O Zé roubou a Cida, só porque era vesgo o pai não permitia o casamento? Não foi por esse motivo, a Cida estava prometida a um outro – e promessa é dívida. No dia seguinte, ainda no orvalho da madrugada, escurinho, os dois irmãos bateram na porta do Zé, que ele saísse fora de casa, para morrer.
O Zé saiu de peito aberto, olhou nos olhos dos cunhados e mandou que atirassem. Os dois tremeram na pontaria – diacho de homem que olha para um lado e a gente pensa que está olhando para o outro. O Zé mandou que atirassem mais uma vez, enquanto os olhos tortos entortavam a pontaria de novo.
Aí o Zé disse: – Cristo mandou dar a outra face, eu dei. Agora é a minha vez – e avançou com o facão contra os dois.
Os pobres estavam tão desprevenidos que nem tiveram tempo de reagir, morreram sem saber o que estava acontecendo.
Quando o Zé viu, o sogro caminhava contra ele. O velho tinha os olhos em brasa: – Excomungado! Tem parte com o capeta! Já me tirou a filha e os filhos, já me tirou a vida – e, apontando o revólver contra o próprio peito, disparou.
O Zé ficou pouco tempo na cadeia; fora legítima defesa, e ele tinha que sustentar a mulher e a sogra, as duas juntas para ajudar a lembrar.
Por uns quarenta anos, o Zé amargou um remorso dos diabos. Tanto comeu do fruto doente da árvore da memória, que um dia resolveu ganhar coragem e cortar o mal pela raiz: uma dose de cianureto, e estava selada a abdicação.