Melhor não rir na sexta

  • Melhor não rir na sexta…

    Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro.

    Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde pequena, ela fazia questão de apontar todas as chances de dar errado. E não se contentava em prever tragédias apenas para si: distribuía o pessimismo como quem passa repelente em roda de criança — generosamente.

    Quando a brincadeira era subir em árvore, ela se plantava embaixo e alertava:

    — Cuidado! Isso aí não vai acabar bem.

    Se a turma queria brincar de esconde-esconde no escuro, arregalava os olhos e decretava:

    — Isso é perigoso. Vai que alguém se perde?

    Na adolescência, seus avisos começaram a ganhar contornos mais sofisticados — quase uma espécie de bullying afetivo. Bastava a gente se empolgar com uma festinha para ela nos puxar num canto e murmurar:

    — Olha… não fica triste se ninguém te chamar pra dançar, tá?

    Era um balde de gelo na autoestima. Eu, que já era tímida, ouvia aquilo e perdia o rebolado antes mesmo da primeira música.

    E no vestibular, então? Ela fazia uma careta de dor antecipada e soltava:

    — Cem candidatos por vaga? Humm… então esquece. É quase impossível passar.

    Dava até medo de abrir o jornal no dia da lista de aprovados.

    Importante dizer: ela não fazia isso por maldade. Era pessimista até com os próprios sonhos. Morria de medo de se empolgar e depois quebrar a cara. Então, preferia não subir — nem a escada da esperança.

    Com o tempo, seu pessimismo foi ficando tão aguçado que beirava a feitiçaria. Se falávamos em ir à praia:

    — Melhor nem se animar, vai chover. Se saía um filme novo:

    — Ouvi dizer que o final é triste. Se queríamos só uma fatia de bolo:

    — Melhor evitar, engorda.

    E para fechar cada previsão sombria, vinha a sentença final:

    — Ouçam o que eu digo: melhor não rir na sexta pra não chorar no sábado!

    Hoje, sempre que me pego com a alma meio nublada, lembro dela. E dou um passo atrás.

    Porque, veja bem, pessimismo pode até parecer prudência, mas é traiçoeiro — e, segundo um estudo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, reduz a expectativa de vida em até 15%.

    Então, se você se identificou com a minha amiga… cuidado.

    Ria na sexta.

    Ria na segunda.

    Ria quando quiser.

    Porque chorar, a gente já faz de vez em quando — sem precisar de aviso prévio.

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