reborn

  • Chupa que é de uva

    Ainda não me recuperei da moda do bebê reborn e já tenho que lidar com outra tendência que está bombando no momento: o uso de chupeta por adolescentes e adultos para diminuir o estresse e a ansiedade. Quanto aos adolescentes, entendo que a fase é de transição, e, por isso mesmo, sujeita a instabilidades e tentativas furtivas de não perder o trono da infância. Porém, quando penso nos adultos, o que me vem à cabeça é o tanto de manobras que as pessoas fazem para não enfrentar seus fantasmas num processo de análise. Vale todo tipo de proposta, das milagrosas às escandalosas. Tanto assim que o movimento vem ganhando adeptos no mundo todo.

    Os bebês reborn que se cuidem, pois correm o risco de perder o acalanto oral para seus pais que, em breve, serão apenas seus irmãos, tamanha a regressão.

    Sei que cada um tem o direito de fazer o que quiser, defendo a liberdade de expressão e de escolha, mas me questiono se essas novidades são apenas gozações passageiras ou se estamos diante de um pedido de socorro, de um grito coletivo a bradar que a vida adulta, tal qual temos preconizado “hiper produtiva e monetizável” é insuportavelmente chata e deprimente.

    Eu que usei chupeta até os onze anos, conheço bem a delícia apaziguadora que a danada oferece. Lembro dela com carinho e, assumo, com saudade também. Contudo, não consigo me ver usando o acessório novamente. Parece esquisito, deslocado no tempo. Será que é algum tipo de bloqueio? Não sei… talvez já seja pesado demais imaginar que, daqui a alguns anos, as fraldas estarão me rondando.

    Quero acreditar que tudo não passa de uma brincadeira. Ou quem sabe os novos tempos, com sua engenhosidade, tenham inventado as férias de fase inspirada nas crianças pequenas que se divertem usando os sapatos dos adultos. Nós nos regozijaremos pegando as chupetas delas.

    Eu só entrarei nessa se puder, além da chupeta, andar por aí carregando meu paninho encardido. Não só isso! Faço questão de uma retratação pública a respeito da existência de Papai Noel. Sua morte foi meu luto mais difícil. E, por favor, Fada do Dente, remunere melhor o dente dos aposentados.

    Volta a angústia: e se tudo isso for um sinal de que a nossa inabilidade para lidar com as frustrações, medos e fracassos está nos encarcerando no colo da infância? E se estamos todos adoecidos da modernidade ultra hightech?

    Nas férias de fase, nossos joelhos não se ralam nem têm cicatrizes; por outro lado, não desfrutaremos do riso que vem com o vento no rosto de quem aprende a correr.

    Eu preciso de ARte. 

  • Reborn

    Quem não brincou de boneca o suficiente em criança não deve perder a oportunidade agora, incluindo os meninos a quem não foi dado esse direito. Compre um bebê reborn e vá à luta. É a sua chance: dificilmente aparecerá ocasião tão propícia para resolver um problema de infância que demandaria anos de terapia, uma solução bem mais cara que o boneco.

    Para uma experiência mais completa, esses bebês poderiam ser ainda mais realistas: chorar no meio da madrugada, exigir troca de fraldas em horários aleatórios e impedir os ‘pais’ de sair porque estão com febre. Como aquelas mascotes Tamagotchi que precisam de atenção e ‘morrem’ se você deixa de alimentá-las ou cuidar delas. Se o bebê ‘morrer’, nada de pânico: basta encomendar outro.

    Outra sugestão para quem quiser aprofundar a experiência: trocar de bebê a cada aniversário, acompanhando o crescimento da ‘criança’ até que ela se torne adulta. Obviamente, adolescentes reborn seriam programados para dar muiiiito trabalho antes de se transformarem em jovens bem sucedidos. É improvável que alguém insista além desse ponto, mas nunca se sabe: velhos reborn podem virar febre no futuro, a fofura dos bebês substituída pelos achaques da idade. Tem gosto para tudo e o lobby das farmácias não dorme no ponto.

    Em vez de criticar os bebês reborn, pense nos aspectos positivos: lucram as fábricas, as produtoras de festas, criam-se empregos. Que mal há nisso, fora a loucura? Só espero que não seja contagiosa. Será?

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