Quando inventaram o DVD, mataram o VHS.
Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.
Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.
O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.
Mas sabe de uma coisa?
O mundo não topa ser só virtual.
O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.
Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.
Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.
Raridades? Sim.
Extintas? Nunca.
Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.
Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.
E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.
Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.
Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.
Ninguém existe sozinho.
Ninguém existe só no on-line.
Nem só no off-line.
Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.
E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.