Poema #46: Um Cão

  • Poema #46: Um Cão

    Um cão latindo na noite
    é sempre um cão.
    Sem cor, sem nome e sem
    significado
    para quem o está ouvindo.

    No entanto este cão
    traz em seu latido,
    sombras de milhões de outros cães
    sintetizados
    em uníssono noite adentro.

    A chuva não consegue abafar
    este inquietante latir,
    profanando o sono dos homens
    e o sectarismo estático
    das coisas e dos seres.

    Alguém para se ver livre
    do incômodo latido
    desfechou tiros na escuridão,
    e a noite se arrastou em insônia.

    Da boca sangrenta daquele cão morto
    brotaram ruídos confusos
    que invadiram as ruas e as casas,
    mostrando a todos a inutilidade do ato.

    O Acaso das Manhãs

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