Monte Sinai

  • Entre Rolês e Rodeios

    Já disse em algum lugar — não lembro onde — que nem o cronista descansa: se deixa o bloco de anotações em casa, não importa. Você ouve uma frase no táxi, na pastelaria, na farmácia, no Uber e sente aquele chamado para a escrita, algo como: ali dá uma crônica da boa.

    O meu, outro dia, foi a palavra rolê. Com o controle remoto, pulando de canal em canal, vi uma garota falando: “eu acho que a minha grande crítica a esse rolê dos suplementos”. Rolê? Será que os suplementos pegam Uber sozinhos, fazem caminhada ou nós é que vamos num rolê até a academia mais próxima? Achei engraçado.

    Em outro momento, num vídeo da internet, o rapaz falou: “este rolê da Bíblia é algo diferente”. Pronto. Já imaginei os apóstolos subindo o Monte Sinai de short, tênis da moda, garrafa de água e barra de cereal. Tomando Gatorade no meio da revelação divina. Moisés, coitado, descendo com as tábuas da lei debaixo do braço e reclamando que não tinha wi-fi lá em cima.

    É curioso como, sem perceber, a pessoa encalha numa palavra e vai usando para tudo. A palavra funciona como um tênis velho, um jeans e uma camiseta que servem para qualquer ocasião. Como se as palavras fossem a roupa do corpo quando a companhia aérea perde a mala da gente: você não tem outra escolha, vai de calça surrada até no casamento. É o rolê virando uniforme oficial da fala.

    Rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê da missa, rolê da gula, rolê do vestibular, rolê dos livros clássicos. Daqui a pouco, terá rolê da TPM, do Pix que não cai, da geladeira que pinga água no chão. E a gente, claro, embarca em todos esses passeios — mesmo sem ter comprado ingresso.

    Antes, você chamava um amigo para um chope ou uma ida à praia e falava: “vamos dar um rolê?” Ia bater perna, sair em boa companhia, ir pra farra. Hoje, com essa macaquice de rolê, ninguém sabe mais o que significa. O que era passeio virou conceito, mania, tique verbal.

    Fico imaginando o Deus-nos-acuda que deve ser um estrangeiro aprendendo português. Deve ficar com a cuca fundida, saindo fumaça pelas orelhas. Afinal, esse rolê de novas línguas leva tempo. O sujeito mal decorou o “bom dia”, e já tem que enfrentar o “rolê do boleto” e o “rolê da psicanálise”. Coitado.

    Mas acontece que, de região para região deste meu Brasil, cada palavra tem seu charme. É uma característica de cada povo, uma particularidade, um jeito. O rolê, não. É o primo pobre das gírias atuais, aquele que todo mundo usa sem saber por quê, que se espalha feito vírus e não deixa saudade.

    O problema é que, sentadas cada uma na sua casa, as pessoas desaprenderam o rolê verdadeiro. Com o cachorro ao redor do quarteirão, com o seu amor no cinema, com os filhos na passagem de ano. Daí vem esta macaquice linguística: rolê da Bíblia, rolê dos suplementos, rolê do vestibular.

    Mas deixa eu sair de fininho antes que, pego de calças na mão, alguém venha me inventar o rolê da crônica. Só faltava essa. Pernas pra que vos quero.

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