A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
A lua na casa de saturno
saturno na casa da lua
todo mundo em casa.
A casa de todos no mundo
todo mundo na casa de
todo mundo e eu que não
encontro o meu lugar
em lugar nenhum,
no escuro.
O Jardim Simultâneo
A vida,
em todas as suas formas,
revela a sutileza de um mágico
que hipnotiza a todos
para que não vejam seus truques falhos.
Os homens,
em todas as suas crenças,
revelam a idiotice de um asno
que acredita em tudo
por não ser capaz de discernir o óbvio.
Os homens,
com todos os seus mágicos,
revelam a estupidez da espécie
que acredita na vida
como sendo o caminho para a salvação.
A vida,
com todas as suas armadilhas,
revela a esperteza de um camaleão
que dissimula aos homens
a sua completa inutilidade como veículo.
O Acaso das Manhãs.
estou sem almoço
e sem janta
e com duas costelas
quebradas
meu caminhar é pele
sobre o bronze
do asfalto, atrito
suave de quem sonha
estou sofrendo
com as calças e tudo
e isso é nada para
quem vive na rua.
Um Andarilho Dentro de Casa
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.
O Acaso das Manhãs
Quero banhar-me nas águas sujas
Quero banhar-me nas águas sórdidas
Sou a mais solitária das criaturas
Me sinto só.
Confiei às mulheres os meus amores
Caí de quatro pelas sarjetas
Cobri minha alma de decepções
Valei-me Manuel Bandeira.
Vozes da morte contai a história
Da pessoa boa que sempre fui
E eu dormia ouvindo o ruído calmo
Do bambuzal
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
Subtraímos da vida
a sua menor parcela
para o preenchimento
de nossas carências.
Mas ao assumirmos o
controle desta mínima
propriedade, sentimos
que ela não nos basta
posto que a enxergamos
apartada de sua totalidade.
Acrescentamos então à vida
a parte restante que falta
para completar a visão que
nós temos do seu conjunto.
Mas ao nos atribuirmos a
capacidade de dispor dos
elementos de acordo com nossa
momentânea vontade, a vida
perde a complacência concedida
e resgata a sua fração que já
tínhamos e que era a única que
podíamos aspirar em nosso desconforto.
a gente
sempre se ressente
contra quem
supostamente
se diz muito
feliz
Da Essencialidade da Água
No meio da tarde
No meio do mundo
No meio da sala
estamos plantados
como uns cactos.
No meio da vida
No meio do sonho
No meio do amor
estamos atados
como uns escravos.
No meio do caminho
No meio da raiva
No meio do medo
estamos presos
como uns condenados.
No meio de tudo
No meio de nada
No meio sem meios
estamos perdidos
como uns abortados.
No meio da rua
No meio da noite
No meio da merda
estamos sozinhos
como uns deserdados.
No meio de nós
estamos morrendo
como os antepassados
No meio ele mesmo
estamos vivendo
como num trabalho forçado.
Somos uns cactos
num deserto de homens.
Gosto do silêncio.
Prefiro ficar em silêncio.
Vejo as pessoas conversando
e a imagem que me fica é a
do cuspe trocado entre elas.
Estou acordado
e não sonho,
mas a realidade
antecipada
me envolve.
A barba se me
desprende do rosto
fio a fio num frio
maior onde estou
me enregelando.
Tudo se dissolve
na aparência de ossos
de que fui formado,
e que é minha forma
mais resistente no mundo.
Mas a terra
(com seus vermes)
decompõe ao seu contato
todo o meu aprendizado
doloroso da vida.
E uma cova me absorvendo
transforma tudo o que fui
num triste resumo de pó
que um dia se chamou homem.
E que lhe deram um nome
(que tive), mas que a terra
aterra no tempo o traço
nominal dessa efemeridade.
“meu Deus, porque me abandonaste?
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco”
Drummond
protagonista
de minha vida pregressa
hoje sou coadjuvante
de ruinas.
nas águas do rio
fiz algumas tentativas
mas acabei afogando
na correnteza.
mudei de fase:
virei pescador
de sonhos frustrados
à beira dos barrancos.
galopei como quem
sonha por estradas
poeirentas de Minas
Gerais, sozinho.
empinei pipas e
papagaios em céus
nevoentos de minha
infância distante.
virei (ou tentei virar)
compositor de vanguarda
e fiz parcerias utópicas
com célebres defuntos.
amante de belezas glacias
as mulheres passaram
por minha vida como
barcos à vela naufragados.
fui poeta das condolências
em velórios de interior
quando o defunto era
o que menos importava.
candidatei a representante
do povo, mas não tinha
propostas viáveis no bolso
da algibeira rota e furada.
Da Essencialidade da Água
.
Vozes inaudíveis
golpeiam meu silêncio
de bicho entocado.
Sou perseguido por fantasmas
(desdobramentos de mim)
e os apascento
em precária unidade.
Sei da existência sem vida
e dos hálitos fétidos da morte
que povoam a noite dos túmulos.
Meu corpo é um mapa
onde se cruzam
os mais diversos caminhos
da imaginação fantástica.
Tenho todos os demônios
empalhados no quarto
e cada dia escolho um
para sustentar os pesadelos.
E sobre os meus despojos
carcomidos pelo tempo
e pelas mortes diárias
que impus a mim mesmo,
nascerá uma flor infernal
para devorar todos os homens.
O Acaso das Manhãs
Numa ocasião em que eu estava
(como das outras vezes) prestes
a me naufragar no abismo do delírio,
houve um sorriso de dentes postiços.
Mas eu já não queria mais cair
na cilada do amor fugaz e preferia
estar quieto e fugir para longe do
alcance de uma outra decepção.
Então eu me internei num hospício
e amarrei as minhas mãos ao pé
de uma árvore frutífera de onde
eu poderia escavar o chão de barro.
Ao fim do terceiro dia de psicopatia
veio a diretora dizer que eu deveria
partir para um lugar que não sabia
e me deram um endereço e o contato.
Era um lugar acolhedor e distante
coberto de grama e cerca de arame
mas quando fui atravessar a ponte
um cão vampiro me atacou de noite.
Sobrevivi como alguém que se esqueceu
da longa noite passada e caminha como
se o dia estivesse amanhecendo de novo,
apesar do rastro de sangue e a boca seca.
Havia uma casa deserta e eu pensei em
largar tudo o que eu não nunca tive e
vir morar aqui no meio dos bichos que
comunicam-se através de sinais e apitos.
Lembro de uma escada pintada de verde
e uma mulher bonita que veio me atender
com as mãos estendidas e um sorriso
encorajador para que eu dissesse tudo.
Não havia o que contar além do fato
de eu ter andado ausente e perdido
e que, nesse período, eu havia criado
enredos irreais para me manter vivo.
Tudo era então uma simples questão
de fechar os olhos para os pássaros e viver
tranquilo como os homens banidos de si
e que se refugiam no labirinto do amor.
Ai que delícia que é poder acordar e dizer
que estou vivo, mesmo não tendo nada
ao redor a não ser o microfone em que
digo isso e acompanhar o seu eco no abismo.
O Jardim Simultâneo
Nada consta.
Consta que seja um nada
em face a uma constância
de extremos inarredáveis.
Enfim
um nada consta sobre
outro consta um nada
— A vida incerta do homem —
Nas folhas gastas do mundo
não consta nada em
detrimento desse nome.
Um simples nome em meio
a tantos outros no arquivo
de uma gaveta metálica.
O Acaso das Manhãs
foi preciso
que eu fosse
envelhecendo
para entender
(em parte) o
erotismo tardio
nos poemas de
Drummond.
é que precisamos
ir perdendo para
poder reconquistar.
é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.
Da Essencialidade da Água
.
Sob uma chuva de outubro
o germe penetrou
no solo árido de mim,
onde as emoções se resguardavam.
Mas o sol e o raciocínio
dos meses subsequentes
atrofiaram o germe ávido
que havia trazido o amor.
E foram tantos os desencontros
do clima naquele ano
que a meteorologia afetiva
justifica-se culpando a ambos.
Agora, numa sala de espera
contígua à do esquecimento,
resta-nos como única saída
a eutanásia cúmplice
do que restou do sonho.
O Acaso das Manhãs
.
sabe,
há um momento
em que a lua
fica escura.
é quando,
a escuridão maior
vinda dos montes
cobre a Rua Fácil.
e tudo,
vira um só quadro
negro, uma lousa
fria que antecede
a morte.
Da Essencialidade da Água
No silêncio sepulcral desta noite
abro a janela
e recebo a visita do demônio.
Juntos travamos um pequeno diálogo
acerca da destruição do mundo.
Depois percorremos os cemitérios
e os ninhos dos pássaros agourentos,
respiramos o hálito da morte
e compactuamos da miséria dos homens.
A noite era fria e indiferente
aos nossos propósitos de celebração.
Com dedos trêmulos cavamos o altar
de nosso macabro ritual.
Antes, porém do sacrifício final
fomos resgatar a memória dos corpos
e garantir a permanência dos zumbis
sobre a face andrajosa do planeta.
Abrimos um caixão e uma brisa vaporosa,
que era ao mesmo tempo fúnebre e sensual,
despertou nossos instintos de espécie
e pouco depois e para sempre estava
consumado o ato lascivo e sagrado.
Chegamos depois ao altar fatídico,
e sob asquerosos protestos de ódio
à vida social e fútil dos vivos,
pegamos os punhais do sacrifício
e nos entregamos ao suplício eterno.
O Acaso das Manhãs
.
– Fala o poeta de vanguarda:
A estrutura do verso
está invertida
em meu caleidoscópio.
Preciso de uma máquina
rápida e perfeita para
fazer uma circuncisão mental:
“Quero que a estrofe
gravada ao jeito
do vídeo cassete
saia nítida,
sem um defeito”.
– Fala a crítica especializada:
A infraestrutura do verso
está evoluída
em meu laboratório.
Preciso de um computador
rarefeito e sem defeito
para efeito de análise poética:
“O crítico é um digitador,
digita tão completamente
que chega a digitar a dor,
a dor que sua mãe sente”.
– Fala o homem pensante:
A superestrutura dos acima
está equivocada
em minha concepção histórica.
Preciso de uma filosofia
autêntica e própria agora
para escrever um poema-amostra:
“A sombra projetada de um homem
exclui o mecanismo da repetição alheia,
pois a condição intrínseca dele mesmo
exige que seu poema se faça de ideias
e despreze a vida enquanto justificativa
para o erro de se caminhar junto ao tempo”.
– Fala um observador imparcial:
Poesia significa
abrir caminho para o abismo
e pedir que nos devolvam
o nosso sonho antiatômico.
O Acaso das Manhãs