Pandê

  • Arca em regime fechado

    Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê.

    Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais.

    Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas.

    E assim começou o verdadeiro dilúvio.

    No papel, a Arca comportava todos. Na prática, nem tanto. Sobrava espaço para os coelhos (desde que fingissem bom comportamento), faltava para elefantes e rinocerontes. As reclamações se acumularam na porta de Noé até serem diplomaticamente abafadas pelo casal de corvos, especialistas em crises e carniça.

    Resolvido o espaço — ou fingido que — veio o problema real: convivência.

    Cento e cinquenta dias. Vinte e quatro horas. Sempre o mesmo par.

    Dividir ração, ar, silêncio, mau humor. Decidir quem limpa, quem cede, quem respira primeiro. Um experimento ousado: juntar dois seres diferentes num cubículo e chamar isso de harmonia.

    Deu muito certo. Claro.

    Os leões, por exemplo, entraram em colapso narcísico. Sem plateia, a juba perdeu o sentido. Passaram a competir diante do próprio reflexo: quem já foi mais admirado. Pequeno demais o espaço para tanto ego.

    Os elefantes transformaram a escassez em campo de batalha. Ela, ansiosa, comia por dois e justificava pelo confinamento. Ele, inflado de si, ameaçava abandonar o barco na primeira oportunidade. Trombas voaram. Gritos ecoaram. E, curiosamente, para os vizinhos, ele seguia sendo um exemplo de parceiro dedicado. As paredes afinam tudo — menos a aparência.

    As raposas optaram pela sutileza. Ela, doce como mel envenenado, sempre “sugerindo” que fosse servida primeiro. Ele, concordando — enquanto uma voz interna gritava o óbvio. Mas educação é isso: perder espaço com elegância.

    Já as gralhas aboliram qualquer protocolo. Brigavam alto, sem filtro, revisitando cada desavença desde o início dos tempos. Minutos depois, trocavam juras eternas. Um espetáculo completo, com direito a reconciliação.

    Para quem assistia, melhor não escolher lado.

    E os bodes — ah, os bodes. Permaneceram fiéis à tradição: chifradas por qualquer motivo. Porta, feno, respiração inadequada. Constância é uma virtude.

    Noé, dizem, passou a evitar os corredores.

    Moral da história: com ou sem dilúvio, cada um vive confinado na própria Arca.

    O problema não é o casal que você escolhe. É o bicho que você insiste em achar que não é.

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