Que graça tem um livro?

  • Que graça tem um livro?

    A graça de um livro? Ele te dá prazer. Se você não está lendo por obrigação, está envolvido na viagem mais deliciosa que poderia fazer — não apenas por países, sem precisar de passaporte, mas também por épocas. Um livro faz voltar no tempo.

    E a razão é única: prazer.

    Você escolhe uma história, se delicia lendo sinopses, acolhe a dica de um amigo e vai. Um livro não precisa te dar lições de vida, nem te deixar rico, nem transformar a sua existência.

    Eu era um simples vigilante de galpão quando viajei por vários planetas com O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Na vida real, cuidava de um depósito de sinalização de trânsito. Quando adolescente, antes que meus olhos fossem contaminados pela banalidade dos noticiários, li Capitães de Areia, de Jorge Amado, e me misturei a Pedro Bala, Dora, Volta Seca — meninos de rua da Bahia. Li também Cartas a um jovem poeta, de Rilke; Knulp, de Hermann Hesse, durante a crise dos 40 anos; e O Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos, de Lima Barreto, devorando-os nos ônibus, indo e voltando para o centro de BH.

    Por que eu lia? Porque gostava. E ainda gosto. Só isso.

    E o que dizer de O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, que me transformou em folião de carnaval? Surreal: um livro me pôs na avenida, sem eu sequer sair da poltrona. Estranho, não é? Se a gente fica parado lendo, as pessoas acham esquisito. Devia estar jogando bola, sambando ou correndo. Mas não: eu lia.

    Li pela primeira vez Crônica de uma namorada, de Zélia Gattai — esposa de Jorge Amado — ainda no ensino fundamental. Era ruim de bola, preferia ler, e me fascinava o mundo que Zélia trazia. Ler era gostar de ler. Nada além disso. Nem precisava.

    Já adulto, quando o trabalho me irritava, li Bartleby, o escriturário, de Herman Melville. O patrão de Bartleby, um advogado famoso, tinha um grupo de funcionários copiando processos no escritório. E Bartleby, de repente, virou-se para ele e disse: “Prefiro não fazer.” Surreal ver um empregado falando aquilo para o patrão. Eu ria, batia palmas, pensava: “Como assim?”

    Ler é das coisas mais fantásticas do mundo — conto, crônica, romance ou poesia. Dizer que leio só porque gosto é atrevido, eu sei, mas é a mais pura verdade.

    O melhor livro é aquele que a gente escolhe sozinho, sem resenhas e sem recomendações. Entrar numa livraria e deixar a vontade decidir. Aí, nunca tem erro. Comigo, sempre deu certo.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar