Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade.
As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”.
Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais do que o próprio biscoito. A vontade do quero-mais é um vício que se disfarça de hábito.
Semana passada, algo mudou. No lugar do velho Globo, um novo concorrente se impôs: o Biscoito Extra. Saquinho branco também, mas com outra estampa. Uma garotinha segurando a rosquinha no alto, o Pão de Açúcar desenhado abaixo, e atravessando tudo a palavra “extra”, azul turquesa sobre fundo amarelo. Por um instante, parece o mesmo. Mas não é.
Gabriel, um dos donos, jura que a matéria-prima é a mesma. E talvez seja mesmo. Mas não é disso que se trata. Ao mastigar o Extra, sinto como se cometesse uma pequena traição. Globo é memória, é fidelidade, é aquilo que a gente carrega sem precisar explicar. Como quem bebe Coca-Cola e insiste que Pepsi não é igual. Pode até enganar, mas não convence.
Não sei se o carioca vai trocar um pelo outro. Eu, pelo menos, não consigo. Talvez no fim das contas nem importe. Porque os ambulantes continuarão a impor seus produtos, e a cidade seguirá engolindo-os, distraída, como sempre foi.
E lá se repete a pergunta, reformulada:
— Doce ou salgado? Biscoito de polvilho Extra, quem vai?
*Escrito originalmente em: Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2006