MIlton Rezende

  • Poema #58: Passagem das horas

    Fica de nós este resíduo
    do que ainda não fomos.
    Este abismo a se superar
    e uma certa disponibilidade.
    Fica esta in/compreensão mútua
    e a dificuldade em se comunicar.

    Fica de nós este fragmento
    do que ainda podemos ser.
    Este relacionamento a se elaborar
    e uma parcela de interesse recíproco.
    Fica esta identificação de caráter simultâneo
    e o desejo de que tudo não se perca.

    Fica de nós este sentimento reticente
    ainda não de todo vivido/compartilhado.
    este completo des/conhecimento do outro
    e uma necessidade de maior diálogo.
    Fica esta in/definição de objetivos comuns
    e o sentido da procura.

    Fica de nós este silêncio inédito
    devido ao medo em acreditar.
    Esta complexa/frágil vontade
    de querer sobrepor-nos negando a intuição.
    Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
    e o que isto nos tem custado.

    Fica de nós esta intransigência
    e a falta de coragem para admitir.
    Este impulso em dizer coisas secretas
    e a sensação de ferir dizendo.
    Fica esta recusa em se confessar
    em defesa de uma estúpida integridade.

    Fica de nós esta passividade
    e o distanciamento decorrente dela.
    Este eterno ficar na espera sonhando
    e o recolhimento implícito que nega.
    Fica este gostar que desconhece convenções
    e o raciocínio estragando tudo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #56: Isolamento

    A lua na casa de saturno
    saturno na casa da lua
    todo mundo em casa.
    A casa de todos no mundo
    todo mundo na casa de
    todo mundo e eu que não
    encontro o meu lugar
    em lugar nenhum,
    no escuro.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #55: Linguagem do escuro

    Agora que a luz se apagou
    e a solidão restabeleceu seu domínio,
    ouço com receio a linguagem do escuro
    que me des-norteia a vida.

    Nasci sob o signo da morte
    mas prefiro-a assim,
    conquistada aos poucos.
    Porção diária de veneno
    que injeto na raiz da vida
    até que ela, afinal, desapareça.

    E a linguagem do escuro prevalece
    (ainda que se acendam todas as luzes)
    como sendo a linguagem universal de tudo
    a tecer as teias da incompreensão fraterna.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #52: Ciclo I

    A vida,
    em todas as suas formas,
    revela a sutileza de um mágico
    que hipnotiza a todos
    para que não vejam seus truques falhos.

    Os homens,
    em todas as suas crenças,
    revelam a idiotice de um asno
    que acredita em tudo
    por não ser capaz de discernir o óbvio.

    Os homens,
    com todos os seus mágicos,
    revelam a estupidez da espécie
    que acredita na vida
    como sendo o caminho para a salvação.

    A vida,
    com todas as suas armadilhas,
    revela a esperteza de um camaleão
    que dissimula aos homens
    a sua completa inutilidade como veículo.

    O Acaso das Manhãs.

  • Poema #51: Andarilho no Quintal

    sou nascido e criado
    na roça
    acostumado com as durezas
    da vida

    racho lenha para o sustento
    com um machado cego
    de cabo de pau-mulato
    herança do meu avô

    após almoçar no quintal
    uma empurra a outra na moita
    e eu saio aliviado para o round
    da luta suja e feroz do homem.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #50: Andarilho Descalço

    estou sem almoço
    e sem janta
    e com duas costelas
    quebradas

    meu caminhar é pele
    sobre o bronze
    do asfalto, atrito
    suave de quem sonha

    estou sofrendo
    com as calças e tudo
    e isso é nada para
    quem vive na rua.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #47: Andarilho deitado

    O vento sopra um frio doido e esquisito
    na curva da esquina de um terreno baldio.
    Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
    atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
    de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
    Apaguei todas as luzes da esperança
    e estou sendo mordido por cachorros de rua.
    “Atualmente eu vivo rodeado por minhas
    paixões defuntas”. Todas inclusive,
    menos uma delas: a paixão do absoluto.
    Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
    (você quer pegar os balões? Coitado, mas
    eles são feitos de sonhos que estão muito
    acima da sua compleição). Talvez nunca,
    quem sabe, mas eu acabei de comer agora
    uma casca de pão e um pedaço de linguiça
    como tira-gosto da pinga. Houve uma época
    distante em que eu comia arroz e tomate
    nos degraus da escada de uma igreja no alto.
    A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
    Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #46: Um Cão

    Um cão latindo na noite
    é sempre um cão.
    Sem cor, sem nome e sem
    significado
    para quem o está ouvindo.

    No entanto este cão
    traz em seu latido,
    sombras de milhões de outros cães
    sintetizados
    em uníssono noite adentro.

    A chuva não consegue abafar
    este inquietante latir,
    profanando o sono dos homens
    e o sectarismo estático
    das coisas e dos seres.

    Alguém para se ver livre
    do incômodo latido
    desfechou tiros na escuridão,
    e a noite se arrastou em insônia.

    Da boca sangrenta daquele cão morto
    brotaram ruídos confusos
    que invadiram as ruas e as casas,
    mostrando a todos a inutilidade do ato.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #45: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #44: Numa Janela do Mundo

    As nuvens tecem
    uma história diária
    e sem antecedentes.
    Não sei se pode
    chamar de trabalho
    (o trabalho das nuvens)
    o que parece ser mais
    um deslizar contínuo
    de um sonho que não
    se sabe a si mesmo
    e apenas escorre
    para um vazio profundo.

    Eu, que estou na janela,
    vejo as nuvens
    e não enxergo a razão
    de se estar a vê-las
    sem que se possa
    interferir ou sustar
    a sua indiferença.
    A vida humana é mesmo esse
    estar-sempre-dependurado
    a uma janela da inércia
    fechada para o infinito.

    Inventário de Sombras

  • Marinhas de Vinna

    Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, anjos com substância de crianças, orquídeas de vidro, estampas de pátinas brilhando à sombra dos mistérios e pássaros de lata despertando Maras. Fileiras de peixes nas trilhas do universo e os sinais e os signos que saltam ao chamamento das águas. Estenografia de códigos rompendo o silêncio e o diário de Jonathan esquecido nos caixotes do castelo de Mairiporã. Nada afinal daquilo que fosse submerso, subterrâneo: tudo dista. A esperança atravessou a quilha e não encontrou nada além da terra nativa pulverizada de cinzas e os fantasmas. E parecia simples seguir o diário de bordo. O capitão já estava morto e amarrado ao leme. A meia linha inteira que nunca se concretiza. O camarote, o beliche e aquela escotilha que nunca se fecha de noite, as vagas do mar bem dentro, o meu esforço supremo de escrever e o ateliê de sensibilidades de Vinna.  

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #42: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #38: Em Brancas Nuvens

    Alguns dos meus
    poemas são como
    letras de música
    sem música.

    Alguns dos meus
    gestos são como
    atos de uma peça
    sem atores.

    Alguns dos meus
    sonhos são como
    um comício público
    sem plateia.

    Alguns dos meus
    atos são como
    um filme mudo
    sem cenário.

    Alguns dos meus
    delírios são como
    uma transgressão
    da vida no sonho.

    Muitas das minhas
    loucuras são como
    a minha própria
    vida & literatura,
    inéditas no final
    das contas.

    Inventário de Sombras
  • FERIADO

    Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansiedade pura. Aqui dentro a vida que tenho tido como espaço permitido ao corpo. Lá fora a vida que eu poderia (talvez) ter se imperasse o sonho de estar além do espaço físico, como uma antevisão de um espaço neutro concernente à paz. Acrescento ainda que esta noite é de finados e a questão é transpor ou não o limite da porta.

     Inventário de Sombras

  • Poema #30: Porém, Nada Dizia

    Gosto do silêncio.
    Prefiro ficar em silêncio.
    Vejo as pessoas conversando
    e a imagem que me fica é a
    do cuspe trocado entre elas.

  • Poema #27: Uma Poesia a Marteladas

    eu faço versos
    como quem martela
    as sílabas do vocabulário:
    trôpego quase sempre.

    eu faço poemas
    como quem sofre
    as pancadas do destino:
    difíceis como sempre.

    eu sobrevivo
    como quem hiberna
    na escuridão da noite:
    dilacerado sempre e sempre.

    com a música do Led Zeppelin
    “since i’ve loving you”
    para acompanhar
    o meu enterro.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #17 – CORPO

    foi preciso
    que eu fosse
    envelhecendo
    para entender
    (em parte) o
    erotismo tardio
    nos poemas de
    Drummond.

    é que precisamos
    ir perdendo para
    poder reconquistar.
    é preciso ir morrendo
    pra aprender a gostar
    da vida e tentar
    (quando não é mais possível)
    usufruir da beleza da água

    que acabou de passar.

    Da Essencialidade da Água

  • Poesias de 1 a 99

    002# – AGUACEIRO

    A chuva cessou de chover
    e já agora eu posso
    tirar as mãos dos bolsos
    e atravessar a rua.

    Mas já não tenho mãos
    e nem tampouco posso
    atravessar esta rua, pois
    a água levou-me as pernas.

    E a rua, embora chovida, está seca.
    Eu fui a chuva que choveu e ninguém viu.

    Milton Rezende in “O Acaso das Manhãs”


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