Rua da Bahia

  • Almoço mineiro

    Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta, basta olhar para ela.

    Decido ir andando até a Rua dos Caetés para almoçar. Almoço é coisa séria. E meu prato favorito é: arroz, feijão andu, língua de boi, couve refogada, farofa e ovo.

    Levo comigo o livro Amores difíceis, de Italo Calvino, além de uma carta que escrevi para um amigo meu, que está no Rio de Janeiro.

    Escolho uma mesa, noto que agora colocaram mesas e que a gente só come no balcão se quiser.

    — O seu é o que, amigo?

    — Com língua de boi, por favor.

    Perguntam se quero beber alguma coisa, mas só peço chope depois de comer.

    Enquanto o prato não chega, olho para as mesas: uma mulher come sozinha, debruçada no balcão. O garçom sorri como se fosse da família da gente; aliás, qualquer um ali — seja quem for, que se apaixona pelo mesmo prato — é como se fosse da família da gente.

    Penso que cada um tem seu prato favorito. O meu é minha alma exterior, como dizia um personagem antigo de Machado de Assis. Penso nos personagens de Italo Calvino, cujo livro está bem diante de mim, sobre a mesa.

    Eles se divertem com paixões impossíveis, desejando quem nunca terão. Eu não. Meu amor é mais possível, por aquele prato, que comi rezando, pelo chope que o garçom já trouxe.

    Depois do almoço, vou caminhando para fazer a digestão. Sinto vontade de escrever um conto, mas ando mais um pouco e espero passar. Vou ao banco e deposito algum dinheiro.

    No guardanapo que trouxe comigo, anoto: “O amor é uma coincidência. Às vezes coincide com o amor do outro, às vezes não; mas, com um prato de comida como aquele, até a dor de amor dói bem menos.”

    Gosto de caminhar. A cidade é cheia de árvores e gente simples andando na rua. Andu, para quem não sabe, é meu restaurante favorito — vou lá batendo perna sozinho, lendo um livro ou matutando um texto. Nem pensar em convidar um amigo. Vai que ele inventa de comer em outro lugar?

    Mas eu já te falei do meu prato preferido — e, se você comer, vai ser o seu também.

  • Quando a amizade vira crônica

    A amizade é cheia de mistérios — e é isso que deixa a vida mais bonita. Ter amigos deixa tudo mais rico, mais leve, às vezes até mais suportável. Ninguém nasceu pra viver sozinho. Quando algo bom acontece, e não temos com quem dividir, o brilho se perde um pouco. Não sei se acontece com você, leitor, mas comigo é sempre assim.

    A amizade gosta mesmo é de se enfiar onde a gente menos espera, entre o certinho e o bagunceiro, o sério e o brincalhão, o que pensa alto e o que só escuta. Vai entender essa mistura doida que dá certo.

    Pois foi o que me aconteceu há alguns anos, trabalhando num centro cultural em Belo Horizonte. Foi ali que conheci quem se tornaria um dos meus melhores amigos — e, de quebra, meu carioca favorito. Sim, esta crônica é pra celebrar a amizade improvável de um mineiro e um carioca.

    Ele era professor da rede particular, certinho que só vendo — daqueles que não perde uma vírgula, não deixa passar um erro, e encara a vida como se fosse uma prova de português. Poeta de terno, com a elegância de quem sabe que até na gramática o estilo é fundamental.

    Eu era o oposto: bagunceiro, do tipo que esquecia o guarda-chuva no bar, e saía tomando chuva. Fascinado por praia, carnaval, samba — tudo o que o Rio tem pra oferecer.

    Ficamos amigos.

    Eu ia mediar uma roda de conversa com um poeta, sobre “Tempos de Paz”, filme brasileiro dirigido por Daniel Filho, lançado em 2009, que retrata com sensibilidade os dilemas e tensões da ditadura militar no Brasil, através da história de um guarda prisional e uma mulher que tenta libertar seu marido político. Ele, amigo do convidado, apareceu para assistir. Acabamos sentados num banco do centro cultural como se nos conhecêssemos há décadas. Falamos de livros, da escrita, de novelas, de mulheres, dos escritores favoritos.

    Falamos de tudo: dos contos do Caio Fernando Abreu, das novelas do Manoel Carlos, de “O Apanhador no Campo de Centeio”, do Salinger. Rubem Fonseca entrou na conversa, Dalton Trevisan também. Descobri que a estante de livros dele era imensa — coisa que eu só confirmaria mais tarde, pessoalmente.

    Ele sempre foi desinibido pra escrever. Enquanto eu encarava a folha em branco como se fosse um inimigo, ele se sentava comigo na Rua da Bahia e começava a inventar pequenas histórias para cada pessoa que passava.

    Era a cara séria de um homem, o tique nervoso de outro, os olhos pintados de uma menina, o terno mal-alinhado de um pastor de rua. Para cada um, uma página, uma crônica, uma invenção.

    Antes dele, eu não fazia ideia de onde um escritor tirava tanta história, como conseguia tanta imaginação, como um cronista arranjava assunto para escrever toda semana no jornal.

    Comecei a imitar ele. Comprei umas folhas de papel ofício, umas canetas — azul, vermelha, Bic mesmo. Escrevia, lia, jogava fora. Depois escrevia de novo. Lia, escrevia, jogava fora — não necessariamente nessa ordem, claro.

    Até que chegou a minha vez de ir ao Rio. Fui no Réveillon com ele, fiquei em Copacabana, vendo a queima de fogos. Vi as mulheres mais bonitas do mundo, e ouvi Frejat cantando seus sucessos, junto com o Barão Vermelho.

    Vi mães de santo jogando flores para Iemanjá. E ainda trombei com um YouTuber famoso que eu seguia — aquele que ensinava homens a xavecar mulheres.

    E eu fui muito ao Rio. Visitei a Galeria Atlântida, antiga Galeria Alaska, em Copa — cenário que inspirou Galeria do Amor, do Agnaldo Timóteo. Tomei banho de mar no Forte de Copacabana. Brinquei carnaval nos blocos Simpatia é Quase Amor, Cordão do Bola Preta, Banda de Ipanema.

    Mas não pense, leitor, que tudo foram flores. Ah, mas não foram mesmo.

    Quando veio a Minas conhecer Ouro Preto, alegou um contratempo que podia inviabilizar a viagem. Eu, na hora, chamei de “tratante”, disse que não tinha palavra. Tivemos um quebra-pau daqueles.

    Nada, porém, que abalasse a amizade. Tanto que, logo depois, viajamos juntos com um grupo de cariocas, por Santa Catarina, Curitiba e Rio.

    É assim, leitor. A gente nunca sabe no que vai dar uma amizade, nem o que ela vai ser. Mas é certo: a amizade dá sentido à vida. Torna o cotidiano mais belo, mais digno, mais humano.

    Hoje, basta eu olhar para o poeta Luiz Otávio Oliani — seja em BH, seja no Rio — e dizer: “Partiu.” Que venha o próximo bar, o próximo sarau, o cafezinho depois de um almoço em Ipanema. É isso que faz a vida ter mais sentido.

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