Os esquecidos

  • Os esquecidos

    Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transformam coisas em cores e só têm olhos para onde seus pés pisam.

    Um dia desses, um dia qualquer desses, algo surpreendente aconteceu no mundo. A terra tremeu e rachou, o mar se agigantou para além do que é ser gigante, bilhões de insetos romperam os ovos ao mesmo tempo, a lavoura secou, os animais caíram doentes, os homens e as mulheres sentiram o pavor na pele e choraram pelo destino de seus filhos. A água que se bebia ficou podre, a comida escasseou, o mato cresceu e tapou a paisagem, uma enfermidade veio após a outra, o ar se encheu de poeira, a lua se aquartelou atrás de um planeta desconhecido, o sol perdeu seus raios e pareceu esfriar.

    Enquanto tudo isso acontecia, o bairro dos esquecidos, de tão esquecido que era, foi deixado de lado. Em lugar já tão miserável, não havia espaço para mais miséria. Quis a sorte que as latas velhas e as pessoas que viviam dentro delas sobrevivessem ao apocalipse.

    Agora é com eles, com os esquecidos, e só com eles, que está esse negócio de crescer e se multiplicar de que falava um tal livro que eles nunca leram.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar