Moacyr Scliar

  • A guerra íntima de todo leitor

    Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.

    Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.

    Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.

    Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.

    Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.

    Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.

    Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.

    Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.

    Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.

    Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.

    Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.

  • Alegoria do pitaco

    Diria o maluco que cada um tem sua loucura. Uma das minhas é ler crítica literária. Mesmo quando espremido num cotidiano atribulado, um artigo de quatro ou cinco páginas sempre encontra uma brechinha entre canecas de café. E desde muito tenho essa mania. Outra louquice é inventar desafios relacionados à leitura. O último é ler os treze (ou quatorze?) volumes do compêndio intitulado Pontos de Vista, contendo cinquenta anos de críticas literárias do Wilson Martins. Provavelmente esse seja o trabalho sistemático mais longevo da área. Por si só, uma baita empreitada.

    O autor me chamou atenção desde a primeira leitura pela profunda fundamentação do seu argumento, sempre escrevendo com estilo singular e sem receio de magoar o escritor em questão. Pela análise do Wilson passaram as obras de todos (ou quase todos) os escritores que estudamos na escola e outros que agonizam em bibliotecas antigas. Há também textos sobre obras cujos escritores nunca ouvimos falar porque foram esquecidos ou subjugados sem jamais terem uma reedição. Inclusive perdi a conta de quantos autores conheci nessa campanha.

    Dizem que Moacyr Scliar andava com um recorte de jornal no bolso, pronto para mostrar às pessoas o elogio do temido crítico a um dos seus primeiros livros. Wilson tinha o respeito de leitores e escritores (por esses, vez ou outra, era evitado, talvez odiado). Imagino como seriam recebidos seus artigos no mundo atual, sobretudo se terminassem dessa forma: “Marcos Rey afirma ter escrito para livrar-se de um pesadelo, ‘apenas porque não sabia compor música ou pintar quadros’. Por que não tenta?”. De fato, não deixava pedra sobre pedra, nosso querido Wilson.

    Não lembro se li algo escrito por Marcos Rey; mas, ao me deparar com esse comentário, ao fim de um artigo detalhado, exemplificando em minúcias as características do texto e destacando as inconsistências, não sei se hoje compraria seus livros. Não digo que a minha opinião dependa da indicação do Wilson, mas também não nego que a anuência dele pese um bocado quando estou vagando nos sebos por aí.

    Quando soube, por outra leitura, que o Wilson havia tecido comentários acerca da obra Cogumelos de Outono, de Gladstone Osório Mársico, busquei rápido essa referência. Não me decepcionei, de todo. Na crítica, disse que Gladstone errava ao perder tanto tempo com obras satíricas, pois tinha talento para apresentar algo de maior envergadura à literatura brasileira. Um tanto dúbia a minha alegria: por um lado, reconhecia Gladstone como um bom escritor; por outro, rechaçava os romances satíricos de que tanto gosto. Enfim, anos e anos depois, Gladstone continua sendo um dos meus autores preferidos e Cogumelos, um dos meus romances preferidos. E também não é reeditado há décadas (alô, amigos editores).

    Nessa empreitada de treze livros (ou quatorze? Jamais encontrei esse último), perdurarei por seis ou sete anos e, para dizer a verdade, não tenho nenhuma pressa em terminá-la. Trata-se de um daqueles prazeres à conta-gotas para os quais não há muita explicação. Se é verdade que encontramos a felicidade (ou qualquer coisa parecida com ela) quando não queremos que algo acabe, talvez eu a tenha achado lendo crítica literária. Pois é, cada doido com sua doidera.

    O fato é que poucas alegrias se comparam à leitura de uma crítica elogiosa a um livro de que tenha gostado. Aconteceu na semana passada com A assunção de Salviano, do Antônio Callado. A exaltação do Wilson a um romance apreciado de antemão me serve como um afago, uma saudação afetuosa de reconhecimento, confirmando que a minha opinião vale alguma coisa e está correta (ainda que envolta a muitos poréns, como toda opinião literária correta). Por fim, mostra ao meu ego um tanto inflado como sou um bom leitor e transforma a leitura num regozijo intelectual, por assim dizer. E, para completar, me sinto como um aprendiz de trombadinha que arruma briga na rua, com o irmão mais velho à espreita, pronto para intervir, garantindo a impossibilidade da surra, do pontapé e da vergonha. Mas, voltando ao assunto das reedições, por que mesmo ninguém reeditou ainda as obras do Wilson Martins?

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