Poemas de Milton Rezende

  • Poema #51: Andarilho no Quintal

    sou nascido e criado
    na roça
    acostumado com as durezas
    da vida

    racho lenha para o sustento
    com um machado cego
    de cabo de pau-mulato
    herança do meu avô

    após almoçar no quintal
    uma empurra a outra na moita
    e eu saio aliviado para o round
    da luta suja e feroz do homem.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #40: Interstícios da Vida

    Deixar de ser cúmplice da vida
    de outros que em mim personificam
    a parcela da culpa que subtraio
    do erro coletivo e meu, individualizado.

    Obscurecer o reflexo do sofrimento
    de homens que não vejo em presença,
    mas que em espécie me julgam digno
    de vê-los (como testemunha da morte
    sem remissão de si) em que se abrigam.

    A desvisão do homem como forma de se
    desviar do mundo, numa covardia anônima
    de se cegar para o que há de recíproco
    no duplo ato de existir e ser responsável
    por esta morte latente, usada como escudo.

    Mantendo a essência que não explico
    mas sei que existe onde deixo
    de existir para ser parceiro da vida,
    criação simbólica do gesto de um deus
    não conclusivo, que se deu por satisfeito
    em seu cansaço.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #38: Em Brancas Nuvens

    Alguns dos meus
    poemas são como
    letras de música
    sem música.

    Alguns dos meus
    gestos são como
    atos de uma peça
    sem atores.

    Alguns dos meus
    sonhos são como
    um comício público
    sem plateia.

    Alguns dos meus
    atos são como
    um filme mudo
    sem cenário.

    Alguns dos meus
    delírios são como
    uma transgressão
    da vida no sonho.

    Muitas das minhas
    loucuras são como
    a minha própria
    vida & literatura,
    inéditas no final
    das contas.

    Inventário de Sombras
  • Poema #36: Nu

    O teu corpo,
    pássaro esculpido
    no assento do
    sofá da sala
    de visitas,
    é uma ampla sala
    onde te visito
    (abolida a noção
    de sonho
    sob o teu vestido),
    sempre que o desejo
    do corpo desenha
    a moldura de um
    pássaro
    em teu assento

    Inventário de Sombras

  • Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada

    Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casa
    aí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a porta
    eu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delírio
    daquelas carnes macias que me foram negadas em vida.

    Havia crianças por perto e então eu achei melhor
    interromper o procedimento e levá-la para um lugar
    escuro e deserto e então fomos a um velho cemitério
    com ela protestando que preferia estar com uma amiga.

    Mas eu havia morrido por causa dela e não era justo
    eu não levar nada daquele amor que atravessou décadas
    de sofrimento e dor causadas pela sua frieza e indiferença
    como quem prende um coração numa jaula suja e planejada.

    Nunca era tarde e agora eu a tinha entre os meus braços
    dilacerados pelos cortes de navalha que ela havia operado
    enquanto exercia as funções de enfermeira-chefe do posto
    médico mais próximo e que era uma espelunca dos diabos.

    Consegui fugir das trevas do inferno e antes de executar
    o intento planejado eu levei as suas filhas para a casa da avó
    que morava numa aldeia vizinha de onde tudo havia começado
    a cerca de 5 km de distância e já eram trinta e um anos passados.

    Depois retirei o seu vestido jeans de zíper nas costas e com cuidado
    fui explorando todos os espaços onde a vida fora afinal consumida
    entre equívocos e intervalos enquanto que ela não dizia nada como
    quem já esperava pelo pior e estava resignada com a morte próxima.

    Mas eu estava cansado de conviver com o sangue e só queria o desfrute
    daquele momento com ela viúva e única, como se eu fora um lobisomem
    apaixonado pela manhã seguinte e então ficamos a noite inteira naquela
    e acho que foram umas seis vezes até eu ficar satisfeito e engravidá-la.

  • Poema #28: ANÍMICA

    quando eu tinha todos os movimentos
    eu era sol entre nuvens
    aves de arribação
    qualquer coisa de menos sólida
    por haver.
    eu via cachoeiras em meus sonhos
    remanso de rios
    pedra grande de sentar menino
    florestas a esculpir.

    Da Essencialidade da Água

  • #06 – O SOM DO SILÊNCIO

    .

    “sob a luz de neon, o silêncio cresce como um câncer.
    as pessoas se curvaram e rezaram
    para o deus de neon que elas criaram.
    as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô
    e nos corredores do cortiço”
    Simon & Garfunkel

    era a noite fria e chuvosa
    então eu saí como um zumbi
    para criaturas que, como eu,
    vivem nas sombras.

    sob a luz de neon
    o câncer se espalha
    e as pessoas se curvam
    ao som de Simon & Garfunkel.

    rezas, aspersões de água
    benta e nada resolve:
    o deus de barro que criaram
    se esfarela como um pó seco.

    as palavras dos profetas
    estão rabiscadas nas portas
    dos banheiros sujos das
    rodoviárias promíscuas.

    cortiços, neons resplandecentes,
    silêncios e o escuro breu da
    noite sem almas a sufocar
    nos corredores do metrô 147.

    palafitas, águas podres,
    restos de comida, latas,
    lixo reciclável, “estercoraria
    argila preta”. O Déjà Vu.

    Da Essencialidade da Água


  • Poesias de 1 a 99: 04 – O Piso da Minha Alma

    #04 – O Piso da Minha Alma

    .

    ressoam em meu cérebro
    ecos de canções que eu
    nunca escreverei jamais.

    mas existem em mim
    como acordes tangíveis
    do que se aspira a ser.

    à sombra do músico adormecido
    eu vivi a minha vida inteira assim
    disfarçado de poeta como se fosse

    um andarilho dentro de casa.

    O Jardim Simultâneo


  • Poesias de 1 a 99

    #03: Paredes

    Estou cercado de objetos
    sem expressão ou significados
    (utensílios para o desempenho
    de um trabalho sem utilidade).

    Tenho as mãos ocupadas
    na tarefa de preencher
    o vazio com papéis
    de números impressos.

    A cabeça gira à procura
    de lembranças que possam
    desviá-la do tédio
    de ver gentes.

    Arquiteto planos
    sem propósito algum
    além de preencher
    as horas de um expediente.

    Estou cercado pelos
    quatro lados de um cômodo
    onde recebo clientes
    de um banco de dados.

    Tudo é muito lento
    como o motor ligado
    de um ar-condicionado
    a esfriar meus pés.

    Tenho um olhar cansado
    de olhar o silêncio e
    estar calado, ouvindo
    vozes que não decifro
    e tenho medo.

    Inventário de Sombras


  • Poesias de 1 a 99

    #01: Instante de Pura Poesia

    eu ontem, passando na calçada,
    deparei-me com uma visão
    aterradora de um pássaro
    que, ao defender seu espaço
    de um intruso invasor, levou
    a pior na batalha sangrenta e,
    roto e estropiado, na arvorezinha
    mirrada, olhando de soslaio,
    entre sangues, o espaço mítico
    que habitara e cuidara durante
    longos anos, agora perdido
    para sempre.

    solidariedade ao pássaro
    ferido de morte.

    Da Essencialidade da Água.


Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar