Praça Mauá

  • Um pouco de felicidade

    Particularmente, eu gosto da Praça Mauá. Passo por ela quase todos os dias, indo ou voltando do trabalho. O trânsito é estressante, as pessoas se esquivam sem se olhar, e ainda assim me agrada. De manhã, o corre-corre assusta: passos apressados, buzinas impacientes, motoristas malcriados. Afinal, ali começa a Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas eu gosto. Gosto de saber que, no meio do caos, ainda sobrevive um restinho de boemia, um fiapo de solidariedade.

    À noite, tudo se transforma. É como se a praça trocasse de pele. A agitação continua, mas de outro jeito, paradoxalmente mais lento.

    Às vezes, sem motivo nenhum, sento num banco e fico ali, quieto, por horas. Observo o vaivém frenético dos carros, o tropeço dos transeuntes. E, no fim, o que me prende sempre é o ser humano.

    Foi assim que conheci a família de Zirão. Ele dizia ter vinte e seis anos, mas aparentava mais de trinta. Ainda assim, liderava sua pequena tropa com calma. A mulher, bem mais velha — quarenta, talvez quarenta e cinco — observava seus gestos com um ar de aprovação. O filho mais velho, um garoto de uns treze anos, a caçula de seis e dois cães vira-latas completavam o retrato.

    Zirão não se curvava à vida, mesmo vivendo na rua. Era ele quem dobrava os panos usados na noite anterior e os guardava na sacola. Era ele quem ralhava com o filho por “passear” pela Cinelândia e Praça 15, enquanto afagava a cabeça da menorzinha, choramingando inconsolável por não encontrar a boneca seminua e rabiscada, o único brinquedo que possuía. Pedia paciência à mãe, que resmungava sobre o café aguado, sem ser exatamente ríspida. E, no entanto, havia ali uma felicidade que não sei explicar. Realmente, talvez, felicidade não seja algo que se explique.

    Fiquei imaginando se aquela felicidade deles poderia, por encanto, se tornar a minha também. Sem perceber, já não apenas observava: me metia, opinava, aconselhava. Foi assim que ouvi fragmentos das histórias deles. Zirão, tão novo, já no terceiro “casamento” — como ele mesmo dizia, com aspas invisíveis para casamento — afirmava que, finalmente, encontrara a paz. Sonhava ver a filha veterinária, já que ela adorava cuidar dos bichinhos. Obedecia às Leis Divinas e dizia esperar nunca mais sair das ruas: queria a casa sonhada, mais uns vinte anos de vida para ver os filhos felizes. Ele mesmo fazia as contas: vinte e seis que tinha, mais vinte que desejava, cinquenta e seis. “Já dá pra ver os sonhos acontecendo”, repetia, embora reconhecesse que quem vive nas ruas, vive menos.

    Volta e meia, passo pela Praça Mauá à procura da família de Zirão. Às vezes, levo uma comida ou um brinquedo para a menina. Outras vezes, só vou para vê-los e não esquecer que a felicidade, quando verdadeira, custa muito pouco.

    Texto originalmente postado em 05/08/2026*

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