Mario Baggio

  • GUERNICA

    Um dia o azul desapareceu. Olhamos para o céu com cara de espanto. Alguém palpitou que uma tempestade se aproximava, mas aquele cinza parecido com aço sobre a cabeça de todos não tinha nada a ver com os temporais costumeiros do mês de abril. Era diferente. Havia um cheiro, um quê desconhecido que tornava aquele dia distinto. O amarelo também sumira. Ao anoitecer a luz acabou. Os namorados não se encontraram, as ruas ficaram vazias e o silêncio se impôs, tão duro que se podia cortar com faca. Nem carros, nem bulício, nem passos: a cidade estava muda.

    Pouco a pouco, como se fosse mágica, todos vimos o verde sumir diante de nossos olhos e até o carvalho milenar, parte inseparável de nossa paisagem diária, perdeu a pujança. Alguma coisa desconhecida sugou lentamente sua seiva, o tronco já apresentava rachaduras e a árvore imponente logo viria abaixo. Quase ninguém teve coragem de sair para a roça. Quem se atreveu, por força da rotina, regressou coberto de cinzas, como se um grande incêndio tivesse devastado o vale em que vivíamos.

    O choque foi maior quando percebemos que o vermelho também desaparecera e, incapazes de distinguir o sangue do barro, erguemos nossos punhos e gritamos com as gargantas cheias de poeira. O céu despencou com fúria, ferro e fogo sobre nossa cabeça.

    Na tela branca, Pablo desenhou formas delgadas, línguas apontando para o alto, corpos retorcidos em ângulos improváveis, animais em agonia, mães que choram. Foi o que ele viu. Em seus olhos nublados estava refletida a imagem de uma guerra em tenebroso preto e branco.

  • O grande acontecimento

    Ele tinha se tornado a principal atração daquela cidade à beira do mar. Quem lá fosse certamente ouviria na volta: “E aí, foi ver o…? O que achou?”, “Me conte, como é o…?”, “Não me diga que não foi ver o…!”. Era quase uma obrigação, para qualquer turista, visitar o… Ver o… era a revelação de um segredo, a que só pessoas especiais tinham acesso.

    No dia mesmo de minha chegada fui avisado pelo guia turístico de que naquela noite haveria o grande acontecimento: o… iria aparecer. Para vê-lo, eu deveria ir à praia junto com os demais visitantes. Estava já anoitecendo quando uma multidão, em silêncio, pisou a areia. Com devoção e seriedade, todos fixaram o olhar na espuma branca sobre a água escura. Ficamos ali, atentos por horas, esperando o surgimento do… Não se ouvia um pio nem se via movimento ou qualquer gesto de impaciência. Tínhamos todos o sentimento de que iríamos presenciar algo jamais visto. “O sublime”, alguém se atreveu a sussurrar. “A Pombagira, tenho certeza”, murmurou outro. “O enviado do céu”, choramingou a senhora de lenço na cabeça e terço na mão.

    A noite avançava e, quando já não se enxergava nada além da brancura das ondas, um homem saiu do mar. Surgiu da imensidão líquida, de onde não é possível que alguém surja. A água circundava sua cintura quando pudemos vê-lo com nitidez. Tinha barba, altura mediana e o olhar esgazeado, como se olhasse para tudo e nada visse. Chegou até o ponto onde o mar lambe a areia e se ajoelhou. Ergueu os olhos para o céu e assim ficou por muitos minutos. Depois baixou a cabeça e, tão lentamente quanto uma vaca se abaixa para abocanhar o capim, beijou a areia e em seguida escreveu algo com o dedo no chão molhado. Todos esticamos o pescoço para ver o que era, mas o mar foi mais rápido e apagou tudo. O homem virou-se de costas e, assim como veio, desapareceu na água escura sem que entendêssemos como.

    O mar voltou à mesmice de sempre e todos se levantaram e saíram da areia pensativos. Apenas eu permaneci lá, sob a lua, aguardando o grande acontecimento.

  • Um pássaro

    Duvidou. Não era mais momento para dúvidas, estava já com uma perna sobre a mureta da ponte, mas duvidou mesmo assim. Viu o pássaro que, não fazia um minuto, pousara perto dele e o observava com os olhinhos apertados de ave. Pelo menos foi isso que imaginou: aquele pássaro adivinhou o que ele estava prestes a fazer e veio para dissuadi-lo.

    Foi aí que duvidou. Num repente, a vida não pareceu tão bruta. Sentiu um pouco de alegria, a primeira vez em anos. Havia agora um pássaro em sua vida. Tinha que repensar. Ato contínuo, tirou a perna da mureta da ponte. Iria recomeçar, percebeu-se pronto. Virou-se decidido a ir para casa e celebrar a vida nova que teria dali em diante. Não viu o caminhão que vinha veloz pelo outro lado e o pegou em cheio. Deu três piruetas no ar antes de se transformar numa pasta de ossos, sangue e vísceras em cima do asfalto. Assustado com o barulho, o passarinho voou para longe.

    A hora fatal nem sempre se apresenta como a literatura conta ou como os filmes mostram. Às vezes ela tem a aparência inocente de um pássaro, tem olhos e jeito de pássaro. Com alguma sorte, pode-se até ouvir um trinado como se fosse uma canção de despedida.

  • Os homens da montanha, os homens do mar

    Era bonito o lugar onde ficava aquela cidade: de um lado o mar, de outro a montanha. No meio, a vida calma e comezinha de quem nada ambiciona e é feliz assim. A terra ainda não estava cansada e dava de comer a quem andava sobre ela. Era fácil e bom viver lá, onde o tempo parecia não passar.

    Numa ocasião, quando podavam as roseiras, um homem saiu das águas e, com estardalhaço, balançando as mãos como alucinado, gritou que viera até ali como amigo e em missão de paz. Queria informar que a cidade corria perigo. Uma onda de ódio e fúria tinha surgido na montanha, e as pessoas que lá viviam estavam se preparando para descer e invadir o vale. Iriam matar os homens, estuprar as mulheres, abandonar as crianças e pôr fogo em todas as casas. Que todos se prevenissem para salvar a cidade da destruição certa. Assim disse o homem que veio do mar e, tão repentinamente quanto viera, desapareceu no meio da água barulhenta.

    Todos se mobilizaram para resistir ao ataque dos homens da montanha. Aos poucos a vida dos habitantes da cidade se transformou. Tinham pressa para estocar alimentos e água, fechar as portas e as janelas, recolher o gado, cercar a plantação, proteger as nascentes. Olhavam para a montanha e tentavam imaginar quando eles viriam. As mulheres faziam uma cruz sobre o peito e não descuidavam das crianças. Uma só certeza apertava o coração de todos: dariam o sangue e o que mais fosse preciso para salvar a cidade.

    Noite dessas — quando tudo não passava de silêncio e escuridão, e os homens se revezavam como sentinela, e as mulheres se apressavam para assar os pães, e as crianças ficavam quietas nos cantos, e os olhos de todos não desgrudavam do brilho da fogueira que vinha da montanha —, a cidade foi invadida, os homens, mortos, as mulheres, estupradas, as crianças, abandonadas à própria sorte, as casas, queimadas. Quem invadiu e saqueou a cidade foram os homens vindos do mar.

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • A CULPA

    Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura (que estava apropriada), nem a cor das paredes (que era acolhedora), nem as poltronas (que eram adequadas e anatômicas). A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração e do seu silêncio, como a fruta que apodrece debaixo do sol.

    Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram os observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquela sala, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a história impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem como sempre estiveram e fingem que procuram a razão que justifique tanta melancolia. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem de ódio e angústia, perto da página 250. Até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca deles.

  • Negra Lili Marlene

    Negro,

    Escrevo-te estas mal traçadas pra me despedir. Não me culpe, não me leve a mal nem me mande catar coquinho. Fiz, sim, e não me arrependo, e tu sabe por quê? Pra te ajudar, homem. Não faça juízo errado da minha pessoa nem me deseje má sorte, porque isso não vai ser bonito. E depois tu me conhece, sabe que eu não sou dessas, mesmo que pareça.

    Fui embora do cafofo, tu já deve ter percebido que peguei umas mudas de roupa e caí fora. Foi para o teu bem, Negro. Algum dia tu vai compreender todo o tremendo sacrifício que fiz para que tu fizesse sucesso como compositor de samba. Sabe quando tu chega num lugar e todo mundo começa a cantarolar o sambinha que tu fez? Então. Isso tu nunca teve, nunca provou dessa cereja, nunca encostou a língua nesse manjar. Eu te via na dificuldade de inventar uma música para o gosto da comunidade e ganhar algum dinheiro, eu sofria junto de ti, pode acreditar. Então resolvi ajudar te dando um motivo pra ganhar inspiração. Sou boa ou não sou?

    Perdida por ti já fui, que maluca não seria? Tu foi o homem que me deu felicidade, Negro, e isso é coisa que ninguém pode negar. Mas lata d’água já deu, não quero mais. Quero o teu samba, e que tu seja realizado. Faz o teu samba, homem, motivo eu te dou: tua mulher deu o fora. Satisfeito?

    Não pense que te deixei por que ficando do teu lado eu estaria condenada a uma vida de pobreza eterna, e que se eu continuasse no cafofo acabaria me acostumando a comer o reboco das paredes. Não, Negro, não é nada disso, credo! Fui embora porque queria te ver sozinho, triste e abandonado, sem nada ter de teu mais que o violão velho e lascado, porque só assim tu sofreria e conseguiria fazer um samba precioso, e na letra tu falaria sobre a malandra ingrata e cruel, traidora, que só te fez mal. Garanto pra ti que não vou me ofender por isso. Porque o samba só nasce do sofrimento, não é? Então, te faço sofrer pra florescer. Sabe a carta de alforria que o teu avozinho ganhou no passado? Agora sou eu que te dou alforria, Negro. Se quiser, pode me chamar de Isabel, a princesa. Sou a tua princesa que tá te fazendo um bem maior que o mundo, pra que tu conquiste esse mundo mesmo. E agora tu me diz: sou boa ou não sou?

    Ainda, se quiser mais motivo pra incrementar a tua composição, comunico que fui embora na companhia de um cavalheiro que conheci outro dia no Largo da Carioca. Estava vendo vitrine e pensando se aquela saia vermelha ficaria muito justa no meu quadril quando ele se chegou e me disse “Senhorita tão simpática merece ganhar um sorvete duplo de baunilha com morango e um colar de pérolas.” Arrepiei, sabe como? Aí eu respondi “É mesmo? Quero ver se tu não tá mentindo, bonitão de paletó branco. Pode ser framboesa no lugar do morango? Gosto de fruta chique. Tanto calor, não? Ando morrendo pelas tabelas com tanta quentura, Jesus Cristo!” Ele beijou a minha mão e sorriu, o dente de ouro bem na frente. “Evilásio, um seu criado, para servi-la.” Eu não me fiz de rogada: “Marlene, para ser servida.” E beijou mais a minha mão. Escute bem, Negro: beijou a minha mão, igual se beija a mão de uma senhora de respeito. E como uma palavra puxa a outra e as duas lavam as mãos e a cara, no final concordamos que eu iria viver com ele e seria tratada como uma rainha. Sabe rainha? Então. Ele até prometeu me comprar um ventilador pra suportar esse verão, que disseram que esse ano o calor vem pra abrasar a gente. Um ventilador, viu só que luxo? E a francesinha também, toda semana, no pé e na mão. Tu sabe que eu sempre adorei uma francesinha.

    Bota isso no teu samba. Diga que tua negra se vendeu. Não é verdade, mas pode dizer mesmo assim, não levo como ofensa. Não é uma alforria? Eu dei a tua liberdade, Negro. Fala pra todo mundo que eu fui a tua Isabel, te deixei livre pra que tu brilhasse. E agora tu me diz se eu não sou boa. Sou ou não sou boa? Anda, fala!

    Sei que tu deve tá aí chorando as tuas mágoas sobre o violão, e é assim que deve ser: chora tua saudade, tua dor de corno, chora a falta que tu sente de mim. Chora na melodia, molha as cordas do teu instrumento e tira daí a canção mais linda, aquela que te fará famoso. Tu consegue, o motivo tu já tem. Depois descansa e pensa na tua Negra. É assim que tem que ser.

    Adeus, Negro, não jogue a culpa em mim e pensa que tudo o que fiz foi pra que tu conhecesse um pouco de sucesso com uma canção contra mim, contra a tua Negra… Falando mal de mim, ah, que bonita vai ser tua música! E cuida de pagar o aluguel pro seu Vicentino, senão vem ordem de despejo e ele te tira do cafofo. Tem dois meses de atraso, o terceiro ele não deixa passar. Tu não quer morar embaixo do viaduto, quer? Te manda um beijo e um abraço esta companheira que é capaz de tudo pra te ajudar.

    Negra Marlene (agora Lili)

  • Maria Mercedes se olha no espelho

    Nunca tinha ido à escola e se envergonhava quando perguntavam se sabia ler e escrever. Respondia Não e mudava de assunto. Agora, aos sessenta anos, começou a aprender as letras nas aulas noturnas da escola municipal. Saía da casa de dona Elza deixando tudo pronto: as panelas e o chão brilhando, a comida do jeito que a patroa gostava e a roupa passada. À noite, na escola, escrevia bem devagar o que a professora ditava, passando a língua nos lábios enquanto a mão desenhava as letras maiúsculas e minúsculas de seu nome: Maria Mercedes. Afastava os olhos do papel, entortava a cabeça para olhar por outro ângulo e dizia, satisfeita: Esta sou eu.

    Aprendeu também a escrever o que costumava ver todos os dias: mesa, panela, chão, comida, gato, copo, água, vassoura, feijão, menino. E já não sabia que outra palavra escrever, até que lhe ocorreu uma: espelho. Aprendeu a escrever espelho e olhou a curva de cada letra. Leu uma e outra vez em voz alta e ficou olhando a palavra, olhando e olhando. Admirou-se de não se ver refletida nela. E por que não se via naquele espelho escrito, se tudo o que escrevia antes certamente via? Quando rabiscou barriga, viu a dita cuja no filho lombriguento, e disso não tinha dúvida. Encafifou. Pensou que era porque ainda não sabia escrever muito bem e que, quando soubesse à perfeição, veria tudo o que quisesse, bastaria escrever. Se não fosse assim, que vantagem teria aprender a ler e a escrever?, perguntou. Ninguém na classe respondeu. Fizeram silêncio, como se Maria Mercedes tivesse dito algo estranho. Como se ela olhasse para um espelho e, feito um milagre, de repente se visse.

  • O Menino e Matisse

    Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e também com os dedos, os movimentos da figura. Ele está sozinho no quarto e desenha. Nada parece perturbá-lo. Não se trata de um simples traçado, mas de uma imitação livremente inspirada na sedução que uma linha curva sinuosa exerce sobre quem a vê. O desenho que começa a surgir na folha é peculiar: uma espécie de mesa oblíqua formada pelo entrelaçamento de numerosas linhas muito leves. Na superfície, um vaso redondo; abaixo, uma roda cheia de segmentos amorfos. Se não estivesse sozinho, o menino seria interrompido por sua mãe, chamando-o para comer; por seu pai, fazendo perguntas bobas sobre o significado do desenho em vez de perceber a beleza das linhas curvas e das linhas retas; ou por sua irmã menor, que poderia, só de pirraça, rasgar a página. Mas ele estava sozinho, desenhando em uma folha de papel as figuras que viu num livro aberto. Ele se concentrou em seu mister e só o interrompeu quando ficou escuro. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de leite. Quando voltou ao quarto, por mais que procurasse, não encontrou a folha de papel. A mesa, a roda e o vaso estavam lá, na página aberta do livro, mas não a folha branca com o desenho que ele criara. Esse jamais reapareceria. O vaso, porém, perguntou-lhe se ele havia jantado; a mesa o abraçou, beijou-o e depois o carregou para a cama; a roda chorou a noite toda, mantendo-o acordado. No dia seguinte, a vida continuou dando voltas, como de costume.

  • ARREBATADO

    Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? Ele não sabia. Beijou aqueles lábios, quis saber que gosto havia ali. Colocou a escultura de pé, encostada numa pedra, e tomou distância para avaliá-la por inteiro. Aproximou-se novamente. “Escute aqui, meu chapa”, começou a conversar, como se estivesse na frente de uma pessoa de carne e osso (é assim que um solitário faz com aqueles que não o ouvem, para que o ouçam: “Escute aqui, meu chapa”).

    Pediu que mandasse chover. Não choveu. Pediu que saciasse sua sede. Não saciou. Por último, implorou que o livrasse da miséria. Continuou tão miserável quanto antes. Desolado, contemplou a imagem, os traços rudes, grosseiros, talhados a canivete. Ia atirar a escultura longe, por inútil, quando percebeu um brilho rápido naquele olhar: o rosto também pedia por alguma coisa. Nos limites de sua madeira estropiada e do seu silêncio, implorava que alguém o encontrasse jogado por ali e o limpasse e lhe dirigisse orações. Suplicava que o adorassem como se adora um deus ante seu altar. Então o homem compreendeu tudo. Perdeu a sede, esqueceu-se de si e da chuva e dançou diante daquela carranca de madeira velha e carcomida. Dançou, dançou como arrebatado.

  • Um dia, uma mosca

    Ainda que não soubesse, não percebesse nem desconfiasse, ele estava esperando por ela. O seu corpo engordurado de suor era como um pote de mel para a mosca que entrou pela janela e se precipitou em voo rasante na direção dele. A modorra da tarde, o calor entorpecente, a ausência de vento e a sala vazia não fosse ele ali deitado, lendo: a mosca recém-nascida começava a apreender o mundo.

    Ele a afasta com um gesto de mão, inútil, os olhos postos no livro. Não entende que, naquele momento, está convertido num banquete de oito talheres para um ser faminto. A mosca volta a se aproximar, sem cautela, decidida. Quer lambê-lo, acariciá-lo, beijá-lo, chafurdar nas lagoas de suor formadas entre as dobras da pele. Amor: ela ama e é dessa maneira que ela ama. Novo desprezo, gesto de mão mais enérgico, tão inútil quanto o anterior. Ela o olha, pousada na borda da mesa. Ele não se dá conta, entretido na leitura, embora tenha perdido um pouco a concentração. É difícil manter-se atento às palavras impressas quando uma mosca – a sua mosca! – está aí tão perto.

    Ela o estuda. Prepara nova investida, tomada pelo desejo incontrolável, lascivo, de se misturar ao cheiro podre que emana daquele corpo suado. Rechaçada uma e outra vez pela mão violenta dele, ela pousa não muito longe dali, perto da janela. Uma lâmina aquosa quase imperceptível desliza, como orvalho, por seu rosto diminuto e brilha durante um décimo de segundo sob o sol daquela tarde. Ela chora a rejeição. Pouco tempo depois estará morta, possivelmente esmagada pelo tapa que ele lhe dará quando ela menos esperar. Pronto. Assim, ele voltará à leitura e à tarde modorrenta, e continuará a suar sem ter nunca a consciência de que um dia houve uma mosca que o amou mais do que ninguém.

  • Agora não é hora

    Agora não é hora, e peço que não me perguntem quando e como aconteceu. Se fazia frio ou calor, se a lua estava cheia girando no céu ou, ao contrário, se havia nuvens se juntando para a conspiração da chuva, se a cidade estava tranquila ou era o formigueiro habitual de cotovelos se chocando, se os pássaros gloriosos de Harold e Maude singravam a amplidão ou se havia quietude no firmamento, se os carros tiravam faíscas do chão ou se o asfalto dormia seu silêncio: não me perguntem nada, nem queiram saber de nada.

    Perguntem-me, isso sim, se me lembro de sua blusa florida aberta até a altura dos seios, de sua saia rodada que terminava perigosamente na altura dos joelhos, de seus sapatos pretos que faziam círculos na terra sob o banco em que estávamos sentados sob aquele céu, naquele parque, naquele dia. Não tenham receio de querer saber se ainda me recordo de seu pescoço descoberto, com a cascata de cabelos cuidadosamente depositada sobre um dos ombros, deixando o outro exposto para a contemplação e o desejo. Sim, disso tudo eu me lembro.

    Minhas retinas também não esquecem suas mãos, sempre nervosas, seus olhos, inquietos todo o tempo, e seus lábios, de onde saíram as palavras que me mataram por dentro. Perguntem-me sem medo se ainda sinto o contato de seus dedos no meu rosto, nas minhas pernas, no meu cabelo, mas não queiram saber se havia pessoas ao redor ou se algum cachorro latiu naqueles momentos intermináveis de agonia. Disso eu não sei.

    Perguntem-me pelo rosto dela, ainda que não saiba defini-lo nem descrevê-lo e ainda que ele esteja gravado em minha memória. Mas não me perguntem pelas lágrimas que brotaram daqueles olhos, por aquela forma de chorar que me cortou o coração, que era a forma líquida, junto com a concretude das palavras, de me matar. Nem falarei de como ela enxugou o rosto com o dorso das mãos, de como se soltou de meus braços, de como se levantou e caminhou pelo parque, se distanciando de mim, perdendo-se entre as pessoas, sumindo na cidade para entrar definitivamente nos meus sonhos: ela, convertida em sombra; eu, em nada.

    Eu sou esse nada sentado sozinho nesse banco, nesse parque, sob esse céu que ainda não se decidiu se despeja a chuva ou se mantém lá no alto a lua cheia girando sem sentido, sem razão, sem porquê. Mas não me perguntem nada, agora não é hora.

  • Striptease

    De longe, só se vê que há luz no quarto, mas pouco se distingue o que acontece lá dentro. Com meu binóculo, escondido atrás da cortina no apartamento do prédio em frente, tenho visão privilegiada e posso ver tudo com detalhe. Posso vê-la tirar a roupa, por exemplo. Como agora. Ela acabou de entrar. Jogou a echarpe no chão e sentou-se na borda da cama para tirar os sapatos de salto. Joga-os num canto. Começa a desabotoar a blusa. Noto que está um pouco mais cansada do que o habitual, há rugas acentuadas na testa, olheiras fundas. Imagino o dia puxado de trabalho que ela teve e me comovo.

    Agora de pé, ela abre o zíper da saia e a deixa cair até os tornozelos. Com um movimento da perna direita, joga a peça em cima da cama. Vai de um lado ao outro do quarto, olhando em volta, como se procurasse algo. Para e inclina-se para tirar a meia-calça, que larga no chão. Assim, de blusa e calcinha, descalça, solta o coque e balança a cabeça enquanto os cabelos lhe cobrem as costas. Parece que encontrou o que buscava. Acende o cigarro e fuma na frente da janela, olhando o movimento da rua.

    Volta-se para dentro e apaga o cigarro no cinzeiro da mesinha de cabeceira. Retorna ao ritual de desnudamento. Tira as rugas, aquelas que ainda povoam seu rosto e que resistem ao creme hidratante usado diariamente. Arranca também as manchas dos braços e as olheiras escuras que lhe fazem penumbra nos olhos. Desfaz-se completamente das varizes e estrias das coxas e panturrilhas. Aos tufos, e com movimentos bruscos das mãos, livra a cabeça dos indesejados cabelos brancos que envelhecem a moldura de seu rosto. Olha-se de costas no espelho grande da penteadeira e arranca de uma vez a gordura acumulada nas nádegas. Agora de frente, elimina por completo, com a ajuda de uma esponja, o olhar sombrio que tinha até então. Esfrega os seios e o sexo, empurrando para o chão todos os homens que escreveram a história de seu corpo. Por último, respira fundo como se precisasse tomar coragem e puxa de uma só vez a cicatriz da cesariana.

    Completamente nua, o olhar sereno, fecha as cortinas e apaga a luz.

  • Uma nova quadrilha

    Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfilo e sabia de cor os diálogos de Cidadão Kane. Laura se vestia com simplicidade e descontração. Carlos sempre combinava o sapato com o cinto. João não abria mão do jeans e camiseta.

    Carlos, Laura e João eram grandes amigos. Colegas de faculdade, não se largavam. Iam os três ao cinema, para que João ficasse feliz. Ou aos concertos, para que Laura pudesse chorar de tanta emoção. E aos bailes, para que Carlos mostrasse suas habilidades de bailarino. Laura amava Carlos, mas não era correspondida porque Carlos amava João. E João não escondia sua paixão por Laura. Até que Laura, num concerto de Stravinski, conheceu Edgar e se casou com ele (morria de medo de ficar para tia). Carlos mudou de sexo, adotou o nome artístico de Kátia e fez carreira como cantora lírica na Itália. João ficou solteiro e tornou-se escritor; Laura, Edgar e Kátia foram convidados para o lançamento de seu primeiro romance, Quadrilha

  • Os imitadores

    São excelentes na arte de fingir que vivem e que respiram como nós. Imitam com tanta perfeição os movimentos humanos, que só a constante e mecânica repetição de gestos e olhares os denunciam como bonecos de palha. Homens, mulheres e crianças vagam pelas ruas e cidades parecidos com o que pretendem ser e são bastante convincentes. Só não têm alma ou qualquer vestígio de emoção. Não salivam de alegria na frente de um sorvete de morango nem piscam de excitação diante de uma obra de arte. Nada os desequilibra ou impede que se multipliquem e invadam todos os lugares, casas, restaurantes, escolas, museus, parques, transporte público. Estão por toda parte e é fácil identificá-los: orgulham-se de sua semelhança com os humanos e demonstram isso falando alto em público e gargalhando de maneira esganiçada para chamar atenção.

    O dono desses seres exercita sua habilidade criadora nos menores detalhes: forja à perfeição o brilho da pele, o volume da carne, o torneado dos músculos, o arregalado dos olhos, o floreio das mãos, o sorriso na visita ao zoológico. Um homem tem tique nervoso, uma mulher esboça de maneira permanente um meio sorriso, uma criança resfriada engole o muco que desce do nariz como se fosse gelatina.

    Tudo transpira a humano, mas não é. São criaturas manipuladas como títeres, sujeitadas por cordões invisíveis e se movimentam e agem de acordo com a orientação que receberam quando vieram à luz: “Façam o que os humanos fazem, suguem como esponja as palavras e os gestos deles, misturem-se à multidão, aos pedestres que zanzam nas ruas e avenidas. Em pouco tempo serão como eles são. Boa sorte a todos.”

    Se são quase perfeitos na imitação da vida, eles se superam na perfeição absoluta da morte: quando ela está para chegar, o rosto deles é tomado por uma palidez inicial e, aos poucos, ganha tonalidades intensas de vermelho, marrom ou roxo, o corpo perde os movimentos e a elasticidade e, de maneira surpreendentemente rápida, apodrecem. O destino, implacável, cuida do resto: a sobrevida dessa gente artificial se dá por pouco tempo, em alguma fogueira aleatória. É no meio das chamas que estrebucham pela última vez, contorcendo o corpo e agitando os membros em súplica. Transformam-se rapidamente em cinzas, que é o fim de tudo o que cai na língua do fogo. O vento termina o serviço.

  • CINZAS

    As cinzas dele

    “Espero que me perdoe, querida, pelo trabalho que lhe dou como meu último desejo.” Assim terminava a carta que ela leu com alguma indiferença. Era um pedido do marido (nem quando morto ele deixava de incomodar), que a essa altura estava convertido num montinho de cinzas. Saiu do crematório com a urna embaixo do braço. Pensou durante uns minutos. “Não vou dirigir duzentos quilômetros até o litoral nem morta.” Foi para casa. Parada no meio da cozinha, olhou em volta. Descartou de imediato, por uma questão de higiene, as panelas, a batedeira elétrica e o liquidificador. Pelo mesmo motivo não considerou a banheira nem o bidê. Decidida, foi até a área de serviço e jogou as cinzas na lavadora de roupas. Adicionou uma colher de sal. Escolheu um programa de lavagem rápida e ligou a máquina. Olhou o giro do tambor por alguns minutos, apreciando como as cinzas se misturavam à água salgada. Não era mar, mas parecia. Deu como cumprido o último desejo do marido. Que Deus ou Seja-Lá-O-Que-For o tenha. E pronto.

    As cinzas dela

    Tu tranquila aí, meu bem, que teu marido aqui ainda tem sangue, nervos e coração. Tô com um dilema, matutando aqui, mas vou resolver isso logo. Tu fica aí, quietinha e sem medo, que as coisas se ajeitam. Hum… O vaso grego, tá lembrada? Vai ser dentro dele, acabei de decidir. Sou muito rápido pra cuidar desses assuntos, tu me conhece. Tu quis comprar esse troço cafona porque combinaria com as almofadas do sofá, foi assim que tu disse, mas no mês seguinte tu trocou a estampa das almofadas, tem cabimento? Agora o vaso não combina com porcaria nenhuma nem tem serventia. Bem que pensei em usar a peça como bebedouro do Pipoca, ou então encher de terra e plantar margaridas, mas desisti. Fique sossegada, nada de terra aqui, que não sou um homem desalmado, ora bolas. Não me esqueci da paúra que tu tinha com a ideia de um monte de terra em cima de ti, por isso mandei te cremar. Agora tu é esse montinho de cinzas e não precisa temer mais nada. Tua última vontade foi cumprida: não vai ter terra em cima do teu corpo mirrado. No máximo, coloco na boca do vaso aquela toalhinha de crochê que tua mãe deu, que é pra não entrar bicho. Assunto enterrado, ops, encerrado.

  • Disputa

    Não é sempre que acontece, só às vezes, quando aquilo que o Camarão traz não é suficiente para dividir entre os dois.

    Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe dele e toda a família. Que morram todos! Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. Esse confronto nem de longe se assemelha ao que acontece quando Eliseu volta para casa bêbado e chama Célia de “cadela comunistazinha, vagabunda” e ela devolve o xingamento com “chupa-rola, porco reacionário”. Isso é quase todo dia, e isso não é nada. Casamentos, ou qualquer outro relacionamento afetivo, como se sabe, costumam atingir graus de degradação e humilhação que pouca gente imagina.

    O que ocorre, porém, quando o Camarão joga sujo e não faz o serviço direito é uma hecatombe entre duas pessoas que há horas esperam a entrega num quarto mal ventilado e fedorento de suor. Quando a entrega é feita e não é o bastante para os dois, Eliseu e Célia, cada um com sua força, dão início ao confronto furioso e violento. Trocam murros, dão pontapés e cravam as unhas no rosto do outro, no pescoço do outro, na virilha do outro. As cadeiras voam pelo cômodo, os copos espalhados pelo chão estilhaçam, as garrafas rebentam nas paredes. Um ameaça o outro com faca de cozinha ou pica-gelo, o que estiver à mão. Ainda não chegaram a se ferir seriamente. A se ferir de morte, não, ainda não.

    Depois do exaustivo embate de minutos, Célia, muito mais débil do que Eliseu, sabe que desta vez perdeu a parada e se encolhe num canto do quarto, com as unhas cheias dos cabelos que arrancou da cabeça do marido. Chora de dor com o lábio rachado depois das muitas bofetadas que recebeu. Limpa com o dorso da mão o sangue que escorre de uma das pálpebras e engole o ranho que sai do nariz e desce até a boca. Soluça alto e chama Eliseu de “veado de pau pequeno, lambedor de coturno”. Está convencida de que agora não adianta fazer mais nada a não ser xingar.

    Eliseu olha para a mulher encolhida no chão, encostada à parede. Sente pena. Percebe o cheiro de sangue misturado ao de suor no quarto. Abre uma fresta da janela e olha para fora, mas não lhe interessa o que acontece lá fora. Faz o gesto automático de sempre: entrega um lenço para Célia, indicando a ferida na pálpebra. Ela aceita e pressiona o pano contra o olho para estancar o sangue. “Foda-se o meu olho”, diz ela com o que lhe resta de lábios.

    Ele, o mais forte, agora já calmo e silencioso, senta-se na beirada da cama e, com a ajuda dos próprios dentes, amarra a tira de borracha no braço e busca, apressado, uma veia que ainda não esteja seca. Enfia a agulha, recebe o baque, sente o baque, saboreia o baque. Fecha os olhos e respira fundo.

  • A poeira branca

    O professor mandou que eu entregasse um bilhete pra minha mãe. Antes li o que estava escrito: dizia que precisava falar com ela porque eu estava com as notas baixas, não sabia a lição, estava com dificuldade para aprender e andava muito distraído. Deixei o papelzinho sobre o criado-mudo, perto do copo de leite que eu tinha posto lá de manhã. Ela não bebeu. Olhei pra minha mãe jogada na cama, o cabelo sem lavar e o rosto amarelado, e pensei em quanto tempo ela ainda ficaria desse jeito.

    Esquentei no micro-ondas a lasanha congelada que comprei no supermercado e comi a metade. Coloquei a outra metade ao lado do copo de leite, mas eu sabia que ela não iria comer.

    Minha mãe segue igual, com os olhos vermelhos, que olham sem ver, e com o cabelo, que não brilha mais, esparramado em cima do travesseiro. O quarto tem cheiro de suor. Disse que iria abrir a janela para entrar ar fresco, ela gritou que não, não queria, que deixasse como estava. Que era melhor não ver o sol. Que, se não visse o sol, seria como se o tempo não tivesse passado e tudo estivesse como antes. Não achei isso certo.

    Eu sei que os dias passam, vejo no calendário, vejo quando saio de manhã pra ir à escola, vejo as pessoas na rua. Então eu sei que o tempo não para nunca e um dia sempre vem depois do outro. Eu vejo que a máquina de lavar tá cheia de roupa suja e que na pia não cabe mais nem um prato, e por isso eu sei que o tempo passou e não aconteceu nada. Mas a minha maior certeza dessa passagem é quando percebo a tristeza que tá em cima dos móveis. A tristeza é uma poeira branca que dança no ar e se deita sobre qualquer superfície. Tá nas paredes da casa, nos lustres e nas cortinas. No começo achei divertido, eu podia escrever sobre o tampo da mesa com a ponta do dedo, minha mãe tá triste, mas, no dia seguinte, não se podia ler as palavras escritas porque havia mais tristeza em cima delas, quer dizer, mais poeira.

    Não me lembro do último dia que minha mãe fez comida, que me ajudou a fazer os deveres, que conversou comigo ou que vimos juntos um filme na televisão à tarde, esperando meu pai chegar do trabalho. Desde que ele foi viajar com aquela colega do escritório ela só fica deitada, dormindo ou olhando pro teto sem falar nada. O professor falou que tiro notas baixas porque eu me distraio muito na sala de aula. É que não consigo deixar de pensar que um dia essa poeira branca vai cobrir a casa inteira, vai cobrir minha mãe deitada na cama e vai me cobrir também. E, quando meu pai chegar da viagem, a tristeza vai ser tanta e vai estar por todo lado, cobrindo tudo, que ele não poderá ler volta, pai que escrevi ontem com o dedo na tela escura da televisão desligada.

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