Réveillon

  • Quando a amizade vira crônica

    A amizade é cheia de mistérios — e é isso que deixa a vida mais bonita. Ter amigos deixa tudo mais rico, mais leve, às vezes até mais suportável. Ninguém nasceu pra viver sozinho. Quando algo bom acontece, e não temos com quem dividir, o brilho se perde um pouco. Não sei se acontece com você, leitor, mas comigo é sempre assim.

    A amizade gosta mesmo é de se enfiar onde a gente menos espera, entre o certinho e o bagunceiro, o sério e o brincalhão, o que pensa alto e o que só escuta. Vai entender essa mistura doida que dá certo.

    Pois foi o que me aconteceu há alguns anos, trabalhando num centro cultural em Belo Horizonte. Foi ali que conheci quem se tornaria um dos meus melhores amigos — e, de quebra, meu carioca favorito. Sim, esta crônica é pra celebrar a amizade improvável de um mineiro e um carioca.

    Ele era professor da rede particular, certinho que só vendo — daqueles que não perde uma vírgula, não deixa passar um erro, e encara a vida como se fosse uma prova de português. Poeta de terno, com a elegância de quem sabe que até na gramática o estilo é fundamental.

    Eu era o oposto: bagunceiro, do tipo que esquecia o guarda-chuva no bar, e saía tomando chuva. Fascinado por praia, carnaval, samba — tudo o que o Rio tem pra oferecer.

    Ficamos amigos.

    Eu ia mediar uma roda de conversa com um poeta, sobre “Tempos de Paz”, filme brasileiro dirigido por Daniel Filho, lançado em 2009, que retrata com sensibilidade os dilemas e tensões da ditadura militar no Brasil, através da história de um guarda prisional e uma mulher que tenta libertar seu marido político. Ele, amigo do convidado, apareceu para assistir. Acabamos sentados num banco do centro cultural como se nos conhecêssemos há décadas. Falamos de livros, da escrita, de novelas, de mulheres, dos escritores favoritos.

    Falamos de tudo: dos contos do Caio Fernando Abreu, das novelas do Manoel Carlos, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger. Rubem Fonseca entrou na conversa, Dalton Trevisan também. Descobri que a estante de livros dele era imensa — coisa que eu só confirmaria mais tarde, pessoalmente.

    Ele sempre foi desinibido pra escrever. Enquanto eu encarava a folha em branco como se fosse um inimigo, ele se sentava comigo na Rua da Bahia e começava a inventar pequenas histórias para cada pessoa que passava.

    Era a cara séria de um homem, o tique nervoso de outro, os olhos pintados de uma menina, o terno mal-alinhado de um pastor de rua. Para cada um, uma página, uma crônica, uma invenção.

    Antes dele, eu não fazia ideia de onde um escritor tirava tanta história, como conseguia tanta imaginação, como um cronista arranjava assunto para escrever toda semana no jornal.

    Comecei a imitar ele. Comprei umas folhas de papel ofício, umas canetas — azul, vermelha, Bic mesmo. Escrevia, lia, jogava fora. Depois escrevia de novo. Lia, escrevia, jogava fora — não necessariamente nessa ordem, claro.

    Até que chegou a minha vez de ir ao Rio. Fui no Réveillon com ele, fiquei em Copacabana, vendo a queima de fogos. Vi as mulheres mais bonitas do mundo, e ouvi Frejat cantando seus sucessos, junto com o Barão Vermelho.

    Vi mães de santo jogando flores para Iemanjá. E ainda trombei com um YouTuber famoso que eu seguia — aquele que ensinava homens a xavecar mulheres.

    E eu fui muito ao Rio. Visitei a Galeria Atlântida, antiga Galeria Alaska, em Copa — cenário que inspirou Galeria do Amor, do Agnaldo Timóteo. Tomei banho de mar no Forte de Copacabana. Brinquei carnaval nos blocos Simpatia é Quase Amor, Cordão do Bola Preta, Banda de Ipanema.

    Mas não pense, leitor, que tudo foram flores. Ah, mas não foram mesmo.

    Quando veio a Minas conhecer Ouro Preto, alegou um contratempo que podia inviabilizar a viagem. Eu, na hora, chamei de “tratante”, disse que não tinha palavra. Tivemos um quebra-pau daqueles.

    Nada, porém, que abalasse a amizade. Tanto que, logo depois, viajamos juntos com um grupo de cariocas, por Santa Catarina, Curitiba e Rio.

    É assim, leitor. A gente nunca sabe no que vai dar uma amizade, nem o que ela vai ser. Mas é certo: a amizade dá sentido à vida. Torna o cotidiano mais belo, mais digno, mais humano.

    Hoje, basta eu olhar para o poeta Luiz Otávio Oliani — seja em BH, seja no Rio — e dizer: “Partiu.” Que venha o próximo bar, o próximo sarau, o cafezinho depois de um almoço em Ipanema. É isso que faz a vida ter mais sentido.

  • Listas do existir

    O momento é propício à elaboração de listas de desejos e promessas para 2025.

    É tempo de mergulhar nas mais diversas ilusões de si mesmo; de vibrar intensamente com a motivação sazonal para trocar de pele, personalidade e modus operandi.

    Essa é a magia de dezembro: fazer com que cada um acredite em sua meteórica transmutação.

    A mensagem subliminar é poderosa: Seremos, em breve, o que jamais fomos até aqui, mas seremos! Acredite, no pipocar dos fogos de Réveillon, nascerá, a termo, aquele sujeito disciplinado, fitness, organizado, estudioso, persistente e focado que vive soterrado em você nos outros onze meses.

    Os descrentes, por favor, não se pronunciem. Não atrapalhem o parto.

    Os de fé repliquem o mantra: Eu vou mudar, fazer, ser, conseguir, alcançar meus objetivos a partir de 1 de janeiro.

    Não importa que essa seja a promessa fracassada dos últimos trinta anos. Viver é um eterno recomeçar.

    Para garantir sucesso nessa empreitada de renascimento, acelere as contrações com esperança, ânimo e coragem.

    Enquanto aguarda a hora do novo eu vir ao mundo, sugiro rascunhar uma carta de agradecimento e perdão para essa criatura que em 2024 fez o que era possível para dar conta das infinitas demandas de sucesso, performance, resultados e excelência.

    Ainda bem que temos a chance de zerar o jogo e começar nova partida.


  • Réveillon

    Comprou vestido branco e sapatos novos porque quis e a ocasião exigia. A ocasião é hoje, o último dia do ano. A calcinha também é nova, ela sempre ouviu dizer que é assim que se deve receber o ano novo. Fez tudo o que disseram para fazer e estava ansiosa. Na sala, os doze bagos roxos de uva brilhavam no prato sobre a mesinha de centro. Ao lado, a taça de champanhe já cheia e, no fundo, a aliança dada pela avó, anos atrás. Celina decidiu usá-la hoje, precisamente na passagem do ano, para atrair as mudanças que desejava. Não que um novo casamento, depois de dois fracassados, estivesse em seus planos, mas porque, quando a ganhou, sua avó dissera:

    — Use quando concluir que você não precisa de marido pra ser feliz.

    Achou graça e prometeu colocá-la no dedo na primeira ocasião especial. Que é hoje. Estava no quarto, quase terminando de se arrumar, quando ouviu, vindo da televisão lá da sala, o anúncio de que ia começar a contagem regressiva. Celina correu com os sapatos de salto 15 na mão e o zíper do vestido branco ainda aberto — não perderia por nada o ritual da meia-noite comandado pelo eufórico homem de paletó brilhante na telinha. Superstição ou não, queria mandar o ano velho para o lixo e receber o novo com estilo. Estava cheia de esperança e otimismo.

    Largou os sapatos no chão e sentou-se na borda do sofá. Puxou o prato de uvas para perto de si e pegou o primeiro bago. Pensou que o pior ano de sua vida estava quase dobrando a esquina, e já ia tarde. Engoliu as uvas uma a uma com devoção e urgência, os olhos fechados: um bago para cada número da contagem regressiva, como uma cerimônia — 10, 9, 8, 7, um bago para cada um, até o último. Celina estava eufórica, a noite se mostrava perfeita e desta vez ela tinha feito tudo no tempo exato, em sintonia com o relógio da Avenida Paulista, que via da janela, e com a contagem do homem da televisão.

    Celina estranhou que o prato de uvas já estivesse vazio no momento em que gritaram “Zero!” e a barulheira começou. Será que, durante a contagem, ela engoliu dois bagos em vez de um? O estouro dos rojões e dos fogos logo a distraiu e ela começou a dançar: era a trilha sonora que ela queria ouvir naquele momento. Os fogos brilhando no céu pintaram sua sala de todas as cores. Ela pegou a taça de champanhe e a ergueu acima da cabeça, animada para brindar com o apresentador da tevê, e bebeu tudo de um gole só, refestelada no sofá. Arregalou os olhos quando ouviu o locutor falando:

    — Não estranhem, queridos telespectadores, se lhes faltou um bago de uva durante o brinde. Esta noite, por algum sortilégio que ainda não conhecemos, nosso velho relógio marcou treze vezes em vez de doze. Logo daremos notícias sobre o que aconteceu. Feliz ano novo a todos!

    Celina pulou do sofá, a taça de champanhe vazia na mão, no rosto uma máscara de horror. “Treze vezes? Isso dá azar, o número treze dá azar!”, pensou, apavorada. Subitamente teve dificuldade para respirar. Sentiu sua traqueia fechada e desesperou-se. “A aliança, engoli a aliança!”, quis gritar, mas a voz não saiu. Tateou os móveis para se manter em pé. Boqueando como um náufrago antes do afogamento, começou a correr pela sala buscando ar para os pulmões, tropeçou nos sapatos jogados no chão e caiu com estrondo. Fraturou a bacia e o fêmur esquerdo. A brusquidão da queda liberou suas vias respiratórias e a aliança pulou para fora de sua garganta. Foi então que, mais calma e respirando, deitada no tapete, Celina apalpou o corpo e soube que as mudanças chegaram com o novo ano. “Eu não morri ainda, que sorte!”, pensou. Sorriu de tanta dor, chorou de tanta dor.

    Na televisão deram sequência aos festejos e estavam agora transmitindo um show de pagode. Ninguém falou sobre as treze badaladas em vez das doze, e tudo ficou por isso mesmo. Celina se arrastou pelo chão para procurar a aliança, colocou-a no dedo e depois ligou para o hospital. Pediu para mandarem uma ambulância com urgência e desejou feliz ano-novo para a atendente.


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