parede íngreme

  • Montanha

    A inspiração é forte. A concentração, igual.

    Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão.

    Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra.

    Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los.

    A cada momento da jornada, entre um trecho de parede íngreme e outro, surge um platô mais amigável. Está ali para lembrar que ainda há mais a ser escalado.

    A sensação de estar lá, subindo devagar e firme, é única. Nada melhor que sentir a pedra quente nas mãos. A montanha firme, imóvel, e você subindo por ela.

    Silêncio profundo. Há vida à sua volta. Mas nenhum som chega até você. Impera a quietude.

    Um vulto passa longe. Você vira o rosto um pouco e vê um urubu voando. Sorri, e a ideia de a presença dele ser um presságio brinca na sua mente. Mas, qual nada. É só um urubu aproveitando uma térmica, a corrente quente ascendente. Ou, como diria Tom Jobim, dormindo na perna do vento.

    Admirar o voo do urubu serve para descansar um pouco. Mas agora, adiante. Aspirar o ar puro do alto da montanha. E seguir. Sem pressa, domando a ansiedade que cresce à medida que o cume se avizinha.

    O topo é o final da jornada. Cume ou chapadão, é para lá que você vai. O prazer da conquista é só seu. Egoísta? Nem de perto.

    Ninguém pode sentir o que você realmente sente nesse momento. Ou em outro qualquer da sua vida. Nenhuma narrativa, nenhuma imagem captada, nada na tecnologia humana é capaz de passar a outra pessoa o que você sente. A sensação, seja ela qual for, sempre será unicamente sua.

    No topo, você olhará para os lados. Para baixo. Vai suspirar satisfeito com sua conquista, para depois tomar o caminho de volta. Por onde subiu, vai descer. No mesmo ritmo, com o mesmo cuidado.

    E, a cada movimento para baixo na descida pelo paredão, a cada parada nos platôs, vai se lembrar de que cada conquista é única, mas não definitiva.

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