Engraçado: sou fã de carteirinha de muita gente séria e focada que vejo pelas ruas. Parece que, de tão preocupadas, vão resolver o problema da humanidade, todas as injustiças do mundo. Gente que não se distrai nunca, não perde tempo, não olha pro lado.
Queria ser assim, mas não sou.
Estou mais preocupado, claro, com coisas que se passam dentro de mim: uma música que ouvi e não me saiu da cabeça, uma piada que me faz rir sozinho na rua, uma saudade de um amor que passou, um filme que eu vi.
Aí, naturalmente, quando saio de casa, não me lembro se minha ideia era ir no açougue ou no hortifruti do bairro. Se era pra comprar pão ou alpiste do passarinho.
Outras coisas que, invariavelmente, eu esqueço: horários de compromisso, datas, aniversários — a vida organizada dos outros.
Mas, quer saber?
Acaba dando tudo muito certo.
Se eu deixo passar a data de um concurso, as inscrições são prorrogadas.
— “Você viu que as inscrições foram prorrogadaa?” — me avisa um amigo.
Se eu perco o horário de um ônibus, um conhecido passa e me dá carona. Se eu perco um documento de RG, alguém acha e me liga.
Acho que, de certa forma, o acaso gosta dos distraídos. Vive dando uma forcinha, arrumando um atalho, uma saída de emergência qualquer.
Como aquele motorista de ônibus que, solidário com a minha pressa, desviou a rota só pra me deixar no trabalho. Ele disse que não podia. Mas fez.
Acho que o mundo tem pena dos distraídos. Ou, quem sabe, simpatia.
O mundo está cheio de gente certinha demais, preto no branco demais. Talvez seja por isso que ele ajuda tanto gente distraída como eu.
Que sai pra comprar pão. E volta com saudade.