O final de semana prometia ser intenso. Depois de anos sem nos reunirmos, decidi chamar Roberto, Samanta e Maritza para a casa de praia. Oficialmente, discutiríamos os detalhes das comemorações de Natal. Mas, no fundo, eu queria testá-los — ver até onde cada um iria, agora que o mundo estava virando do avesso.
O governo de transição havia decretado novas normas financeiras e sociais, e o colapso lá fora fazia a cidade oscilar entre apagões e sirenes distantes.
Dentro da casa, queria um microcosmo de controle absoluto, protegido pelo cheiro salgado do mar e pelo vento que assobiava pelas janelas mal vedadas.
Samanta chegou primeiro, trazendo consigo Fênix, a gata preta de olhos verdes que pareciam perfurar minha mente. Eu não suportava felinos — alegava alergia, mas o que realmente me incomodava era essa sensação de ser avaliado a cada gesto. A gata se instalou na minha poltrona favorita, como se fosse a dona da casa, e me fitou com uma calma que doía.
Logo depois, Roberto surgiu com seu Land Rover e uma caixa de espumantes caros, tentando impor normalidade. O vento carregava o aroma do álcool e do mar para dentro da sala.
— Um brinde ao velho mundo! — anunciou.
Brindei, polidamente. Ele não percebeu o veneno escondido na minha voz. Maritza chegou por último, exalando o cheiro químico do trabalho com taxidermia, os olhos brilhando de excitação e imprevisibilidade.
— Não se preocupem — disse, rindo alto demais —, não trouxe o material.
Mas vocês entenderam o recado.
Ninguém riu. Sua risada reverberava, arrastando um eco que parecia pertencer a outra casa.
O jantar foi uma encenação meticulosa. Rimos, brindamos, trocamos farpas sutis. A luz das velas tremia, projetando sombras alongadas e distorcidas pelas paredes descascadas. O vento arrastava folhas para dentro da varanda, e cada sussurro do mar parecia aproximar-se de nós. Eu os observava, maestro de um
concerto dissonante, e sentia prazer no controle absoluto.
Fênix permanecia imóvel sobre a poltrona, fitando-me com olhos que queimavam no escuro, como se compreendessem cada pensamento. Meu coração disparava, uma mistura de medo e fascínio.
Mais tarde, aproximei-me de Maritza.
— Maritza… aquela gata é perfeita. A pelagem, os olhos… uma obra de arte viva.
Ela franziu o cenho.
— Você está bêbado.
— Ou lúcido demais — retruquei. — Imagine preservá-la… congelar o instante.
Não é o que você faz com suas peças?
Ela riu, nervosa, e o som reverberou pelo corredor.
Na madrugada, não consegui dormir. Andei pelos corredores escuros, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Cada rangido parecia amplificado, cada sombra movia-se de maneira suspeita. Roberto dormia, Samanta ressonava, e a tigela de Fênix estava vazia. A poltrona também.
Acordei tarde, garganta seca, coração acelerado. Maritza e o furgão haviam desaparecido. Samanta perguntou pela gata.
— Deve ter fugido — murmurei, tentando soar natural.
Na tarde seguinte, Maritza retornou. Entrou silenciosa, depositou um pano preto sobre o banco traseiro do furgão e subiu para dentro da casa. Nada mais.
Nenhum gesto, nenhum comentário. Apenas o pano imóvel, sem volume, como se fosse uma sombra esquecida.
À noite, sozinho na sala, senti o ar pesado, o cheiro salgado misturado com algo metálico que não consegui identificar. Meus olhos se fixaram na poltrona vazia, e por um instante jurei ver dois olhos verdes me fitando. O olhar era intenso, perfurante, penetrando minha consciência como se me acusasse.
Pisquei. A poltrona estava vazia. Mas a sensação permaneceu, tão viva que o som do vento e do mar se misturava a cada batida do meu coração. Como se Fênix, de algum modo, ainda estivesse lá.