Sobre o que o tempo leva, e o que ele nunca tira.
Graças a Deus, sou forte. Sou guerreira. Sou abençoada.
E por isso, os retalhos das minhas memórias não pesam. Não me ferem. Não me entristecem. Sou apenas espectadora deles.
É bom quando se olha para uma casa velha, caindo aos pedaços, e o que vem à mente não é a ruína, mas o gramado verde na frente, as cadeiras onde eu me sentava para observar as meninas brincando, os cachorros correndo soltos, o picolezeiro passando com sua buzina, e as tardes que se esvaíam lentamente…
Revejo meu cotidiano simples e humilde com muitas cores.
Os olhos azuis, cor do céu, do meu bebê.
O vestido vermelho de bolinhas brancas da mais velha.
Os cabelos cacheados e dourados da filha do meio.
O verde da grama.
O bege do pelo do cachorro.
Quantas lembranças!
Em quarenta e oito horas, revive-se meia vida.
Foi assim o meu passeio neste feriado de Finados.
Mas não foi só isso.
Vi também a pequenez dos grandes túmulos de mármore. A vaidade inútil das letras douradas. A ostentação póstuma com que os vivos tentam driblar o esquecimento. E pensei: debaixo de sete palmos de terra, todos somos iguais: não importa a lápide que se erga sobre a cova.
E, por fim, uma última constatação: como o tempo transforma nossas medidas!
O coreto da praça de Jardim é lindo… mas tão menor do que me recordava!