Sábado

  • Agora eu era herói

    Quando eu era criança, deixava-me levar pela fantasia de ser um super herói que tudo podia. Mas, ao contrário do Batman, não agia apenas no combate aos folclóricos criminosos de Gotham City. Minha área de atuação era mais abrangente. Ocupava o cargo de presidente, ou talvez imperador, do Brasil. Não, do mundo! Pois as fronteiras nacionais não seriam suficientes para barrar meu desejo infinito de servir a cada um dos habitantes, até os das regiões mais remotas e inóspitas do planeta. E não havia nada nem ninguém que pudesse limitar meu poder absoluto nem minha disposição de cumprir esse desígnio.

    Mas, isso não me fazia um ditador autocrático. Governava em sintonia com o que pensava a maioria das pessoas ou, pelo menos, aquelas ‘de bem’, as que, como eu, ansiavam por um mundo melhor para se viver.

    Um compromisso firmado entre mim, minha imaginação e o resto da humanidade estabelecera que jamais faria uso de minha condição de liderança para punir quem discordasse de minhas iniciativas nem cogitaria em calar meus criticos, sobretudo os bem intencionados, merecedores de todo o respeito.

    Capitanearia eu uma legião de subordinados (ou melhor, colaboradores) que cuidariam de manter a paz e a harmonia social, sem precisar ferir ninguém, nem usar armas letais. Sua função seria apenas a de colocar em prática determinações cujo propósito era tornar todos mais felizes.

    Eu firmara um contrato juramentado em que constava uma declaração de que eu jamais valeria de minha posição de liderança para me locupletar ou obter benesses, já que não seria movido por ambições pessoais. Meu objetivo era apenas o de consertar o que estava errado para bem da coletividade. 

    A compensação que me bastava para esse árduo trabalho voluntário era a de ser amado pelo povo por tornar nosso mundinho comum um lugar mais agradável de se habitar, para mim e todos os demais seres humanos, a quem, indistintamente considerava entes queridos. Não esquecendo dos demais seres viventes, animais e plantas.

     No meu mundo, o sofrimento, ao menos aquele causado por outros seres humanos, seria banido da face da Terra e todos levariam uma vida digna sem privações.

    Os super ricos, movidos por inaceitáveis impulsos de ambição, seriam contidos em seu furor cumulativo por regras que impedissem abusos,  para que os demais tivessem direito a seu quinhão.

    Os policiais deveriam ser corretos e prestativos, sem deixar de combater o crime com rigor. Os homens maus iriam para a cadeia e cumpririam a sentença integralmente. Os reincidentes teriam  severas sanções. Nada de condescendência com os mal intencionados.

    Os delegados e juízes corruptos ou que saíssem da linha, seriam sumariamente afastados, sem quaisquer honorários. Tais cargos seriam ocupados por homens e mulheres íntegros com salários dignos mas modestos, sem penduricalhos. A justiça seria rápida e eficaz, regida por um enxuto conjunto de leis que todos entendessem.

    Cessariam também os benefícios concedidos a políticos, cujos vencimentos seriam compatíveis com os da população em geral, sem mordomias e auxílios indiretos. Quem escolhesse a vida pública, o faria por vocação sem possibilidade de usufruir materialmente de sua posição. 

    A melhor remuneração seria a do professor, a função mais nobre da comunidade, a de formar através da educação de qualidade, cidadãos éticos, responsáveis social e ambientalmente. 

    No plano internacional,  um simples decreto mundial poria fim em todas guerras e conflitos. As divergências seriam resolvidas civilizadamente, em torno de uma mesa de negociação. As demandas e divergências seriam apreciadas por equipes competentes e imparciais com poder decisório. 

    A miséria e a fome, como num passe de mágica, seriam extintas. Alcançar isso é muito mais fácil do que parece.  Bastaria redirecionar os recursos orçamentários antes desperdiçados em inúteis armamentos, destinando-os a melhorar a saúde, a educação e promover a melhoria na qualidade de vida.

    Enfim, tudo o que o senso comum reconhece como desejável, seria implementado com a força de minha varinha de condão  aliás, minha caneta justiceira. 

    Essa carta de intenções, submetida às pessoas de todas as nacionalidades, raças e religiões, certamente seria aprovada com louvor pois atenderia ao clamor universal.

    No fundo, o que eu propunha era o que todo mundo queria. “É tudo tão simples. Por que os adultos complicam tanto?” pensava eu. Se me colocassem lá em cima e me dessem condições, eu me comprometeria a realizar  tudo isso… e muito mais.

    Na minha inocente onipotência, não  compreendia por que ações tão óbvias, aparentemente consensuais, enfrentam tanta resistência.

    À  medida que fui galgando na idade e no conhecimento de como as coisas funcionam, tomei um choque de realidade, passei a devanear cada vez menos e tomei consciência de minha insignificância ante a tarefa hercúlea a que me propusera e da incapacidade de mudar mesmo as coisas mais banais e próximas.

    Hoje,  quando vejo tantas inexplicáveis brutalidades sendo cometidas ao meu redor, invoco com saudade o super herói aposentado que, empoderado pelos sonhos de uma criança, acreditou que podia transformar um mundo dominado por um bando de adultos sem graça.  

  • Rugas virtuais

    Nunca me preocupei com a velhice, embora não acredite naquele papo de melhor idade, isso eu sei que é balela. Como eu poderia viver a melhor fase da minha vida sem enxergar um palmo à frente do meu nariz e ainda por cima na companhia de anti-inflamatórios e médicos de todas as especialidades?

    Não que seja horrível envelhecer, mas a crença na velhice como o melhor dos tempos é a reencarnação do coelhinho da Páscoa. Sei que é preciso alguma ilusão para aguentarmos o tranco de lidar com o ganho de peso, o ressecamento da pele e aquela sensação térmica exclusiva e independente do resto do mundo. Mas chamar de melhor idade, convenhamos, é uma apelação insustentável.

    Os homens não passam por essas agruras. Para eles o envelhecer oferece um certo charme, um quê a mais de sedução. Sim, o tempo é tendencioso.

    Quanto a mim, também uso minhas gambiarras emocionais para lidar com as transformações impostas pelo vivido. Por um lado, é muito irritante ter um código de barras no centro do pescoço. Por outro, hoje sou vacinada contra uns tipos que antes me adoeciam de paixão. Nessa perspectiva, o resultado da conta existencial se mostra positivo.

    Além disso, sempre botei fé na crença de que cada um tem a idade que deseja ter. Que delícia a promessa de viver meus vinte anos eternamente, sem dar importância às celulites, à flacidez dos braços, às linhas de expressão ou, por que não dizer, o caderno de caligrafia ao redor dos olhos. Sentir a juventude nos poros da alma.

    O paraíso seria assim, não fosse o fato de que nesses tempos modernos a velhice se impõe através de rugas virtuais fincadas na autoestima.

    Você pode ter corpo de quinze, mente de vinte, uma vida saudável, alimentação balanceada, rotina de exercícios físicos, mas, se não tiver investido na linguagem computacional, você está velho ou nos termos atuais off.

    Ouço as músicas da moda, estou em todas as redes sociais, faço dancinhas para viralizar, mas não sei usar filtros, aplicar efeitos, fazer downloads, salvar no drive, escanear documento no celular ou resolver problemas da impressora.

    Você pode ser jovem em tudo, mas é ancião de acesso.

    É como querer comer quebra-queixo com prótese dentária, abrir pote de geleia com tendinite no pulso ou pagar boleto sem óculos para perto. Aliás, o tamanho dos números nos códigos de barra é o primeiro sinal de que as portas do futuro são estreitas e sem acessibilidade.

    Não tem disfarce que esconda essa falta de colágeno binário. A tela do computador e do celular funcionam como um espelho moderno e cruel a berrar que eu estou fora.

    Quem disse que aceito essa realidade? Eu resisto. Luto contra as evidências da minha velhice digital. Baixo aplicativos como quem usa hidratante anti-idade, só não consigo o efeito rejuvenescedor esperado. Esqueço as senhas, envio e-mail sem o anexo, me enrolo com os links de acesso. Por fim, me dou por vencida e chamo o jovem da casa para resolver o conflito. Bastam quinze segundos e dois toques, tudo resolvido.

    Para manter a honra, mostro interesse em aprender o processo. Minutos depois não lembro mais onde clicar, já não sei o que fazer. Travo. A cada tropeço nasce uma nova ruga virtual. Uma linha de expressão, escrita em negrito, fonte Times New Roman, tamanho 28: você está oldline ─ deixem-me criar uma nova categoria em inglês para os anciãos do acesso e para ter o gostinho de estar na crista da onda.

    A sorte é que a memória falha e o idoso é teimoso.

    Pensando bem, envelhecer talvez seja uma pirraça. Das boas.

  • A madrinha

    Um estranho. Para as pessoas distraídas, apressadas, pensativas, envolvidas em seus pensamentos ou problemas, em que mudar a marcha do carro vem a ser um ato automático, o rapaz parado ali naquele cruzamento praticamente não existia ou era apenas isso: a figura de um estranho.

    Em vez de empatia despertava irritação, talvez.

    Não era transparente, mas era como se fosse. Como se ali não houvesse ninguém.

    Gabriela passava todos os dias naquela esquina e por acaso o viu. Bastaram poucos segundos para sentir-se curiosa em saber quem era aquele rapaz, qual a situação que o levou a mendigar uma moeda, um trocado.

    Não que ela não soubesse. Sabia sim, sua cidade já há algum tempo tornara-se o destino de pessoas e até famílias sem teto.

    Havia muitos pedintes que ficavam nas esquinas das ruas olhando a vida passar. A vida da qual não faziam parte.

    — Como é o seu nome? perguntou

    — Ramón

    — Toma Ramon, disse e lhe passou um sanduíche enrolado em papel alumínio.

    Minha mãe ainda acha que sou criança! Ela ri e arranca com o carro. Não eram mais estranhos, embora não fossem amigos. Criou-se um vínculo sem nome, entre eles.

    Gabriela criou um enredo onde faltavam todos os porquês, e não se conformava por não completar a história sobre o estranho.

    Como ele era? Um rapaz banal. Nem alto nem baixo, moreno, jovem, cabelos pretos, roupas bem usadas, de dias de uso. No cartaz em suas mãos estava escrito a sua nacionalidade e um pedido de ajuda.

    Gabriela elucubrava, não por interesse pessoal nele, mas por um início de consciência que estava adquirindo em sua recém iniciada vida acadêmica. Dia após dia, ao fechar o sinal, ela parava justamente no local onde ele fazia “o seu trabalho.” Trocavam um “bom dia”, “hoje está quente”, e seguiam em seus mundos.

    Como em um flashback, ela o imaginava em seu país de origem conversando com seus colegas, fumando um cigarro, falando do governo, questionando o presente e talvez o futuro.

    O sinal abria e Gabriela seguia seu caminho e o esquecia. Até o outro dia.

    O trajeto para a faculdade, o sinal de trânsito, o estrangeiro e seu cartaz e a imaginação da garota.

    Gabriela passou a pensar em si mesma e em como a vida era estranha. Lembrou-se do seu sonho de adolescente e de como ela não foi capaz de o sustentar quando se viu frente a frente com a real possibilidade de estudar fora. Sua família, seus amigos, seu país. Não! Ela não se sentiu preparada e desistiu.

    Ao ver o estrangeiro, intimamente ela se justificava.

    “Como ele pode deixar o seu país? O país é mais do que só uma palavra. O país são os bosques, os rios, as planícies, as rochas. É o trajeto para a cidade onde mora a minha avó e a minha tia. É o amanhecer e o escurecer. É o cheiro do mato molhado pela chuva. São os barulhos dos bichos ao amanhecer, são tantas coisas…”

    Passaram-se os meses, o semestre do curso quase acabando, Gabriela acalmou seu coração e seguiu sua vida.

    No início do semestre seguinte, ao passar pela avenida onde Gabriela faria um estágio, eis que ela vê Ramon.

    Mudou de esquina. Foi para uma avenida arborizada. Continuava lá, com sua roupa surrada, seu cartaz nas mãos, passando por entre os carros, catando as moedas que lhe davam, até que o sinal abrisse e ele voltasse para o canteiro.

    Ele vem rápido para perto de uma árvore do canteiro central e entre um sinal fechar e abrir, abaixa-se para tomar um gole de água oferecida por uma jovem grávida a quem ele sorri e dá um beijo.

    Gabriela olhou pelo retrovisor e viu que eles se olharam e sorriram um para o outro.

    Gabriela também sorriu.

    Que país, que nada, pensou ela.

    Amanhã mesmo vou falar com quem for preciso. Eles não vão ter meu afilhado na rua, não mesmo!

  • Onde foi que erramos?

    Um grupo de renomados cientistas das mais variadas áreas uniu-se para criar o ‘relógio do juízo final’ (‘doomsday clock’), um instrumento que estima o tempo restante para o fim do mundo, a ocorrer à meia-noite em ponto. Como num conto de Edgar Allan Poe, o soturno soar das 12 badaladas anuncia a chegada da morte.

    O escalar das horas, ao contrário dos relógios convencionais, não ocorre em função do decorrer regular e inexorável do tempo, mas do processo de deterioração das condições que mantêm o organismo vivo. 

    Em 2026, os ponteiros desse cronômetro macabro foram ajustados para o horário de 23:58:35, ou seja, míseros 85 segundos aquém do horário fatídico em que daremos adeus ao planeta azul que nos abrigou por tantos milênios. A marcação que vinha oscilando para cima e para baixo, nunca chegara tão perto do apocalipse final como agora. E nada indica que vá reverter sua marcha funesta rumo ao precipício.

    A maioria das pessoas é persuadida pelos negacionistas que essa ameaça, mesmo que fundamentada em estudos gabaritados de especialistas, não é para ser levada a sério. Esse relógio fictício não passaria de obra fantasiosa de cientistas catastrofistas com intenções malévolas. Podemos continuar agindo com irresponsabilidade, egoísmo e negligência que nada de ruim vai acontecer. Nossa civilização, fundada na lógica otimizadora do mercado, sempre ‘dará um jeito’ de manter tudo funcionando, não devemos nos preocupar.

    Será? Um idôneo check-up revelaria que a nossa idosa e judiada Terra apresenta um quadro clínico de degeneração grave, prestes a ser levada à UTI. O diagnóstico é que infelizmente está vivenciando os últimos suspiros de senilidade, açoitada pela corrida armamentista, guerras sem fim, mudanças climáticas, pandemias, descontrole da tecnologia etc.

    Um fator determinante que fez disparar o temporizador fatal foi a ascensão ao poder de governantes de qualidade deplorável que romperam os já frágeis acordos internacionais e deram as costas para a destruição ambiental. Trump e Putin, os mais poderosos estadistas em capacidade bélica da atualidade, lideram essa safra de maçãs podres, a mando de Tânatos ou Lúcifer.

    Os seres desprezíveis que estão conduzindo nossa existência à derrocada ainda se dizem religiosos e representam eleitores tementes a Deus que deturpam os ensinamentos dos grandes mestres espirituais do passado. Para usar a parábola bíblica, transformaram a água límpida do amor no vinho azedo do ódio.

    Jesus que difundiu o perdão e o amor ao próximo teria vergonha dos pastores evangélicos mercenários e de pregadores racistas e supremacistas que se dizem seus adeptos. Maomé que propagou a caridade e a justiça social deu cria a células jihadistas sanguinárias, tipo Estado Islâmico. Moisés ensinou aos hebreus leis morais e sociais que redundaram no sionismo e em genocidas como Netanyahu. Os preceitos de Buda, voltados à não-violência e à compaixão, foram sucedidos no Extremo Oriente pelas tiranias de Pol Pot e Kim Jong-un.

    Nossa civilização tem produzido cada vez menos pessoas de valor como Aristóteles, Confúcio, Lao Tsé, São Francisco de Assis, Dalai Lama, Gandhi, Chico Xavier, Bezerra de Menezes, Mãe Menininha de Gantois, Irmã Dulce, Madre Teresa de Calcutá, Rabino Sobel e Dom Paulo Evaristo Arns.

    Personalidades com visões diferentes, mas que têm em comum o anseio por um mundo mais igualitário e maior solidariedade entre seus habitantes, independente de suas crenças. Se pudessem ser reunidas numa sala, esses seres abençoados deixariam suas divergências de lado, dariam as mãos e subscreveriam um manifesto ecumênico pelo bem da Humanidade.

    Cada vez mais escasseiam cidadãos da estirpe de Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcolm X, Albert Einstein, José Mujica, Papa Francisco, Ailton Krenak, Cacique Raoni, Malala e Greta Thunberg.

    Como fazem falta brasileiros de caráter como Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela, Sobral Pinto, Hélio Bicudo, Oswaldo Cruz, Paulo Freyre, José Lutzenberger, Roberto Burle Marx, Cândido Rondon, Dorothy Stang, Chico Mendes, Betinho, Abdias do Nascimento!

    Sem contar artistas e escritores que lutaram ou continuam lutando pelo bem comum como: Charlie Chaplin, Hannah Arendt, George Orwell , Ken Loach, John Lennon, Bob Marley, Bob Dylan, Bono, Peter Gabriel, Nina Simone, Joan Baez, Villa Lobos, Portinari, Machado de Assis, Carlos Drummond,  Carolina de Jesus, Guarnieri, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza e tantas outras mentes iluminadas que fizeram da arte instrumento para transformar o mundo.

    Tanta gente que poderia fazer diferença sucumbiu ante dirigentes abjetos que conduzem nossa civilização para a desgraça, líderes que deveriam nos envergonhar, mas que continuam nos guiando com nossa humilhante anuência.

    Nossa civilização que foi capaz de promover avanços inimagináveis na ciência e na qualidade de vida, falhou miseravelmente na simples tarefa de conservar a Terra habitável.

    Foram os povos primitivos, chamados de atrasados, que mantiveram uma relação verdadeiramente sagrada com o planeta. Nela, o tempo subordina-se aos ciclos naturais que fazem com que o relógio do juízo final seja apenas uma inútil quinquilharia. Entre eles, a vida pode seguir seu curso e ser gozada em sua plenitude.

  • A solução vive nas cinzas

    A dúvida é mesmo a assombração da humanidade, o veneno do existir. Não importa a situação. Se nos deparamos com a necessidade de fazer uma escolha ou se somos tragados pela incerteza da continuidade de algo que nos é fundamental, vem a maldita nos mastigar por dentro. 

    Quem nunca passou uma noite em claro matutando sobre o melhor caminho a seguir? Largo meu emprego de anos por uma oportunidade promissora? E se tudo der errado? Troco de curso na faculdade? E o tempo que já cursei? 

    No amor também não é diferente. Quando a insegurança monta casa em nossa mente, a alegria cede lugar à angústia. O medo de perder a prioridade na vida da pessoa amada ganha ares fantasmagóricos: Ele/Ela está diferente, será que não me ama mais? Será que vai terminar comigo? 

    Quem nunca se viu preso na areia movediça da dúvida a respeito da sinceridade do ser amado? Quer coisa pior do que não sabermos se a pessoa escolhida é realmente digna do nosso amor? 

    O inferno da incerteza não para por aí. Não termos ciência do nosso tempo de validade no mundo também acarreta todo tipo de perturbação. Seja porque adotamos a máxima “só se vive uma vez” e, com isso, perdemos o luxo da ponderação, seja porque nos travamos diante da afirmação: “o amanhã ninguém sabe como será.”

    Por isso, acredito que a quarta-feira de cinzas merece toda a nossa enaltação. Ela é a melhor solução para os impasses da dúvida, do medo e da insegurança. É ela que agiganta as emoções e o colorido dos dias de carnaval. Como faz isso? É simples: delimita com clareza o momento do fim, desenha a borda do buraco onde nos atiramos. É ela que assevera: faça tudo o que desejar, porque vai acabar, COM CERTEZA! 

    A catarse inigualável que o carnaval promove vem da garantia de que não nos perderemos em meio as nossas fantasias. SEJA TUDO QUE DESEJAR, porque a quarta-feira de cinzas vem te catar, te envelopar e reconduzir ao lugar de origem.  É feito um salto de bungee jumping, só que com a confiança de que a corda não arrebentará.

    Quer leveza maior? Chego a sentir o vento no rosto. 

    E a danada é tão assertiva que marca a hora do encontro. Ao meio-dia, as obrigações civilizatórias te enlaçam, te puxam pelo tornozelo. O pulo acontece em um abismo controlado. Mas e na vida e no amor, como é possível viver essa explosão de alegria sem que a opressão da dúvida venha nos assolar?

    Não sei… Talvez a solução esteja no caminho inverso. Na valorização das cinzas. Pouco importa quanto vai durar ou quando vai acabar. É por não saber que devemos apostar todas as fichas no desejo. Também somos o que acabou.

    E se eu sofrer? E se eu me decepcionar? Me frustrar? Me arrepender? Ah, para de medinho.

    Todo ano tem carnaval!

  • Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos

    “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante” (Roberto e Erasmo Carlos)

    Os saudosos anos 60, além de propiciar nova consciência, clamor pacifista e efervescência artística, colocaram nos moços longas cabeleiras. Encaracoladas, cacheadas, naturais, lisas, afro, black power, rebeldes, mas invariavelmente compridas.

    Depositários inconformados de valores de uma sociedade decrépita que exaltava a grana e a guerra, os jovens ansiavam por uma nova ordem onde floresceria o amor e a solidariedade universal.

    Os profetas da Nova Era atribuíam o movimento à irrupção da Era de Aquário. “Quando a lua está na sétima casa e Júpiter alinha-se com Marte”, dizia a canção-símbolo do musical “HAIR” (cabelo).

    As mesmas cabeças que, turbinadas por alucinógenos, hospedavam interiormente loucos devaneios de libertação, faziam brotar exteriormente caracóis psicodélicos e fios emaranhados rebeldes.

    Cabelos longos significavam também transgressão à virilidade e à classificação dos gêneros segundo a tradição moralista cristã que dividia o ser humano em 2 categorias absolutas: o homem e a mulher, definidas respectivamente pelas cores azul e rosa.

    As mulheres que tinham nos abundantes cabelos a marca registrada da feminilidade como protótipo de beleza, agora enfrentavam a concorrência masculina, numa época em que os limites que separavam as duas tipologias biológicas tornaram-se mais fluidos.

    Os militares machões que promoviam a guerra e a repressão sempre tiveram aversão por cabelos compridos, enfileirando-os em pelotões capilares uniformes através de cortes tipo reco.

    O sistema opressor para impor os valores burgueses exigia do indivíduo apresentação visual condizente. As vestes e o penteado deveriam retratar disciplina e ordem. Cabelos e roupas desalinhados eram sinal de desleixo, desrespeito, rebeldia.

    A marcha inexorável do tempo sepultou os anos 60 e com eles a quimera por um mundo melhor. “O sonho acabou”, proclamou o cabeludo John Lennon.

    Com o passar dos anos, os cabelos tornaram-se grisalhos, cresceram tanto que ficaram frágeis, começaram a cair como folhas no outono.

    Cabelos compridos saíram de moda. Também saiu de moda o empenho em acabar com as guerras e salvar o planeta.

    Adveio uma nova leva de jovens individualistas com aspirações de ascensão social e fortuna material. Essa espécie em expansão era representada por um figurino asseado, bem trajado, de cabelos aparados.

    A nova safra de jovens das gerações X, Y e Z, ao invés de colares, fitas, pulseiras artesanais com a insígnia de paz e amor, portava roupas e acessórios de grife. Os hippies de outrora tornaram-se capitalistas de terno e gravata e investidores do mercado de ações e em criptomoedas.

    Alguns mais extremados ostentavam, orgulhosos, símbolos neonazistas, muitos deles… carecas. O radicalismo execrava radicalmente a presença de fios subversivos.

    Carregavam metralhadora numa mão e Bíblia noutra. Respaldam seu ódio nas palavras do mesmo Cristo que, triste ironia, pregava amor e usava vestes simples, sandálias, barba e… cabelos compridos.

    Talvez eu seja apenas um saudosista que me apegue a um passado cabeludo que não volta mais.

    Mas no alto das minhas décadas de vida, reluto em ir ao barbeiro cortar periodicamente os cabelos. A eles me apego, como uma ingênua esperança de voltar a sonhar por um mundo melhor.

  • 7ª Escola a Desfilar: Viradouro – Pra Cima, Ciça!

    “Não esperamos a saudade pra cantar”. Essa frase do samba-enredo da Viradouro faz lembrar os versos da música de Nelson Cavaquinho “Quando me chamar saudade”. Nela, o poeta clama para que “flores” sejam conferidas em vida. Parece que a escola entendeu essa mensagem ao decidir homenagear o grande Moacyr da Silva Pinto, muito mais conhecido como Mestre Ciça, no ano em que esse gigante completa 70 anos. Como a escola pretende cumprir essa missão?

    O ano de 2026 será marcado por muitas homenagens. Aqui nessa página já foram comentadas personalidades que “receberão suas flores” de diversas formas. Baseado em seu enredo, parece que a Viradouro vai homenagear seu mestre de bateria fazendo algo semelhante ao que fará a Acadêmicos de
    Niterói, ou seja, contando sua história na avenida.

    Isso porque, a escola falará sobre a ligação do mestre com a Estácio de Sá. Berço do samba e local onde estão fincadas as raízes do homenageado. Ela também pretende falar sobre sua trajetória no samba como passista, integrante de bateria e, finalmente, maestro da batucada.

    O vascaíno Ciça fez história em muitas escolas por onde passou, iniciando sua trajetória na Estácio, escola em que comandou a bateria em um desfile que homenageava o maior rival de seu time, o Flamengo. O mestre não podia deixar tal fato passar dessa forma. Então, foi comandar a Tijuca no desfile do centenário de seu time do coração.

    Dessa forma, o mestre foi fazendo e construindo sua história. Essa, que, aliás, o coloca entre as grandes lendas portadoras da batuta que passaram na Sapucaí. Com seu talento, Ciça ganhou carnavais com uma bateria sempre afinada e doutora em fazer a galera mexer o corpo e sambar no ritmo mágico das baterias por ele comandadas.

    Por tudo isso que foi falado, não é nenhum exagero dizer que a escola de Niterói acertou em cheio na escolha de seu enredo. Conseguem imaginar a emoção que será ver esse mestre conduzindo sua bateria enquanto homenageado? Aguardo ansioso para ver.

  • Fantasia de Carnaval

    “Resort com all inclusive, garçons bronzeados, bíceps à mostra, tapa-olho de pirata, buffet internacional e drinks tropicais… Música dos carnavais antigos, marchinhas singelas ou picantes ressoando, sem atrapalhar a conversação… Praia de areia branca, som do vai e vem das ondas… chuveirões e piscinas de borda infinita a poucos passos… Espreguiçadeiras, guarda-sóis, serviços de massagem, banhos de imersão e tratamentos corporais… Um livro, um chapéu, óculos de sol e minhas quatro amigas da vida toda! Detalhe: tudo pago. Amo vocês.”

    Esse foi o aviso que apareceu no “záp-zap” da família. Afinal, o Carnaval é feito para brincar, sonhar, ser Cleópatra, a Rainha de Sabá, a loira da escola de samba, se é que me entendem…

    Além disso, o ano precisa começar. Já chega de réveillon. E logo vêm as contas para pagar, viver, ter, ser, morar. Ufa.

    Quero um pouco de ousadia, fantasia, alegria e folia.

    Sendo assim, vou me divertir.

    — Ah, mas isso pode ser em qualquer época do ano — dirá a desmancha-prazeres.

    — Não vai inventar moda, mamãe! — a apavorada.

    — Não vá gastar à toa! — esse é o “gestor de finanças”. Das minhas finanças…

    — Já falou com seu médico? — a hipocondríaca.

    — Mamãe, à tardinha nós vamos aí, está bem? Precisamos conversar com a senhora.

    Hã? O quê?

    Ah, crianças, do que vocês estão falando?

    Aviso? Não mandei nada hoje. 

    Onde estou? Em casa, escrevendo minha crônica semanal.

    Para a revista, ora! Qual? a revista online.

    Ah, sim, o tema?

    Escolhi este: Fantasia de Carnaval.

    Beijos, também amo vocês…

  • Solidão x Solitude

    Costumamos dizer que seguimos com a mesma garra, a mesma força, a mesma independência, os mesmos “superpoderes”, embora já tenhamos atingido determinada idade.

    No fundo, porém, penso que isso talvez seja uma escolha. Optamos, de forma racional, por manter uma aparência de força. Decidimos seguir.

    Ainda assim, creio que nos tornamos, sim, mais fragilizados, mesmo quando estamos bem de saúde, com autonomia e em boa forma física. É como se, pouco a pouco, fôssemos esvaziando o estoque da nossa força emocional.

    Passamos a querer andar sempre em dupla. Reparem como muitos casais idosos realizam quase todas as atividades juntos. Ou mãe e filha, duas irmãs, dois amigos inseparáveis. Essa constatação se deu tanto pela observação de outras pessoas quanto pela observação de mim mesma.

    Há, no entanto, aqueles que preferem a solidão. Gostam de estar sós, apenas consigo. Desses se diz que cultivam a solitude. Ficam sós por escolha e sentem-se preenchidos de si mesmos.

    A solitude pode demonstrar força, garra e independência. Ou talvez revele pessoas que, com o avançar da idade, tornam-se mais recolhidas, avessas a reuniões, festas e encontros. Arredias…até ermitãs, chegando a ser intolerantes.

    Eu mesma me percebo dividida entre esses dois tipos de idosos.

    Creio que há também aqueles que são emocionalmente frágeis, mas optam por não demonstrar essa fragilidade. Em razão disso, afastam-se da vida social. Recusam situações em que se espera afabilidade, troca, interesse pelo outro, como festas, reuniões e encontros.

    Reflexões. Apenas reflexões. 

  • BBB

    Aconchegue-se no sofá e prepare a pipoca. Esqueça preocupações do trabalho, problemas domésticos, aluguel, guerras, corrupção, mudanças climáticas, contas atrasadas, taxa de colesterol e todas as coisas chatas sobre as quais, quando questionado a respeito, você responde “e eu com isso?”, empenhado que está em direcionar sua atenção para assuntos mais aprazíveis como futricar na vida alheia.

    Vai ter início o BBB. A partir de agora, você será transportado para um maravilhoso mundo de fantasia, tão arrebatador quanto um papo casual com o vizinho no elevador, ou sobre o comportamento do poodle da moça da fila do supermercado. Nesse contexto, não há relatos edificantes, dramas épicos ou sátiras de costumes. Nem mesmo um enredo ou um roteiro. Apenas uma sequência de vai-e-vens dos personagens da sala para a cozinha e da cama para a privada, entremeada por diálogos niilistas sobre as virtudes da apatia e do ócio.

    Embora voltado para indivíduos com reduzida capacidade cognitiva e mentalidade psicossocial infanto-juvenil, não se confunde com contos de fada ou de aventuras. Nele não há príncipes, donzelas, castelos, dragões, criaturas mágicas e super-heróis. Apenas adultos ‘comuns’ e insossos tipo os que habitam diuturnamente o Facebook e o Tik Tok. Tão estúpidos quanto seus espectadores.

    São barrados pelos experts em audiência da Globo intelectuais, pessoas reflexivas, questionadoras e artistas (exceto os ‘popularescos’). Os participantes são selecionados pelo grau de babaquice, em sintonia com o sentimento de identificação dos telespectadores.

    São priorizados aqueles que gostam de fazer intrigas, injunções fúteis e tenham capacidade de partilhar sua estreita visão de mundo com gente de sabedoria construída em grupos de whatsapps. Assuntos que, não servindo para qualquer matéria jornalística de relevo (afora revistas Caras e Contigo), são suficientes para provocar acaloradas discussões dos ‘especialistas’ em coisa nenhuma que frequentam os programas diurnos de Ana Maria Braga, Sonia Abrão e Nelson Rubens.  Que conseguem a proeza de superar em chatice as bizantinas mesas redondas de futebol que debatem o duvidoso pênalti do zagueiro flamenguista com a eloquência retórica de Cícero defendendo a República Romana.

    Gente que, se não estivesse 24 horas na Globoplay exibindo sua frivolidade, estaria junto a você, do outro lado da tela, tornando o reality show campeão de audiência e corroborando as palavras de Nelson Rodrigues: “os idiotas vão tomar conta do mundo, não pela sua capacidade, mas pela quantidade; eles são muitos”.

    Tais pessoas, invisíveis na turba ante sua insignificância, ganham visibilidade na TV, fazendo do ofício do Big Brother orwelliano um mar de tédio. Os detalhes do seu comportamento são prescrutadas por centenas de câmaras e microfones estrategicamente posicionados na casa/estúdio para acompanhar minuciosamente os movimentos e reações dos participantes. Captam desde uma coçada de saco e peidos acidentais até opiniões preconceituosas acompanhadas de risadas de cumplicidade.

    Nesse circo, você poderá exercer sua vocação cívica elegendo o infeliz que vai para o paredão com a seletividade que lhe faltou na escolha do deputado do Centrão que seu voto colocou no parlamento, cujo nome certamente lhe fugiu da memória, sobre cujas maracutaias você reitera com desdém: “e eu com isso?”

  • A Presença

    Como assim o prêmio do concurso foi uma viagem a Gumi-si?

    Onde fica? É cidade, é país? Em que continente?

    Essas eram as perguntas que eu me fazia, repetidas vezes, enquanto também as dirigia ao agente de viagens que me contactou para dar os parabéns pelo prêmio recebido no concurso de literatura da Livraria Lello, em Portugal.

    Não acreditei de imediato. Mas era verdade. Eu estava na lista dos escritores de língua portuguesa que participaram do certame.

    Confirmado o fato, preenchidos os formulários e de posse do voucher, com todas as particularidades que compunham o prêmio, compreendi, enfim, que não se tratava de um golpe, mas de uma realidade generosa.

    Fui então estudar o meu destino. Gumi-si é uma cidade sul-coreana, localizada no continente asiático, com aproximadamente quatrocentos mil habitantes. Uau. Já gostei. A ideia de não ser uma em um milhão aguçou meu senso de pertencimento.

    Decidida, preparei minha mala. Antes, porém, consultei a meteorologia, os pratos típicos, as vestimentas, a cultura e as opções de entretenimento, ainda que tudo isso fizesse parte do próprio prêmio.

    E que prêmio!

    Ao chegar, impressionei-me com a organização, a ordem, a disciplina e a gentileza dos meus anfitriões. A partir daí, mesmo sem sorrisos largos ou palavras expansivas, senti-me acolhida.

    Encantei-me com os detalhes. Um banco bem posicionado, uma faixa de pedestres respeitada com solenidade, um silêncio coletivo que não constrange. Caminhar por Gumi-si foi perceber que o cuidado pode ser uma forma de gentileza, que a ordem não precisa ser opressão, que a disciplina também pode ser afeto.

    Vocês conhecem o meu estilo de vida. Jovem, carioca, baladeira, inserida em um grupo como o nosso: atores, escritores, modelos e todos os que circulam nesse meio.

    Foi surpreendente descobrir que eu cabia naquele mundo onde a beleza, a poesia e o encanto não dependiam de grandiloquência, onde a moderação é elegante e o silêncio não intimida.

    Gumi-si fez-me descobrir um lado meu desconhecido. A sensação de estar do jeito certo, no lugar certo, sem atrapalhar. Voltei impressionada e, de certa forma, transformada. Descobri que posso ser eu mesma e que há em mim um silêncio atento, uma presença serena que eu ainda não conhecia.

    Gumi-si foi um dos presentes mais valiosos que recebi.

    Foi ali que a minha presença desvendou a minha essência.

  • Minha menina

    Ao final de um dia silenciado pela perda de uma amiga querida, bagunçado por estilhaços de memória, invadiu os meus ouvidos um som de infância vindo do parquinho do condomínio. Uma leveza quase me alcançou, não fosse a rispidez com que a tristeza amordaçou minha criança interior. Não foi a primeira vez que ela acabou contida, calada e desacreditada.

    Tento estender-lhe a mão, mas ela não confia mais em mim. Foram muitos os abandonos.

    Busco convencê-la de que aquela felicidade ingênua de viver sem dar-se conta da morte jamais voltará a nos fazer sorrir sem medo. Perdemos a inocência, a ilusão da presença eterna das pessoas que amamos.

    Ela balança negativamente a cabeça. Não crê no meu desespero de realidade. A criança que fui ainda pulsa quando a emoção me toma. Move os lábios, acena como se quisesse alertar sobre a existência de botes para as tormentas.

    Não ouço o que diz. Só penso em naufrágios.

    Ela sorri, embora sofra todo tipo de escárnio e xingamento. Tola, burra, ingênua, boba. Não percebe que a vida é injusta, cruel, indecente no uso de seu poder e apadrinhamento?

    Não perdoo sua falta de malícia. Rasgo suas roupas bordadas de esperança.

    Ainda assim, minha criança vive, dança, corre, rodopia, gargalha, sonha e é feliz. Mesmo excluída do direito de se pronunciar. Esperta, bate os seus pés no canto do pensamento, inaugurando um novo código Morse que implora nossa salvação.

    Soterro sua presença em resíduos de insegurança, medo, ansiedade, angústia e preocupações. Dou-lhe as costas. Exercito a frieza da maturidade.

    Deixem-me crer no amargor dos sábios e seguir encastelada na certeza do desfecho triste. Agora, tudo parece morto dentro de mim. Olho uma última vez para não restar dúvidas sobre o seu fatídico destino.

    Lá do fundo de tudo que há em mim, seus dedinhos emergem como prova do seu resistir. Ao longe ouço sua voz a me chamar para brincar de ser feliz. Renuncio às condecorações de guerra. Bandeira branca a minha menina. Ela nunca me causou mal algum.

    Machucada, trêmula, assustada, ela corre para os meus braços. Acolho. Acaricio seus cachos. Dou colo.

    Nesse encontro do que fui com o que desejo voltar a ser, renasce a aposta no agora, na eternidade do amor e na ingenuidade da paz.

    Rimos juntas dessa garotinha desafiadora e abusada chamada vida.

  • 2ª Escola a Desfilar: Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico

    “Eu sou o poema que afronta o sistema/ A língua no ouvido de quem censurar/ Livre para ser inteiro/ Pois, sou homem com H”. Dessa forma, e de muitas outras, o samba da Imperatriz Leopoldinense apresenta seu homenageado.

    Não é muito difícil saber quem é, não é mesmo? Quer dar um palpite? Se você é fã, é impossível não ter acertado que se trata do incrivelmente talentoso Ney Matogrosso, um dos maiores cantores que o Brasil já teve. A escola, por meio de seu carnavalesco Leandro Vieira parece ter compreendido muito bem o que esse grande cantor representa. Um talento que vai muito além da música, mas que se consolida no ato revolucionário de ser quem é. Sim, porque para ser Ney Matogrosso é necessário ter coragem. Não é qualquer pessoa que tem.

    Leandro Vieira deixa claro que admira o escolhido no texto que introduz o enredo da Escola. Chamou atenção a seguinte descrição do carnavalesco: “A voz dos que não tem voz. Corporificação dos sujeitos não apreciados. Divindade que incorporou a subversão. O grito dos loucos. A porção da mulher dos malandros. O anjo safado. A iconografia dos marginais. A performance máscula dos afeminados. O canto dos desgarrados e sem paradeiro. A chave dos trancados nas gaiolas’’.

    Ou seja, Ney é afronta! Ney é revolução! Ney Matogrosso é MUITO NECESSÁRIO!

    O foco, ao contrário do primeiro enredo comentado, não parece aqui estar na história do homenageado, mas no que ele representa, em seu gigantismo e na exaltação à sua coragem.

    Leandro Vieira já provou muitas vezes do que é capaz. Ao abordar esse enredo tenho muita curiosidade de saber a forma como será conduzida essa homenagem, pois o carnavalesco não parece estar disposto a fazer o convencional. Será que assistiremos mais uma vez ao Leandro fazendo história na Sapucai? Não sei a resposta, mas tenho certeza de que Ney Matogrosso merece.

  • Eu sou motoboy

    Você que me vê um pivete mau caráter, um delinquente montado numa moto assassina, presta atenção. Não fosse o motoboy aqui, o folgado aí não teria em domicílio o game das crianças, a ração do dogue ou o tênis da patroa comprado barato no aplicativo. Você me deve essa, mano.

    Então vê se te recolhe no teu mundinho mixuruca e para de praguejar do jeito que eu dirijo. Ou você acha que seguindo o guia de boas maneiras do Detran, eu faria a mágica de chegar no teu sofá hoje o bagulho que você pediu ontem no Shopee? Sou o zé-ninguém faz-tudo que dá conta do delivery do supermercado e da farmácia. O curinga que garante a marmita fresca do I-Food e a pizza quentinha no teu portão.

    Passo sim farol vermelho. E daí? Queimo as faixas, subo as calçadas, atropelo coroas ceguetas, entro na contramão. E não tem ‘otoridade’ que me enquadre, nem radar que anote minha placa coberta. Eu não importo pros caras.

    Mas nas ruas das cidades grandes só dá eu. Você pode cantar de galo no jardim da tua casa, no pátio do teu condomínio boiola. Mas dos muros pra fora, é do meu jeito que as coisas rolam. Fica na tua e bico calado.

    Os trouxas ficam cagando de medo dos pontos na carteira por queimar a faixa das avenidas. Já eu costuro, faço malabarismo, passo pela direita e ninguém é macho pra encarar ou caguetar o Zé-Mané aqui.  Então vê se tira esse carango fedorento da frente ou arranco fora teu espelho. E nem vem arrumar perrengue pro meu lado senão chamo os chapas e o prejuízo do retrovisor vai sair pior pra você, véi. Aceita que dói menos.

    Regrinhas de velocidade não vão me barrar de cumprir minha escala e faturar meu ganha-pão. Não tenho opção. Não tenho um puto no bolso. Não tenho carteira assinada. Não tenho férias. Não tenho plano de saúde. Não posso dar bobeira. Se um maluco passar de caminhão por cima, viro mais um presunto a entrar pras estatísticas de acidentes. Já era.

    Recebo por entrega e tem uns algoritmos atrozes que me fazem trabalhar como um camelo, sem tempo pra mijar ou bater umazinha pra aliviar. Fico sob estresse o dia todo, tiro do vale-miséria e dos trocados da caixinha os custos pra manter a máquina ativa. Nessa guerra desigual minha chance de sobrar inteiro é pequena. Mas se eu sair vivo dessa, um dia abrirei um trampo só meu, sem ninguém pra encher o saco. Pode crer.

    Sou produto do caos urbano e das tretas sociais sem saída. Venho das favelas, onde polícia não entra, juiz quer distância e político bambambã não apita. Lá manda quem pode mais. Uns traficam pó, outros se seguram com metranca. Minha arma pra me manter limpo e garantir o feijão do meu muquifo é minha fiel motoca.

    Trago para os bairros dos bacanas o som dos pancadões da perifa e libero os decibéis dos escapamentos envenenados para assombrar tuas noites de sono. É pra te lembrar que eu existo. E não tem GCM bunda mole que me faça aquietar.

    Por isso, bro’, arranca da minha frente e fica esperto. Eu sou motoboy e exijo respeito.

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Sabedoria de bar

    Três amigos se encontravam com frequência em um botequim no Bairro dos Prazeres. Depois de uns goles de cerveja, ganhava fôlego o debate sobre as idiossincrasiasda humanidade. A cada semana uma nova reflexão.

    — Ser humano é um bicho engraçado. Reclama da falta de sorte, de tempo, de oportunidade, mas quando surge uma chance de mudança se angustia, perde o sono com medo do risco, do desconhecido.

    — Sim, verdade. Mas o que eu acho mais bizarro é a síndrome do insatisfeito. A pessoa sofre por tanto desejar uma determinada coisa e quando consegue, em pouco tempo, a graça se vai. Sem falar que o que pertence aos outros é sempre muito mais interessante.

    ─ Para mim, o que considero mais intrigante é o maldito apego ao sofrimento. As experiências ruins, as relações traumáticas, as decepções geram marcas existenciais insuperáveis. Nenhuma felicidade, sorte, conquista ou vitória é capaz de restaurar o estado inicial de alegria ingênua. A marca da insegurança fica ali eternamente ecoando a necessidade de atenção ao perigo. Uma vez perdida a fé na vida, para sempre o martírio do medo de sofrer.

    — Concordo com você, em parte, porque tem gente que apresenta uma inclinação natural para as relações desastrosas. Nutrem uma atração mortal pelos ordinários. Não aprendem com a experiência.

    — Sim, mas defendo que mesmo nesses casos, onde há um certo prazer no drama, não podemos descartar a existência do apego ao sofrimento. Embora talvez se apresente disfarçado de uma esperança masoquista. 

    — Pois eu já penso que o maior infortúnio da condição humana é essa necessidade de ser genial. Quanto mais necessitamos dos louros do reconhecimento, mais nos distanciamos de nós mesmos. Fica latente aquele medo de não corresponder às expectativas do outro, de não ser o melhor, o majestoso. Dou crédito às palavras do Freud: “Nós ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”. 

    ─ Setúbal, aproveite que você está servindo a nossa cerveja e nos brinde com um pensamento sobre a vida.

    ─ O amor é tudo menos ausência. Fiado só amanhã.

  • Bora

    Brasileiros de todas regiões e rincões têm o privilégio de dispor de um cardápio infindável de palavras para expressar ideias e sentimentos, com folga de opções semânticas.

    Nem mesmo o meio milhão de verbetes (além de gírias, regionalismos, neologismos e termos técnicos não catalogados) do Aurélio ou do Houaiss parecem ser suficientes para impedir que nosso falastrão povo recorra a novos termos para exercer sua voracidade verborrágica-papagatória.

    Tudo bem, termos coloquiais são bem-vindos, enriquecem e arejam nossa língua, adaptando-a aos novos tempos e costumes.

    Mas um em especial me soa particularmente irritante e não o consigo digerir: BORA. “Bora criar uma palavrinha nova?” “Bora lá!” Grrrr!

    E assim nasceu o chulo e varzeano ‘bora’, termo originário de papo furado de bebuns que se espalhou como erva daninha nas rodas de desocupados e hoje é usado ad nauseam nos mais variados contextos, sobretudo por aqueles chegados a uma iconoclastia fonética.

    Criei uma aversão insanável por essa palavrinha insossa.  Quando alguém me vem com ‘bora fazer tal coisa’, tenho um impulso irresistível de rebater: “bora pqp!”

    O ‘bora’ é uma contração espúria das palavras ‘vamos’ + ‘embora ‘. Mas como utilizar 2 palavras ao invés de uma é exigir demais dos neurônios do brasileiro, ‘bora usar bora’. Como desgraça pouca é bobagem, alguns recorreram a um encurtamento mais radical, substituindo o quilométrico ‘bora’ por ‘bó’.

    A expressão ‘vamos embora” significa sair, partir, dar o fora, escafeder-se, picar a mula, cair fora, puxar o carro, bater asas, sumir do mapa, tirar o time de campo. Mas quando dizemos ‘bora pra casa’ não queremos dizer ‘vamos embora pra casa’, mas apenas ‘vamos pra casa’.

    Ou seja, o ‘bora’ (abreviatura de ‘embora’) na verdade não substituiu o ‘vamos embora’, mas apenas o ‘vamos’.

    Então carece perguntar: qual é o problema de, ao invés do redundante ‘bora’, usar-se, como sempre fizemos, o consagrado “VAMOS”, que por décadas cumpriu bravamente sua função semiótica? Não, os gostosões transgressores tinham de desenterrar o mequetrefe ‘bora’.

    Não bastasse tantas objeções, o advento do ‘bora’ criou uma dor de cabeça para os linguistas. Quando candidamente dizíamos ”vamos ao cinema”, o ‘vamos’ representava na frase a conjugação do verbo ‘ir’ na 1a pessoa do plural no tempo presente, denotando ação. Gramaticamente perfeito! Quando dizemos “bora no cinema”, o ‘bora’ é sintaticamente inclassificável, uma excrescência linguística que dispensa o indispensável verbo da oração, já que não existe verbo ‘borar’.

    Por essas e outras, no lugar do chinfrim ‘bora’, recomendo enfaticamente expressões mais amigáveis como ‘vamos nessa’, ‘vamo lá’, ‘vamo que vamo’, ‘toca pra frente’, ‘fechou’, ‘manda ver’. Ou simplesmente o simpático ‘simbora’.

    Bora expurgar o ‘bora’ e bora sermos felizes.

  • Infeliz Ano Novo

    Passadas as comemorações de fim de ano, quando já cumprimos o aborrecido ritual de cumprimentar por educação o petista (ou o bolsonarista) que mora ao lado, podemos voltar a odiá-lo como sempre e desejar-lhe, sem remorsos, uma morte sofrida.

    Após o congraçamento universal, quando somos enlevados pelo ‘espírito natalino’ e pelo ‘amor ao próximo’, estamos libertos para retomar nossa guerra contra o insidioso inimigo que nos assombra.

    Agora é cada um por si. Se não ocuparmos o espaço, um meritocrata em busca da prosperidade pessoal, vai passar à nossa frente. Nesse mundo competitivo, só os filhos mais espertos e eficientes de Deus estarão aptos a ingressar no paraíso da abundância material e da vida luxuriante a que só os guerreiros cristãos fazem jus. Já que,  nessa Cruzada, alguém vai se dar mal, antes seja ele do que nós.

    Após a enxurrada de whattsapps que entupiram a tela dos nossos celulares com ‘sinceros’ votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, provindos de gente de que desconhecíamos a existência desde 31/12/24,  já devidamente encaminhados à lixeira do cancelamento, chegou a hora de afiar as garras e repassar para divulgação massiva de legionários da nossa turma os torpedos com injúrias inomináveis, mentiras inquestionáveis e fake news abomináveis contra a honra dos bastardos políticos da turma contrária que, por certo, nesse exato instante, estão fazendo o mesmo contra os que militam em nosso time.

    Os deslumbrantes fogos de artificio que, por 10 minutos, nos encantaram, já podem ceder lugar à artilharia pesada que os bravos governantes que nos protegem lançarão contra os maléficos adversários que, nos anteriores 364 dias, abasteceram-se de armas de destruição em massa para nos aniquilar.

    Os espetáculos de drones coloridos que rasgaram os céus de Sydney, Dubai e Copacabana remetem-nos com orgulho à certeza de que, com a mesma precisão, tal tecnologia está sendo usada para torrar corpos de homens, mulheres e crianças, livrando o mundo de potenciais inimigos, que se preparavam para nos dominar com sua perversa ideologia.

    O começo do ano nos enche de esperança de que em 2026, afinal estaremos livres das forças malignas que nos rondam.  

    Visite nossa página no Facebook e no Instagram e assista nossos vídeos no YouTube, engajando-se na eterna luta do Bem contra o Mal. 

    E um infeliz ano novo para todos.

  • Quero morar no mato

    Não por muito tempo… talvez só o suficiente para que passem as especulações de final de ano.

    Quais? As econômicas, as astrológicas, as políticas, as de tendências de moda, artísticas e até mesmo as da cor para 2026. Acreditam? Essa é realmente nova para mim.

    E agora está respondida uma pergunta que me fiz “ano passado”: por que diabos esse povo está quase uniformizado de bege?

    Shoppings, restaurantes, filas de cinema, feiras, mercados…

    Eu olhava e logo lembrava dos filmes sobre safári, elefantes e afins…

    Pois bem: já estou sabendo que a próximo cor da moda será o branco. Quem disse? Alguém, eu não sei quem, determina… e o “mundo” obedece…

    Será o branco dos médicos e profissionais da saúde? Dos médiuns? Das noivas? Pessoas e suas roupas que a fazem descoladas, influentes, pertencentes estarão por aí, em todos os lugares, usando a cor branca, ora se não!

    Afinal, essa  será a cor chic para o ano que vem.

    Mas, como vou estar no mato, isso não me afetará.

    O que poderia me afetar seria descuidar dos meus apetrechos!

    Mas, como a rebelde consciente que sou, estou aqui catalogando: vital, supérfluo, indiferente.

    Usei essas palavras para que eu não me amedronte.

    Eu, hein!

    Se eu fizer uma lista de alimentos, até que será fácil. Já passei da idade em que comer era mais importante que dormir. As jovens mamães que o digam!

    Continuo com minha lista mental: repelente, isqueiro, água, adesivos para a coluna, remédios para pressão alta, ansiolíticos, estabilizadores de humor…

    Revejo mentalmente meu dia a dia, só para não esquecer nada.

    Não! Não me tirem a vontade de ir para o mato!

    Não me digam que basta desligar televisão, internet e celular!

    Não, não!

    Como assim, que tudo o que eu preciso não ultrapassa as fronteiras do meu quarto?

    Ahhh, não sejam desmancha-prazeres… me deixem sonhar, ser transgressora, correr perigos.

    Já não disseram que só se vive uma vez?

    Tá bom… já sei: eu não sou todo mundo.

  • Sandálias divisionistas

    As notícias estão ficando cada vez mais surreais. A última é que estão acusando as outrora inocentes sandálias havaianas de estar a serviço do comunismo internacional. Nem me dei ao trabalho de entender a origem dessa estapafúrdia ideia, fruto de um ambiente social doentio.

    Esclareço que embora não seja usuário dessas sandálias, reconheço nelas a virtude da perfeita adaptabilidade às necessidades das extremidades dos membros inferiores da perna, também chamadas de pés, que têm a função crucial de promover o equilíbrio e a sustentação do corpo.

    São elas práticas, laváveis, arejadas, não usam costuras e seu formato anatômico proporciona bem estar ao referido órgão de apoio, com uma base homogênea de borracha em que se sobressai a famosa tira em Y, sua marca registrada.

     Além disso, são baratas e duradouras, sendo por isso acessíveis a pessoas de todas as classes sociais. A possibilidade de se adotar milhões de estampas com motivos e cores variadas permitiu que caíssem no gosto até de pessoas mais estilosas, sem perder o charme de sua estrutura básica.

    Com isso, conquistaram corações e pés de todos. Há lojas de havaianas espalhadas mundo afora. Sim, é um item essencialmente brasileiro que alcançou sucesso internacional e colocou o mundo abaixo de nossos resguardados pés, o que deveria encher de orgulho esse país tão pobre em referências.

    Então por que a implicância agora com esse artefato tão simpático que exporta a descontração e a maneira de ser do brasileiro?

    Devo dizer que particularmente não sou fã das havaianas, ao contrário de minha esposa que se esbalda com os inúmeros modelos de estampas que parecem nunca se repetir, em exposição tanto nas vitrines produzidas dos shoppings como em araras improvisadas de mercadinhos populares.

    Minha desavença com elas é de cunho estritamente pessoal. Não me dou bem com a sua peculiar tira que separa o dedão dos demais dedos. Por natureza, acho que os cinco dedos de cada pé, ainda que por natureza tenham autonomia, foram moldados para ficar perfilados uns ao lado dos outros sem barreiras. A tira da sandália que faz com que ela se sustente no pé deixa o dedão separado, o que me passa uma dolorosa sensação de ‘divisionismo podal’ que gera certo desconforto.

    Mas para 99% dos humanos, homens e mulheres, adultos e crianças, essa característica parece não importar, tanto que as sandálias são um sucesso. Exceto para aquela parcela paranoica da sociedade que, por alguma razão, teima em achar que o divisionismo das havaianas vai muito além da questão do dedão.

  • O menininho e a menininha

    O menininho e a menininha estavam sentados na beirada da calçada. Ela olhou bem nos olhos dele, examinou-o desde o cabelo até os pés, disse:

    – Você é parecido comigo.

    – Você não é preta – ele disse.

    – Você é clarinho, é quase branco – ela disse.

    – A sua roupa é mais nova do que a minha. É bonita – ele disse.

    Ela sorriu, depois perguntou o nome dele, do pai dele, onde morava, essas coisas. De repente ficou tristinha, disse:

    – O seu pai matou o meu pai.

    O menininho fez cara de quem não entendia. Ela explicou:

    – É porque o meu pai estava namorando a sua mãe.

    O menininho fez cara de choro. Para disfarçar, enfiou o dedo no nariz. Então disse:

    – O meu pai matou a minha mãe.

    Os dois ficaram se olhando, fiozinhos de lágrimas deslizando nas carinhas lambuzadas. Ergueram os dedos para se acariciar, abaixaram logo, com vergonha.

    Finalmente, se levantaram e foram embora. Ainda olharam para trás umas três vezes, depois saíram correndo, cada um para o seu lado.

  • Reflexões em tempos de espanto

    Nas últimas semanas, tenho pensado a respeito de uma dúvida que sempre me ocorreu: as palavras têm, por si só, o poder de iludir ou é a paixão quem confere a elas esse dote?

    Quem não conhece a facilidade do sujeito apaixonado para confundir alô com amor? Não adianta defender que dessa leseira não sofreremos. Basta uma breve reflexão sobre antigas decepções amorosas e logo se apresenta a pergunta: Como não percebemos isso? Estava na cara que não valia nada…

    A bem da verdade, só vemos o que nos conforta ou suportamos ver. Essa é a raiz da cegueira afetiva. E a palavra, pelo visto, embaça a visão.

    A ideia de um encaixe perfeito ou de uma imaginária completude entre as pessoas, independentemente do tipo de relação em que se apoie, porta sempre uma ilusão, uma fala(cia). O discurso se faz tijolo na construção do trono mítico do amado. E mais, à medida que o apaixonamento avança para o campo da idolatria, situação na qual o objeto cultuado é aquele a quem nos entregamos como único salvador, mais ensebamos as palavras na tentativa de escamotear a verdade áspera da nossa própria escuridão.

    Se mais nos vestimos de encanto, mais nos despimos de realidade. É assim que os olhos perdem sua função, e as ações, sua significância. A razão, senhora justa e ponderada, é esculachada em praça pública. Quem quer saber dela? O próprio ditado insinua a ingenuidade desastrosa do sentimento: o que os olhos não veem o coração não sente. Faço aqui um adendo e uma advertência: Não importa se os olhos veem e o coração sente, isso não dá sustância. A paixão tem fome de doces promessas. Engole sem mastigar. Se farta e se lambuza de casadinhos feitos de palavras e ilusão. É perigosa, mas não necessariamente letal.

    Num dado momento, saciamos a fome e, por vezes até, vomitamos. A palavra recupera sua roupa de andar em casa.

    O mesmo não se pode dizer no enamoramento cego, típico da idolatria. Nele, acredito, há uma duplicação do sujeito e do seu dito.

    O objeto amado, venerado e enaltecido, ainda que em condições insalubres de afeto, é puro reflexo. Representa uma versão esmaltada e lustrosa desse sujeito que até então vagava desalmado de sentido. Faminto de importância, engole sem mastigar casadinhos de narcisismo e ostentação. Não enjoa, não
    cansa. Arrota insanidade.

    Nada importa. Ninguém.

    Nenhuma explicação é capaz de abarcar a submissão profana de um corpo ao seu reflexo, visto em carne e osso do lado de fora. Não nos enganemos.

    ]Ninguém venera a diferença.

    Só se idolatra a própria imagem, cifrada nas palavras e ações do outro idolatrado. Ambos se pertencem.

    E quanto à palavra, concluo que ela não é culpada. Para que a palavra iluda, alguém precisa dizê-la. Alguém precisa ouvi-la e querer validá-la.

  • Por que as pessoas gritam?

    Tenho pavor, trauma e medo de quem grita. O grito, para mim, é quase sempre a antecâmara da violência, do caos anunciado.

    A violência seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota“, já disse o filósofo

    A opressão, a intimidação e o medo, via de regra, começam pela voz antes de chegarem ao gesto, ao domínio ou à implantação de qualquer mecanismo de dominação. 

    Mas não falo aqui de política, de poderes instituídos ou de disputas explícitas por controle. Nesse campo, afirmo de forma simples, talvez até ingênua, que para um grito de alegria existem centenas de gritos opostos. 

    Falo do que vejo. Do cotidiano. Do convívio em sociedade. Onde a conversa comum, não precisaria ser compartilhada… aos gritos.

    Outro dia, vi uma influenciadora reclamar das pessoas que falam alto em restaurantes, salões de beleza e outros espaços públicos. Argumentava que o barulho natural do ambiente poderia exigir uma voz mais elevada. Mas não a ponto de tornar impossível manter uma conversação civilizada. Os clientes precisam falar alto, o pessoal dos serviços falam mais alto ainda, se houver crianças, elas aproveitam o ambiente para se soltar e correr entre as mesas e isso acaba formando um círculo sonoro, e o que deveria ser  prazeroso, se torna desconfortável e cansativo. 

    Por sua vez, isso me chamou a atenção e percebi que existem muitas situações onde impera o que eu chamo de “grito social”. 

    A voz alta na academia, por exemplo. Para quê? Por quê? A madame puxa o ferro do lado oposto àquele em que outra pessoa se alonga e, entre um movimento e outro, gritam entre si. Logo adiante, outra dupla, talvez um trio, repete a cena com entusiasmo semelhante. Ganha quem fala mais alto! 

    Já sei que foram à Disney, qual vinho costumam beber e o que pensam do padre da paróquia. Eu queria saber? Isso me acrescenta algo? Não.

    Mas gritar parece necessário. Às vezes penso que é a solidão, ou o vazio dos dias, que pede movimento com mais urgência do que os próprios glúteos. Falar alto torna-se, então, uma forma de existir no espaço. Uma comunicação de quem precisa tanto ser visto quanto ser ouvido.

    Preocupo-me com a minha própria percepção. Tenho medo de duas coisas: precisar recorrer a abafadores de ruído ou constatar que estou me transformando naquela figura clássica da “velha rabugenta”. Ambas as hipóteses me assustam.

    Por favor, que eu não precise que gritem comigo em nenhuma delas.

    Sejam gentis. Aproximem-se. Sentem-se ao meu lado. Olhem-me nos olhos e falem bem baixinho, de forma natural, quase doméstica: “por favor, não seja implicante…”

  • A ordem é amar?

    O parlamento da Dinamarca aprovou, recentemente, uma lei que proíbe o acesso de menores de quinze anos às redes sociais. Com essa atitude, o governo determina que a relação dos seus cidadãos com as plataformas digitais transcende o escopo da educação familiar e se torna um problema de saúde pública.

    A Austrália também adotou medidas semelhantes. Contudo, por lá, a idade mínima para acesso será dezesseis anos. Outros países da Europa estudam seguir nessa mesma direção.

    O velho discurso de que as redes sociais são espaços que promovem liberdade de expressão, diversão e conexões sociais importantes não se sustenta mais diante do alarmante crescimento da dependência emocional e da ansiedade coletiva entre crianças e adolescentes. Muito embora alguns críticos chamem a lei de moralista e paternalista, a Dinamarca afirma não se tratar de censura, mas de regulação preventiva.

    O projeto se baseou numa estatística preocupante: os índices de depressão e ansiedade entre jovens dobraram nos últimos dez anos e não se pode ignorar a correlação entre esse fato e o tempo das telas.

    Para além da discussão sobre quem deve ter o poder de cuidar do bem-estar e da saúde mental das crianças e jovens, é absolutamente necessário

    refletir sobre a invasão que os espaços afetivos têm sofrido por parte dos eletrônicos, das redes sociais e plataformas digitais. Não temos como negar que, muitas vezes, negligenciamos as pessoas que amamos e, até mesmo, a nós mesmos e aos nossos objetivos e planos, seduzidos pelo vagar solitário e despretensioso nas redes.

    As crianças e os adolescentes denunciam sua dependência e adoecimento com sinais cotidianos, muitas vezes, naturalizados por nós, como por exemplo: crises coléricas ao não poder acessar o eletrônico, resistência e desinteresse em relação a qualquer outra atividade que não envolva o celular ou o game, agressividade e descontrole diante da frustração no jogo ou por impedimento de acesso, isolamento no quarto, afastamento do contato familiar, entre tantas outras coisas.

    Os adultos também já experimentam, de forma explícita, as consequências dessa relação desmedida com as redes sociais. Quem nunca sentiu inveja da felicidade alheia e fake postada nas redes? Todo dia, ali, na nossa frente, tem alguém que parece ser mais feliz, mais bem-sucedido, mais amado, mais elegante, mais sortudo do que nós. E pior, assistimos e aplaudimos a vida dos outros enquanto a nossa fica parada na mesma estação. As relações amorosas também têm sofrido com a soberania virtual. Já ouviram falar sobre phubbing? Não? Eu posso apostar que, em algum momento, vocês já o experimentaram de forma ativa ou passiva. Phubbing é o ato de ignorar uma pessoa ou situação social para prestar atenção ao celular. O resultado? Prejuízo da conexão e da intimidade e, consequentemente, distanciamento emocional.

    A situação é tão bizarra que, mesmo quando escrevemos, lemos ou conversamos sobre o assunto, ainda assim, somos capazes de praticar o “crime”.

    Como desarmar o feitiço?

    Algo me diz que a solução está na arte, na literatura, na música…

    Lembrei da letra: “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus decidem se encontrar… Meu amor, juro por Deus que a luz dos olhos seus vence o meu celular”.

  • Breve encontro

    Hoje, por acaso, tropecei no passado. Um banco de madeira, daqueles que encontramos nas pracinhas, a sombra de uma árvore de flores amarelas e a brisa suave de um fim de tarde me levaram à infância. Lá encontrei minha inocência, o castelo suntuoso dos meus sonhos, a paz de saber-me neta da minha avó e todas as garantias de amparo advindas dessa benção. 

    Bolas de sabão sopradas ao vento pela menina de vestido floral faziam ecoar no tempo as gargalhadas da minha meninice. 

    Ali eu me senti tão eu…tão tenra, tão solta… merecia ter permanecido aconchegada no colo da ingenuidade por toda a juventude. Mas amadurecer exige experiência com espinhos que, se não cortam profundamente, arranham o belo rosto da inocência. Contudo, a vida adulta tem seus unguentos. A maioria deles mora na amizade. 

    Que lindeza sentir o abraço de quem nos quer bem, o apoio daqueles que chamamos de pares. 

    Beijei o passado e voltei sorrindo para o presente.

    A pureza ficou lá nos tempos idos, mas veio comigo em seu lugar a esperança, essa menina travessa e cheia de planos.

    Salve o agora e todas as suas possibilidades.

  • Um ouvido novo, para uma história velha…

    Que atire a primeira pedra quem não passou por isso!

    Todos nós conhecemos alguém que adora quando perguntam: e aí, tudo bem?

    Pronto, lá vem a amiga ou amigo traída(o) contar detalhes: como passou a desconfiar, quais sinais ela não percebeu, o quanto acreditou no traste, como foi a certeza, a decisão, o que sofreu, a separação, o pós, o agora. Dependendo do ambiente, terá lágrimas, e você perdeu a sua ida despretensiosa à cafeteria, ou ao salão, ou a tarde que pretendia ser apenas um encontro bacana. 

    Você acabou de passar por uma das experiências muito comuns em determinadas pessoas: o prazer em contar as mazelas porque passaram ou estão passando!

    Ah, tem também a que adora contar as minúcias da receita fantástica do bolo, que você nunca pretendeu fazer! 

    E pode ser pior! Sem combinar encontro, nada, eis que você acabou de ver a sua amiga ou colega hipocondríaca e pensa: Ah não, justo hoje, que tirei o dia para espairecer! 

    Dessa não há expectativa. É certeza que a pessoa está à beira da morte! 

    Sao tantos males, indisposições, exames de laboratório, nomes de médicos e remédios, que é como se você estivesse com um prontuário em mãos!

    E nem queira sugerir ou aconselhar nada: terapia, outro médico, mudança de perspectiva, positividade então, nem pensar! Pois se é a doença verdadeira ou cultivada que a coloca em foco! 

    Fique ali, presente, gentil, apenas ouvindo, pois naquele momento, o palco não é seu.

    Mas uma coisa é certa: Vocês acabaram de ganhar o selo de serem: “um ouvido novo para uma história velha!

    Agora é a sua vez: vai contar essa saga pra quem? Rsrs…

  • Me dê um lyke?

    As redes sociais dominaram, não há como negar. Se aconteceu, está na rede. Se não estiver, deve ser irrelevante, e nem interessará a ninguém.

    Em tempos não tão longínquos, eram as redes de televisão e, antes ainda, os jornais e revistas.

    Os expoentes da comunicação tornavam-se celebridades, a quem conhecíamos pelos nomes.

    Redatores, colunistas, apresentadores e repórteres passavam a ser nossos “amigos”.

    Ah, e o que dizer dos publicitários?

    Esses eram mais do que celebridades, praticamente encarnavam o sucesso! Eram os responsáveis, tanto pelo nível de audiência das redes de comunicação, quanto pela aprovação dos mandatários da nação.

    E estas eram  expressas nas famosas pesquisas de opinião dos grandes institutos, cujos resultados fariam o “cliente” cair em desgraça, ou ganhar ascensão!

    Eles se tornavam os gurus, seus nomes e credibilidades eram amplamente reconhecidos, pois cuidavam da imagem que chegaria ao povo. 

    Os tempos mudaram. E como!

    Hoje, nossa vida precisa ser vista, comentada, invejada, copiada, seguida.

    E, quanto mais seguidores tivermos, mais e mais conteúdo devemos produzir.

    Falando nisso, adivinhem onde vi a notícia de que foi sancionada a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento da taxação para altas rendas?

    Por surpreendente que pareça: em um Reels da rede social do governo federal!

    Ah, jovens, vejam o quanto vocês mudam o que quiserem! “Reels, storys, flopar” e expressões do tipo, já fazem parte da linguagem institucional! 

    Estamos na era do: “Me exibo, logo existo!”

    Ah, mas o correto não é: “Penso, logo existo”?

    Tudo depende de qual influencer você segue.

    E viva o poder!

    Não, não estou me referindo ao poder constituído.

    Mas ao poder das redes sociais.

  • Vê se me enrola pouco, pediu a musa

    Vamos esclarecer esse negócio de musa inspiradora. Para início de conversa na tradição clássica ocidental eram nove as musas, todas filhas de Mnemósine, divindade grega da Memória, com o todo poderoso Zeus. Elas eram Calíope, Clio, Érato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Terpsícore, Talia e Urânia.

    Cada uma inspirava a arte nos homens e nas mulheres, sempre de alguma maneira direta ou indireta como é próprio nas relações do divino com nós mortais. Por conta de suas qualidades é impossível dizer que quem escreve se inspira em uma musa só.

    Calíope era a musa da eloquência e de certa forma está presente em tudo que se escreve ou fala. As vezes se confunde com verborragia mas para essa não há divindade determinada. Ao menos não para os gregos. Calíope é uma das musas inspiradoras mais presentes na minha vida, admito, porque já escutei e li que sei usar bem as palavras, com desenvoltura e quando há motivo mais ainda. Isso dito inclusive por você.

    Culpada, meu escriba! Mas siga.

    Vamos lá, quando alguém ou alguma coisa é citada, pode se atribuir a inspiração a Clio. Ela era a musa da História, a que conferia fama às pessoas. A fama aqui está subentendida como algo bacana, a despeito de atualmente se relativizar a idéia lembrando que existe boa e má fama. Mas no tempo da Grécia clássica fama era coisa boa. Daí ter sua musa.

    Para aqueles momentos mais leves e mais amorosos ninguém escapa da influência das musas Érato, inspiradora da poesia lírica; e Polímnia, da poesia amorosa. São elas, as vezes em separado as vezes juntas quem fazem os escribas escolherem aquelas palavras mais adocicadas e que eventualmente tem poder de envolver e encantar quem as lê.

    A da música é Euterpe e ela é para poucos haja visto a quantidade de gente desafinada que agride as mais belas canções já compostas. Fora os que acham que são inspirados por ela e insistem em escrever e musicar uns pseudo-versinhos para lá de sem vergonhas. Daqueles que só a claque aplaude, sabe?

    Na sequência vem Terpsícore, musa da dança. Mesmo no ofício de juntar letras para formar palavras ela traz inspiração pois nada mais gracioso que um texto que se move aos nossos olhos.

    Há a dupla de musas que parecem se opor: Melpômene, a tragédia; e Talia, a comédia. Essas duas usualmente não estão presentes ao mesmo tempo para inspirar. Mas há exceções. As vezes elas se conjugam com outras, como Érato ou Polímnia, o que traz bastante sabor ao que se escreve e explica o amor trágico ou a comédia romântica. Tudo obra da conjunção delas.

    Por fim a última e para mim ainda inexplicável musa é Urânia.

    Por que inexplicável?

    Porque ela é musa da astronomia e da astrologia.

    Sério?

    Sim enquanto astronomia é ciência astrologia está mais para…

    Não fala, sei sua opinião a respeito da astrologia.

    Tá bom.

    Devo entender depois de sua vasta explanação que é por isso que não sou sua única musa?

    Mais ou menos.

    Mais ou menos?

    Sim, porque isso de ser musa não é assim algo tão exato.

    Então me explica mas por favor vê se me enrola pouco.

    Olha, eventualmente você é a única musa. Por outras vezes a inspiração é diversa, vem de várias musas ao mesmo tempo que se apresentam a me inspirar e o que escrevo é resultado dessas múltiplas influências. Mas há também aquelas situações em que uma única musa se mostra para mim com diversas formas. Isso é mais comum do que parece dado o caráter multifacetado dessas musas.

    Pode ser mais claro com esse negócio de “caráter multifacetado dessas musas”?

    Claro. Eu quero dizer que por vezes a mesma pessoa pode me apresentar a inspiração de mais de uma musa. Como se combinasse …

    Calíope e Polímnia?

    Sim, como se combinasse a inspiração essas duas musas. Daí ser a musa multifacetada.

    Uma dessas pessoas seria euzinha aqui?

    Sim, você.

    Mas tem outras na sua vida.

    Ao redor de mim você quer dizer. Sim é natural porque a convivência permite beber em fontes variadas.

    Você bebe muito?

    Com moderação, você sabe.

    Hum, sei. E como é viver sob a influência de tantas musas?

    Tem dias que vai bem, em especial quando estão calmas. Mas tem outros em que elas estão encapetadas.

    Ah é, tem isso de musa endiabrada?

    Tem sim, aí é um Deus nos acuda delas querendo inspirar a todo custo, eventualmente até impondo sua inspiração sobre as demais. É uma luta.

    E como você resolve?

    Respiro fundo e deixo fluir. Naturalmente a que estiver mais presente, mais conectada com o que penso e sinto no momento leva a melhor sobre as demais.

    E quem costuma levar a melhor mais vezes? As musas de face única ou as multifacetadas?

    É fácil, basta ver o que eu escrevo.

    Nem sempre, porque as vezes suas palavras simples escondem emoções herméticas.

    Mas para senti-las e entende-las não é difícil.

    Ah não? O que é preciso, meu querido escriba?

    A receita vem de longe, de um escriba anos-luz maior do que eu.

    Sinta quem lê.
    De quem?
    Do Pessoa.
    O que ele diz?

  • O Diabo é ardiloso, mas eu sou malandra

    Por tudo se paga um preço nessa vida. Inclusive, pelo saber. Minha vó costumava afirmar: “a ignorância é uma benção.” Certamente, esse era seu jeito de dizer que certas verdades são difíceis de digerir. Na época, eu ouvia suas frases enigmáticas, mas o sentido íntimo desses ditos não me tocava a pele. Hoje, voltam à mente vestidos de significado. Cada vez mais, percebo que saber é temer. Listo a seguir as descobertas divulgadas na internet, nessa última semana, que balizam minha afirmação: o consumo diário de refrigerante dietético aumenta o risco de demência e acidente vascular cerebral; o presunto e a salsicha (que eu amo) são tão cancerígenos quanto o cigarro (que já abandonei); não existe nível seguro para o consumo de álcool; as noites insones, seja pelos efeitos da menopausa, noitada, maratona de filmes ou por qualquer outro motivo, são prejudiciais à saúde física e mental. E para completar a chuva de lamentos: o docinho depois da refeição, o bolo da tarde, o chocolate amado, não é tão inofensivo quanto parece. O açúcar, agora, é um veneno que inflama o corpo.

    Diante disso tudo, acabei por concluir que tenho, como dizia minha mãe: “dedo podre para escolhas”, ou melhor dizendo, tenho muita afinidade com o rei, Roberto Carlos: “tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda.”

    Talvez a saída seja ressignificar o desejo, ampliar os horizontes, mudar perspectivas, se aventurar em lugares ainda desconhecidos e apostar nos benefícios de uma vida bem cuidada.

    Mas, como o Diabo sempre atenta, acabei de receber de uma amiga, pelo Instagram, um vídeo em que o cara canta um pagode que diz mais ou menos assim: “Você pode parar de beber whisky, conhaque, vodka ou cerveja, você pode fazer exercícios e se alimentar direito…. Não vai adiantar p. nenhuma, você vai morrer de qualquer jeito.”

    Depois dessa, quase me entreguei ao pote de Nutella. Mas, por sorte, um pouco antes, tinha lido um artigo sobre envelhecimento ativo. Aí, ponderei (bônus da maturidade), avaliei minhas chances, tracei perspectivas, e, por fim, decidi vestir a roupa da caminhada.

    Sempre que fico tentada a chutar o balde, penso naquela plaquinha de vaga para idoso (injusta e inapropriada) que mostra um velhinho de bengala, bem curvado. É só fazer isso e já me vem uma vontade imensa de cuidar no presente do futuro.

    Senti até amor pelo brócolis.

  • Pena de vida

    “Sou a favor da pena de vida, se o sujeito cagou, pisou na bola, tem que resolver aqui, não pode sair fora” (Pedro Luís e a Parede)

    É assustadora a frequência com que ocorrem nos EUA massacres perpetrados por armas de fogo em escolas, que deveriam ser ambientes seguros de sociabilidade e aprendizado. Famílias são destroçadas, crianças com uma vida pela frente são executadas friamente por razões fúteis.

    As motivações para tais atos bárbaros podem ser racismo, ódio, terrorismo, paranoia… Mas há um fator que perpassa esses trágicos eventos: a facilidade com que os americanos têm acesso a armas de fogo.

    É uma chaga americana que explica por que o país mais rico do planeta, o único onde o número de armas supera o de habitantes, continua sendo o mais violento e um dos que têm os maiores índices de criminalidade, campeão nas taxas de homicídios, suicídios e acidentes fatais provocados por artefatos bélicos.

    O que impressiona é que nada parece indicar que isso vá mudar. A indignação após a consumação desses atos de selvageria não é suficiente para provocar mudança e, passada a comoção, o assunto cai no esquecimento.

    A solução que se propõe para as carnificinas é armar professores e funcionários das escolas. Poderiam também, quem sabe, permitir que as crianças andassem com pistolas nas mochilas para aumentar sua proteção. O problema causado pela liberação das armas seria resolvido armando mais gente. Cômico se não fosse trágico.

    Mas há também um componente ancestral que dificulta a modificação dessa fixação doentia, enraizada na cultura ianque, herdada dos tempos do faroeste, que faz com que ser contra armas represente perda de votos.

    Um exemplo pode ser verificado nos filmes de ação que inundam cinemas e lares. Havendo um vilão malvado, o enredo sempre se livra desse personagem incômodo fazendo com que tome um tiro letal que o tire definitivamente de cena. São raros os casos onde a sorte do malfeitor é determinada por um julgamento onde fique comprovada sua culpa e definido seu encarceramento. Seu destino não é resolvido nos tribunais mas por uma pistola justiceira. A mensagem é que, como a justiça não funciona, a solução é que lhe seja metido um balaço. A ‘sentença’ de pena de morte é definida e aplicada pelos ‘mocinhos’, à revelia dos trâmites processuais.

    Através da eliminação física do malfeitor, supõe-se que suas culpas foram expiadas. O espectador pode dormir o sono dos justiçados pois o meliante não voltará a ameaçar a pobre vítima nem abalar sua certeza de que a justiça foi aplicada e o delinquente teve o fim que merecia. Morto, não corre o risco de escapar das grades e voltar às ruas para vingar-se.

    É como se os cidadãos da autoproclamada maior democracia do mundo confiassem menos em suas próprias leis do que no poder mortífero de um atirador, detentor do direito divino de fazer justiça com as próprias mãos.

    Resta a pergunta: com a morte os crimes foram de fato redimidos? Minha opinião é um enfático NÃO! Uma vez que um preciso projétil arrancou-lhe a vida numa fração de segundo, sem que ele vivenciasse qualquer sofrimento, ele não teve oportunidade de ponderar sobre suas ações maléficas ou arrepender-se, pagando efetivamente por seus pecados através da perda da liberdade e da triste sina de ter parte de sua vida enclausurado no inferno de um cárcere. A verdadeira justiça só seria aplicada se o criminoso, ao invés de ter sua carcaça inerte levada a um cemitério, fosse conduzido em vida para a cadeia, amargando anos de tormenta por seus crimes atrás das grades de uma soturna cela, tendo oportunidade de avaliar se seus atos insanos valeram a pena.

    Àqueles que argumentam que penitenciária não regenera ninguém, que pensem no aprimoramento do código penal de maneira que a prisão cumpra seu requisito não apenas de recuperar o criminoso para a sociedade como fazê-lo efetivamente pagar pelo crime. Não na outra vida, mas aqui mesmo. É isso que a sociedade espera do sistema jurídico.

    Não é essa a lição que Hollywood passa. Perpetua a visão de que é somente através das armas que resolveremos o problema da injustiça e da criminalidade. Com isso fortalece um sentimento de incredulidade nas instituições em promover a segurança do cidadão.

    O direito ‘sagrado’ de ter uma arma é considerado tão básico que consta expressamente da Constituição americana, associado a um sentimento de liberdade, proteção do patrimônio e segurança individual.
    Triste é constatar que se traga para cá essa deficiência dos nossos irmãos do Norte. 

    Num país onde questões mais graves como a fome, a miséria e a desigualdade social imperam, importar o bangue-bangue da cultura americana é uma boa maneira de lançar uma cortina de fumaça sobre as verdadeiras mazelas do nosso país.

    Ao invés de investir num futuro melhor para nossos jovens, estamos, com essa obtusa política armamentista, cultivando a morte e a violência, transformando ruas e parques, não em espaços comunitários de convivência, mas em arenas de combate, onde o outro é visto como ameaça em potencial.

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