcionários, tendo o estudo como a principal herança que nos prepararia para a vida! Havia dificuldades, com toda certeza, mas eu sempre escolhi e escolho ver o lado bom da vida! 

    Mas isso foi outro século. Outro tempo.

    Hoje, os meninos vestem moletons de marca, aquecem-se com casacos térmicos, têm lancheiras recheadas e celulares caríssimos. Chegam de carro, ouvem música nos fones e fazem selfies antes de entrar na escola. Nada contra! São as conquistas e o conforto que os pais podem proporcionar.

    Mas, às vezes, fico pensando: o que andamos perdendo no caminho?

    Não sentir frio nos pés, não pode também tirar o calor do peito. É preciso que ensinemos o olhar curioso para o mundo, o prazer de um mingau fumegante, o respeito por quem ensina e o orgulho de fazer parte da fila dos esforçados. Os valores parecem fora de moda, como se fossem coisa de outro tempo. Mas eu sei,  e você também deve saber, que foi neles que nos formamos: no respeito, na gratidão, na partilha.

    Hoje, parece que as selfies valem mais do que o ato, o fato. 

    As conversas, as brincadeiras, as interações tanto entre si mesmas, como com a família deixaram de fazer parta da rotina. O automático virou trivial. As memórias afetivas foram substituídas por sensações virtuais

    E talvez seja por isso que o inverno me leva de volta, lá onde o frio nos fazia mais humanos e a simplicidade era uma grande riqueza. 

    E aí? M’bora lá fazer um chocolate quente para a família? 

  • O Poema da Crônica

    Neste final de semana, chega ao fim meu descanso ou férias de inverno em Salvador.

    Como assim, férias, se sou aposentada?

    Ah, mas férias não significam apenas pausa do trabalho ou dos estudos. Recesso, férias, repouso, trégua, ou algo similar pode ser o desligar-se no tempo, o ócio criativo, a desordem feliz da cronologia da vida.

    No meu caso, é a vadiagem da alma. E do espírito.

    É a vida que não é vista nem dividida com ninguém, em que você é ao mesmo tempo o herói e o bandido da sua própria história.

    E aqui, sentindo a brisa do mar, o vento balançando as folhas dos coqueiros, o som das ondas que batem na areia, divago…

    E, como sou generosa, divido com vocês as minhas dúvidas, alegrias e redescobertas. 

    Como aconteceu agora, ao me deparar com este velho e sempre novo poema, perdido em uma página qualquer do mundo virtual.

    Leia lentamente, como quem toma café com um amigo.

    E leve consigo aquilo que te tocou:

    Desiderata

    Max Ehrmann

    “Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.

    Tanto quanto possível, sem se humilhar, viva em harmonia com todos os que o cercam.

    Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes — eles também têm sua própria história.

    Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito.

    Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois sempre haverá alguém inferior e alguém superior a você.

    Viva intensamente o que já pode realizar.

    Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde — ele é o que de real existe ao longo de todo o tempo.

    Seja cauteloso nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcia, mas não se deixe levar pela descrença. A virtude existirá sempre.

    Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui.

    Mesmo que não possa percebê-lo, a Terra e o Universo seguem cumprindo o seu destino.

    Muita gente luta por altos ideais, e, em toda parte, a vida está cheia de heroísmo.

    Seja você mesmo.

    Principalmente, não simule afeição, nem seja cínico em relação ao amor,

    pois, diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva.

    Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.

    Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado.

    Mas não se desespere com perigos imaginários — muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

    E, apesar de toda disciplina, seja gentil consigo mesmo.

    Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja sua concepção d’Ele.

    E quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações,

    na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com a sua própria alma.

    Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito.

    Seja prudente.

    Faça tudo para ser feliz.”

    Com carinho, Maria Elza.

  • Namoro Fake

    Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável.

    Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto.

    Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimento, ele já foi “visto”: em sonhos, expectativas, afinidades. Às vezes, até em espantos. O amor sabe se disfarçar… Pode parecer inveja, antipatia, pode até nascer de um súbito calafrio, intuição ou premonição talvez?

    Tem mil artimanhas, esse sentimento que nos atravessa sem pedir licença.

    A letra da canção garante: “toda forma de amor vale a pena”.

    Mas será? A literatura está cheia de amores impossíveis. A vida real, cheia de histórias que começaram com promessas e terminaram em silêncio, dor ou tragédia. Quantos desamores estampam hoje as páginas policiais? Feminicídios, suicídios, acidentes provocados por ciúmes, por brigas que se travestiram de paixão.

    Chega.

    Hoje é Dia dos Namorados. Um dia para celebrar o amor; o bom amor. Aquele que respeita, que soma, que escuta, que cuida!

    Celebre, presenteie, ame. Agradeça por amar e ser amado. E, se for o caso, se ainda estiver só, agradeça também o tempo de espera: ele costuma preparar o terreno para o que vem com calma.

    E acredite: entre tantos amores fake, ainda há espaço para aquele amor sereno e verdadeiro, que sabe florescer mesmo depois das tempestades.

    Com amor…

  • Quando foi mesmo?

    Minha mente vive de espantos e porquês. Até hoje, na sétima década da minha vida, me declaro aprendiz.

    Faço perguntas e me vejo em busca de respostas que nem sabia procurar. E nesse apego às dúvidas e incertezas passo dias pensando, lendo, comparando e pesquisando sobre o que eu desconheço, ou o que me intriga.

    Não tenho predileção por temas… o que tenho, de verdade, são perguntas: como, quando, por quê. E vou além, porque além de observar, eu busco exemplos, comprovações mesmo!

    Gosto dos números, pois eles me orientam em tudo. Até para saber se a igreja está mais cheia que o normal. Sei que temos cento e vinte lugares (já contei) e, assim que entro no recinto, minha calculadora mental dispara e anota que, aproximadamente, estamos com mais um terço de pessoas. 

    Por que eu faço isso? Não sei…

    Ainda em relação a essa predileção percebo que vejo a vida baseada em números, datas, estações. “Tal ano, minha irmã começou a costurar; em 1900 e bolinha, foi o batizado da minha primeira filha; no ano em que passava determinado filme, decidi deixar de ser dona de casa e ir trabalhar. No verão seguinte constatei que não tinha qualificação e resolvi estudar. Formei-me em julho do ano em que houve tal evento.”

    Ao falar do “quando” eu abstraio o porquê…

    Como se as datas preenchessem os motivos, os sentimentos, as razões e emoções do que ocorria em minha vida.

    Constato, então, que conversar comigo é um exercício complicado.

    Qual foi a conclusão a que isso me levou? Primeiro, que o axioma “Só sei que nada sei” faz todo sentido. E que datas devem interessar ao coletivo, ao mundo, aos eventos grandiosos, aos historiadores, aos cientistas, talvez. Nesse contexto o tempo cronológico significa segurança, verdade, esperança, e também temores e incertezas.

    Para nós, meros mortais, não faz diferença saber nem em que ano nascemos! Para que? Acaso existe uma data que determine quando deixaremos de viver? Ou de ainda nos surpreender, ou de passarmos a gostar de inverno, ou parar de detestar frutos do mar?

    Acredito que a busca pelo que há de bom e belo faz parte do ser humano de forma intrínseca e intuitiva, em qualquer época e data da vida.

    As lembranças, sensações, propósitos e realizações devem ser arquivadas em nossas mentes, não por datas exatas, mas pelo valor das palavras, dos atos e emoções vividas.

    Essa deve ser a nossa meta, como seres humanos.

    Afinal, a jornada chamada vida, não acontece de forma exata e linear e nisso está o seu encanto.

    Qualquer que seja a data!

  • O que perdemos com o Wi-Fi

    A tecnologia nos trouxe muitas coisas. Mas o que ela levou embora? Creio que a pergunta poderia ser: as crianças ainda brincam? Acredito que brincam bem menos do que eu, meus irmãos e amigos! Os tempos mudaram.

    Ninguém mais fica na rua, na frente de casa. As famílias não têm tantos filhos. E com isso perdeu-se também o maravilhoso programa de irmos à casa da vó, onde os primos se encontravam e saíam esbaforidos para aproveitar o tempo e brincar.

    Passar anel, esconde-esconde, amarelinha, rolimã, pique, queimada, cabra-cega, “adivinha o que é?”, pular corda, cabo de guerra, telefone sem fio, cantiga de roda…

    Essas eram as brincadeiras antigas, normais e lícitas. Existiam também as perigosas: subir em árvores, descer de rolimã, guerra de sementes de mamona, roubar frutas nos quintais alheios, soltar espoletas…

    Quanta coisa existia em nosso mundo infantil! E os insetos? Será que as crianças conhecem os louva-a-deus, cigarras, esperanças, joaninhas, vaga-lumes?

    Os perigos eram conhecidos: não andar descalço para não entrar espinho no pé ou pisar em cacos de vidro; não subir no telhado para pegar a rabiola da pandorga; não sair sem avisar a mãe…

    A tecnologia mudou a vida dos adultos e a das crianças também.  Estimulou o aprendizado, os jogos lúdicos aumentaram a atenção e o foco, desenhos e filmes facilitaram o interesse por outros idiomas. Quem já não ouviu delas : Tem Wi-Fi?

    Em todos os tempos existirão brincadeiras inocentes e perigosas. Algumas desconhecidas… Na sala de casa, um celular e um frasco de desodorante podem ser fatais.

    Crianças são crianças.

  • A Pauta

    A pauta está em alta. E, por favor, caros leitores, puxem bem o L para não parecer que estou fazendo uma rima…

    Hoje, a frase da moda é: “Essa é a pauta” ou “Não é essa a pauta?”

    Os adjetivos, substantivos e tudo o mais que aprendemos nas aulas gramaticais estão praticamente reduzidos a frases e expressões prontas.

    As conversas estão fora de moda? Longas e gostosas conversas, em que há respeito aos pontos de vista divergentes; em que seja possível discordar sem que o outro entenda isso como agressão; diálogos com escuta atenta, perguntas e respostas sem sarcasmo ou ironia.

    As pessoas parecem estar desacostumadas ao antigo costume de trocar ideias ou mesmo “jogar conversa fora”. Ao contrário, o novo normal é o destempero, o cancelamento, as indiretas e, principalmente, a exposição ao mundo virtual antes de qualquer tentativa de conversa.

    O que antes era tratado entre quatro paredes — traições, términos de relacionamentos, cenas de ciúmes, mal-entendidos — está ali, “na rua” da internet, pronto para receber likes, na busca por sensações de sucesso ou aprovação.

    Reconhecer o valor do diálogo, das conversas profundas, dos bate-papos leves, não nos apequena — ao contrário.

    Antes que me digam “Vamos encerrar logo com este assunto” ou “Essa não é a pauta”, termino sempre com a expectativa de que tenhamos tido uma boa troca de ideias!

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar