Na verdade

  • Na verdade, a verdade é Judicial

    Enquanto acordava comecei a pensar sobre uma palavra que tem sido bastante falada nesses últimos tempos, ou seja, “verdade”. O que seria verdade? Segundo o DICIO, essa palavra significa: “Que está em conformidade com os fatos ou com a realidade: as provas comprovavam a verdade sobre o crime”. Dada a significação, eu volto a perguntar: é possível dizer com precisão os fatos ou a realidade?

    Deixo esse primeiro parágrafo apenas como uma reflexão. Isso porque, nos últimos tempos estamos vivendo no mundo uma verdadeira disputa pelo que é verdadeiro. Acontecimentos históricos são reinterpretados de acordo com as ideologias de quem os conta. Dessa constatação, ganhou muito espaço o conceito de pós-verdade, que segundo o mesmo DICIO significa: “Contexto em que se desvaloriza a verdade objetiva, comprovada pelos fatos, aceitando qualquer discurso como correto”.

    Nesse sentido, será que existe verdade ou é tudo pós-verdade? Ou seja, será que é impossível chegar a uma versão verdadeira sobre um fato? Esse texto de perguntas e mais perguntas, no fundo, serve como uma mera reflexão, pois a intenção é dizer que se tem uma palavra cujo real significado ficou perdido, trata-se do termo “verdade”. Apesar disso, a busca por ela é uma constante na vida de todo o ser humano, seja qual ideologia ele segue.

    Por exemplo, o reconhecido pensador Walter Benjamin defende a ideia de “escovar a história a contrapelo”. Nesse sentido, diante da predominância da versão do vencedor sobre a do vencido, é importante que os historiadores se preocupem também em contar a história de quem perdeu. Esse autor faz pensar na perspectiva de um interessantíssimo ponto de vista. Agora, será que em um contexto de redes sociais podemos falar em um contexto de história do vencido e do perdedor?

    Quando eu falo isso, me refiro ao caráter extremamente plural das redes sociais. Até seu surgimento, muitas pessoas poderiam se sentir totalmente isoladas do que ocorre no mundo. Agora, com a possibilidade de conexão em escala global, até a pessoa com os hábitos socialmente mais esquisitos pode achar outras com quem se identifique. Em um contexto como esse, existe a possibilidade de existência de “múltiplas verdades”.

    Voltando ao conceito de verdade, para exemplificar, eu diria que ela, na realidade, não é definitiva, mas muito parecida com o objetivo de um processo judicial. Ou seja, nele partes opostas tentam provar seu ponto de vista sobre um fato trazendo provas que os favoreçam. Esses pontos de vista contarão com diversas figuras de apoio (advogados, promotores, testemunhas de defesa ou acusação, dentre outros). No final, tudo isso será decidido por um juiz que será o responsável por “estabelecer a verdade”.

    Como seria mágico se em nossas vidas tivesse um juiz que determinasse a verdade, não é mesmo? Dessa forma não precisaríamos nos preocupar e nem arrepiar os cabelos. Bastaria seguir o que o juiz determinou. Falou, está falado. Infelizmente, a vida não é assim, e sendo a verdade judicial (ou processual) é muito importante que estejamos sempre servindo como guardas ou vigias dela. Caso contrário, daqui a alguns anos estaremos sofrendo sérias consequências pela predominância de versões absurdas de fatos passados.

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