por Fernando Neves

  • Conversas aos pedaços

    Nada mais moderno e urbano do que escutar parte de uma conversa. Na rua, no elevador, em uma loja, no metrô, no cinema, enfim em qualquer lugar onde seres humanos circulem falando. Você passa e capta um pedaço da frase.

    Algo como “leva o cachorro para passear antes” e não conseguia escutar mais nada. Tinha que imaginar o restante do que seria dito. Na maior parte dos casos não valia à pena o exercício mental porque era sempre algum papo trivial demais. Ao menos para você, o ouvinte, porque para quem falava devia ser algo essencial. Ou não, vai saber.

    Antes para por em prática a arte de pescar conversas aos pedaços você precisava de ao menos dois indivíduos de nossa espécie. Um falava com o outro e a gente, de passagem, tropeçava nas partes das frases. Agora ficou fácil. Basta uma única criatura munida de seu telefone celular para fazer a festa dos caçadores de pedaços de conversa.

    E a coisa se ampliou bastante nos últimos tempos. A popularização do uso dos fones de ouvido, conectados aos telefones celulares, criou um festival de gente andando e falando pelas ruas que chega a ser assustador. Circulam no maior desembaraço tagarelando em alto e bom som. É uma falta de cuidado com o que falam misturado com uma necessidade de se mostrarem ocupados que nem sei onde vão parar.

    Quando os ladrões passarem a roubar fones de ouvido essa gente vai se inibir. Já o conteúdo das conversas mudou pouco. Pode fazer o teste. A maior parte da tagarelice continua sendo bobagem.

    Minha última experiência como pescador de conversa alheia, no entanto, me surpreendeu.

    Estava caminhando no parque da Aclimação, em São Paulo. Domingo de sol que me chamou para dar umas voltas e queimar calorias. Estava na terceira volta pelo lago, não, mentira, era o fim da segunda volta. De todo modo, ia animado quando passei por uma mulher que, no exato momento em que eu a ultrapassei, disse a seguinte frase: não se arruma alguém para matar esse cara.

    Parei na hora. Me virei espantado encarando-a. Ela percebeu, deu um sorrisinho e disse que não era comigo. Olhei em volta e não vi mais ninguém espantado com a frase. Será que ela tinha o hábito de acertar essas, digamos, pendências, dando voltas no lago e falando em alto e bom som?

    A mulher, ainda parada perto de mim, insistiu que não era nada demais. Concordei, deu um sorrisinho débil, me virei e fui embora.

    Por via das dúvidas acelerei o passo e fiz o caminho em zigue-zague para dificultar a mira do atirador. Vai quê…

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