Mingau

  • O cão que sabia esperar

    Chamava-se Mingau. Era jovem ainda. Uma mistura de beagle com sei lá o quê.

    Chegou a casa numa noite de chuva, só pele e osso, com os pelos encharcados e a cabeça cheia de feridas. Meu pai lhe deu o resto do prato. Pedi para ficar com ele, mas minha mãe disse que ia dar trabalho e que acabaria sobrando para ela. Mesmo assim, ele ficou.

    Nunca pulou em ninguém. Não pedia comida. Dormia num canto da sala e vigiava, atento, quando deixávamos o portão aberto.

    Quando cresci, ele já andava torto. O rabo balançava devagar. Uma orelha ficava ereta; a outra, caída. Só os olhos continuavam espertos: dois furos negros cravados no pátio, como se esperassem que os passarinhos viessem bicá-los.

    A rotina era essa: eu saía, ele ficava parado. Não corria atrás de nada. Nem de gato, nem de galinha. Também não latia. Apenas acompanhava com o olhar. E ficava.

    À tarde, quando eu voltava da escola, lá estava ele. No mesmo lugar. Sentado. Às vezes deitado. Mas sempre ali.

    Uma vez perguntei por quê. Meu pai disse:

    — Cachorro é bicho que espera.

    Na aula de História, o professor — sujeito que gostava de tudo quanto era bicho — contou sobre um cachorro japonês que esperou o dono por anos na porta da estação. O homem morreu, mas o cão continuou voltando ali, dia após dia, até o fim da vida. Virou estátua. E, até hoje, é lembrado.

    Achei bonito. Contei pro meu pai.

    Ele apenas disse:

    — É Hachiko.

    Saí de casa ainda adolescente. Faculdade, primeiro emprego, a correria do mundo lá fora. Mas, sempre que eu voltava, lá estava Mingau — no mesmo canto, diante do portão — como se o tempo tivesse passado só para mim. Cego, como se sempre tivesse sido. As patas trêmulas. O corpo frágil, tombado de lado.

    Da última vez que o vi, não me reconheceu de imediato. Depois, mexeu as narinas e me farejou. E então fez aquele ruído baixo de cão, que não é choro, mas é pior do que isso.

    Sentei com ele no chão. Cocei atrás da orelha, como ele gostava. Mingau encostou a cabeça na minha perna e dormiu. Ficou ali até o anoitecer. Eu fiquei em silêncio, até minha mãe acender a luz da varanda e perguntar se eu ia entrar.

    E eu disse:

    — Daqui a pouco eu entro.

    Na semana seguinte, fui embora. Mingau morreu três dias depois.

    Na manhã do quarto dia, minha mãe o encontrou caído de lado, com os olhos abertos. Olhos de quem, talvez, ainda esperasse uma última visita.

    Ela contou que Mingau passou os três dias deitado no portão. Não comeu. Não dormiu. Não se moveu.

    Meu pai chorou. Disse que aquele cão só podia ser a reencarnação do Hachiko. Minha mãe não confirmou nem negou, também não se surpreendeu. Apenas baixou o olhar e pediu que me ligassem, para que eu pudesse vê-lo.

    Naquela época, eu não acreditava que bicho entendesse de ausência. Mas sei disso agora, quando penso no Mingau.

    Foi no silêncio daquele portão, diante de um cão que esperava mesmo quando ninguém mais vinha, que me dei conta do que queria fazer da vida.

    Hoje, sigo o rastro de outros cães. Procuro histórias que me façam lembrar do que vivi com o Mingau. Tento ajudar os que ainda não aprenderam a escutar os animais.

    Larguei o emprego. Tornei-me treinador. E, no fundo, nunca deixei de voltar àquele primeiro cão.

    Acho que ele ainda está lá. Não em corpo, mas no gesto de cada cão que sabe esperar. Como quem ensina, sem palavras, que amar também é saber permanecer.

    *Ao meu cão Duque, por todas as vezes em que ele espera sua doninha junto ao portão.

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