O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

  • O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

    Era madrugada, por volta de uma da manhã. M. faz um grande esforço para sair de seu apartamento sem fazer barulho. Precisava se fazer invisível. Caminha até a porta e observa o movimento da rua. Embora conhecesse todos os pontos não filmados por onde poderia passar, precisava ter o máximo de cuidado. Embora fosse ateu, caminhava sussurrando orações que nem sabia ao certo.

    As ruas estavam desertas. Escuras. Uma espécie de barulho contínuo assombrava seus ouvidos, não conseguia saber se era real ou mera fantasia causada pelo seu medo de ser descoberto. Andava rápido, mas silenciosamente, como se fosse um invasor no lugar onde nasceu e viveu ao longo de toda a sua vida.

    Após toda a tensão, conseguiu chegar ao local desejado. Era uma portinha, bem castigada pelo tempo, que somente uma pessoa muito observadora, ou um robô perfeitamente programado, poderia notar. O local perfeito para o obrigo de esquecidos.

    Seu interior era uma sala pequena com uma mesinha iluminada no meio que deixava escuros os cantos do ambiente. Quando chegou, viu os que já estavam presentes. Ao todo cinco. Cumprimentou a todos e perguntou:

    — Será que vem mais alguém?

    — Vamos esperar. Chegar até aqui virou tarefa para poucos. Os robôs de ronda estão cada vez melhores. Chegará o dia em que não conseguiremos mais nos encontrar. — disse J.

    Esperaram durante um tempo. Apenas mais três chegaram. Então W., o anfitrião da reunião, toma a palavra:

    — Vamos iniciar. Hoje são oito, ontem eram dez. Amanhã? Ninguém sabe. Vamos aproveitar este momento.

    G., um dos integrantes comenta:

    — Hoje quase fui pego ao tentar chegar aqui. Eles não sabem o que é errar, exigem que sejamos perfeitos, da mesma forma que foram criados para ser. Quando nos detectam nas ruas, nem perguntam. Em segundos, perdemos nossas vidas. Eles não têm coração — disse P.

    — Vamos a primeira leitura da noite. M., por favor.

    — O preto é preto/ O branco é branco/ Se o preto não é branco/ O branco nunca será preto.

    Todos os presentes naquela sala começam a gritar e a se abraçar com enorme euforia. Alguns extremamente emocionados abraçam M. Outros permanecem chorosos em seus lugares. F., sem conseguir se conter, grita:

    — Como é bom poder ouvir livremente poesias ruins!

    Emocionado, W. se prepara para chamar o responsável pelo próximo poema.

    Toda euforia ali vivenciada, era sinal de um novo tempo. O mundo já não era o que foi um dia. A Inteligência Artificial aprisionou os humanos e tentava reprimir sua humanidade. Valores como o amor, a solidariedade, a amizade e. até mesmo, o erro, não podiam ser tolerados. Algoritmos só funcionam se criados com perfeição. Nesse mundo, poder escrever poesias ruins era um privilégio. Aqueles homens, ao rirem da imperfeição, faziam uma revolução em busca da liberdade.

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