O homem que não gostava de nada

  • O homem que não gostava de nada

    Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.
    Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe.

    Certo dia, chamei para um cinema.
    — Nossa, cinema é tão chato.
    — Mas é filme do Almodóvar.
    — Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha.

    Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.
    — Eu não. Aquele monte de gente.
    — Uai, mas você não gosta de gente?
    — Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.
    — Descansar do quê?
    — Ah, sei não. Descansar só.

    Aí veio uma banda de rock, num pub legal, um lugar escondido em BH.
    — E aí, topa?
    — Vai, e depois me conta.
    — Mas você adorava rock.
    — Ah, seria bom, mas roqueiro, em geral, grita muito. E fora o flanelinha, não é? Sempre de olho nas moedinhas da gente.

    Sugeri uma ida para a praia.
    — Mar? Não acho a menor graça.
    — Mas com este calor?
    — Ah, muito sol. Mar é perigoso. Outro dia, vi na televisão que três banhistas…

    Última tentativa.
    — E se a gente saísse pra comer?
    — Onde?
    — Naquele restaurante de sempre.
    — Vixe, estou de dieta.
    — Mas lá tem comida vegetariana.
    — Não é a mesma coisa.
    — Por que não?
    — Porque eu só como carne de hambúrguer e alface, e tem que ser do alface aqui perto de casa, que é mais saudável, nutritivo, e o hambúrguer no mesmo sacolão.

    Não gosta de samba, de sol, de chorinho, de mar, ou de lagoa. Desliguei o telefone, olhei para o garçom, e ele disse:
    — Mais um chopinho?
    — Pode trazer.

    O chope estava absurdamente gelado, e era só o que eu precisava.

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