Poesias de 1 a 99 por Milton Rezende

  • Poema #55: Linguagem do escuro

    Agora que a luz se apagou
    e a solidão restabeleceu seu domínio,
    ouço com receio a linguagem do escuro
    que me des-norteia a vida.

    Nasci sob o signo da morte
    mas prefiro-a assim,
    conquistada aos poucos.
    Porção diária de veneno
    que injeto na raiz da vida
    até que ela, afinal, desapareça.

    E a linguagem do escuro prevalece
    (ainda que se acendam todas as luzes)
    como sendo a linguagem universal de tudo
    a tecer as teias da incompreensão fraterna.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #54: Intervalo

    “Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino
    Que envelheceu, um dia, de repente!”
    Mário Quintana (1906-1994)

    Tenho quarenta e cinco anos
    e já neste meu último aniversário
    foi levantada a hipótese irreversível
    do envelhecimento antes da morte,
    mas nunca sabemos o que virá primeiro.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
    entrando pela porta da frente dos ônibus
    e viajando de graça pelo país dos meus netos.

    Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
    no banco e haveria um guichê específico
    esperando a minha dificuldade de caminhar.

    Soube também que eu poderei requerer
    um acréscimo no valor da aposentadoria,
    para gastar com hospitais, médicos e remédios.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    A minha vontade é rasgar
    o estatuto do idoso
    e voltar a ser criança.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #53: Ciclo II

    Quando a chuva neutralizar
    a esperança das flores, no chão
    uma semente irá se desenvolver
    à imagem e perspectiva de tornar-se,
    sintetizando em si todo o anseio dos homens
    para que de seus ossos não se faça apenas
    um cemitério, mas também um canteiro.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #52: Ciclo I

    A vida,
    em todas as suas formas,
    revela a sutileza de um mágico
    que hipnotiza a todos
    para que não vejam seus truques falhos.

    Os homens,
    em todas as suas crenças,
    revelam a idiotice de um asno
    que acredita em tudo
    por não ser capaz de discernir o óbvio.

    Os homens,
    com todos os seus mágicos,
    revelam a estupidez da espécie
    que acredita na vida
    como sendo o caminho para a salvação.

    A vida,
    com todas as suas armadilhas,
    revela a esperteza de um camaleão
    que dissimula aos homens
    a sua completa inutilidade como veículo.

    O Acaso das Manhãs.

  • Poema #51: Andarilho no Quintal

    sou nascido e criado
    na roça
    acostumado com as durezas
    da vida

    racho lenha para o sustento
    com um machado cego
    de cabo de pau-mulato
    herança do meu avô

    após almoçar no quintal
    uma empurra a outra na moita
    e eu saio aliviado para o round
    da luta suja e feroz do homem.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #50: Andarilho Descalço

    estou sem almoço
    e sem janta
    e com duas costelas
    quebradas

    meu caminhar é pele
    sobre o bronze
    do asfalto, atrito
    suave de quem sonha

    estou sofrendo
    com as calças e tudo
    e isso é nada para
    quem vive na rua.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #48: Instante de delírio

    Olho para o vazio
    de meus olhos.
    O espelho
    não reflete mais o amor,
    outrora visível.

    Imagens tão nítidas
    se me afloram perdidas
    na incongruência do vidro,
    uma vez descascada sua tinta
    prateada de reflexão.

    E agora as manhãs
    trazem o hálito da perda,
    do que fui e que no meu delírio
    se esgotou em fome.

    Não a fome dos homens
    do nordeste, biológica.
    Tampouco a fome dos homens
    civilizados, que inventaram a fome
    para dois terços do mundo.

    Mas fome ela mesma,
    que não se come e me digere.
    Não se alimenta e me fez assim
    um antropófago de mim.

    Fome que se reverte em morte
    e não me assusta, pois construí
    a vida a partir dela.

    Sou um desses seres que acreditam
    que na sombra se esconde a morte,
    e se perde a vida e se ganha a vida.

    A vida ganha com a morte
    não é metafísica.
    Por isso eu me mato a cada dia,
    consciente de que um vazio com outro
    não se compatibiliza.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #47: Andarilho deitado

    O vento sopra um frio doido e esquisito
    na curva da esquina de um terreno baldio.
    Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
    atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
    de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
    Apaguei todas as luzes da esperança
    e estou sendo mordido por cachorros de rua.
    “Atualmente eu vivo rodeado por minhas
    paixões defuntas”. Todas inclusive,
    menos uma delas: a paixão do absoluto.
    Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
    (você quer pegar os balões? Coitado, mas
    eles são feitos de sonhos que estão muito
    acima da sua compleição). Talvez nunca,
    quem sabe, mas eu acabei de comer agora
    uma casca de pão e um pedaço de linguiça
    como tira-gosto da pinga. Houve uma época
    distante em que eu comia arroz e tomate
    nos degraus da escada de uma igreja no alto.
    A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
    Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #46: Um Cão

    Um cão latindo na noite
    é sempre um cão.
    Sem cor, sem nome e sem
    significado
    para quem o está ouvindo.

    No entanto este cão
    traz em seu latido,
    sombras de milhões de outros cães
    sintetizados
    em uníssono noite adentro.

    A chuva não consegue abafar
    este inquietante latir,
    profanando o sono dos homens
    e o sectarismo estático
    das coisas e dos seres.

    Alguém para se ver livre
    do incômodo latido
    desfechou tiros na escuridão,
    e a noite se arrastou em insônia.

    Da boca sangrenta daquele cão morto
    brotaram ruídos confusos
    que invadiram as ruas e as casas,
    mostrando a todos a inutilidade do ato.

    O Acaso das Manhãs

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar