O porteiro que era dono de uma ilha de livros

  • O porteiro que era dono de uma ilha de livros

    No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros.

    Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros.

    Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca. Pegou, folheou livros, se sentiu desafiado — adorou. Não largou nunca mais os livros. Hoje, leu mais de mil obras. Rui Barbosa, Machado de Assis, “Capitães de areia”, de Jorge Amado.

    Ele mora em Barra do Pojuca, litoral norte da Bahia, onde trabalhadores partem rumo aos condomínios de luxo.

    Não deixou de ser porteiro. Quer uma vida simples: café, trabalho, almoço, janta, fim de semana com a mulher — e livros sempre por perto.

    Espia a lista: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis; “1984”, George Orwell; “Assim falou Zaratustra”, Nietzsche.

    Enquanto muitos trabalham e dormem aos domingos, ele viaja por outros mundos, em épocas e terras distantes.

    Descobriu que ler é viver muitas vidas. E que, ao fechar o livro, as histórias continuam na cabeça dele.

    Muitos imaginam esse porteiro lendo com filho no colo, “O Sítio do Picapau Amarelo”. Ele sorri e cita Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a ninguém o legado da miséria humana”.

     Ele lê por prazer — rir, chorar, viajar.

    Agora, quer estudar e prestar concurso público. Sabe: existe uma vida para viver, e outra para sonhar. Este vai longe.

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