Sambódromo

  • Valeu, Mestre Ciça!

    João Pedro é um menino de 9 anos nascido na cidade de Niterói. Como todo garoto, costuma ocupar seu tempo fazendo coisas que outros de sua idade também fazem. Estuda, vai ao colégio, joga videogame, usa seu celular para ver o que acontece nas redes sociais e passar o tempo se distraindo com games.

    O menino sempre acompanhou a paixão de seus pais pela escola de samba de coração, a Viradouro. Os sambas da escola sempre fizeram parte dos churrascos de domingo com sua família. Durante a cerimônia familiar, o garoto sempre ficava se perguntando por qual motivo aqueles que o trouxeram ao mundo amavam tanto esse tipo de música que ele nunca conseguiu gostar.

    No ano de 2026, Pedro sentiu uma euforia além do normal em sua casa, ele via seu pai bradando pelos quatro cantos sua empolgação pelo enredo que homenagearia Mestre Ciça. Até então, o garoto não fazia a mínima ideia de quem se tratava. Resolveu, então, então perguntar a Roberto, seu genitor, que tentou explicar de todas as formas, mas, ainda assim. o garoto não conseguia compreender tamanha empolgação.

    Seu pai, então, resolveu fazer um convite, o chamou para assistir ao desfile da Unidos do Viradouro que aconteceria na madrugada do dia de segunda para terça. Cansado, após fazer muitas coisas ao longo do dia, João dormiu, mas foi acordado no horário por Silvia, sua mãe. Um pouco contrariado, foi ele assistir ao tão aguardado desfile.

    No início, pouco entendeu sobre o que estava acontecendo. No entanto, ao ver a comissão de frente que trazia um garoto com idade semelhante, ele começou a se interessar. Daquele menino, surgiu a figura homenageada içada ao ponto mais alto de um tripé da comissão de frente que parecia visivelmente emocionado ao ser saudado por todo o Brasil. Naquele instante, o garoto entendeu que algo diferente estava acontecendo e passou a assistir vidrado a tudo o que acontecia na avenida.

    Cada figura que aparecia, fazia o curioso Pedro perguntar aos pais de quem se tratava. Desse modo, o menino conseguiu entender o inexplicável. Percebeu que a mágica dos desfiles acontece dentro da avenida. Dali para frente, assim como seus pais, Pedro se tornaria mais um apaixonado pelo samba e quis assistir a todos os desfiles seguintes.

    Nesse texto, o menino João é apenas um nome fictício para representar as milhares de crianças que, assim como o garoto Ciça, se apaixonaram pelo carnaval e pelos desfiles das escolas de samba em algum momento da vida.

    Eu mesmo, sou um deles.

    O sambódromo é um local onde o inimaginável se materializa em forma de emoção e faz a mágica acontecer. Coisa que pouquíssimas experiências conseguem realizar de forma tão eficiente como ocorre no carnaval. Ciça, após a Viradouro ganhar o título, disse que esse não é um título próprio, mas um título que cada sambista e apaixonado pelo carnaval carrega junto com o mestre. Essa frase demonstra um espírito de solidariedade que raramente pode ser vislumbrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos. Mais do que nunca, precisamos não só viver o carnaval das escolas de samba, precisamos ser o carnaval das escolas de samba.

    Que mais crianças como João Pedro possam entender a magia dessa festa e que o espírito do carnaval seja proliferado.

    Valeu Viradouro! Valeu Mestre Ciça! E. por último, um valeu especial a todos os sambistas antigos e os novos que ainda surgirão!

  • 8ª Escola a Desfilar: Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus

    “Meu quarto foi despejo de agonia / a palavra é arma contra a tirania’’. Essa frase do samba da Unidos da Tijuca revela muito bem como sua homenageada utilizou a palavra como uma arma denunciando as desigualdades brasileiras e dando voz a pessoas esquecidas. Trata-se de Carolina Maria de Jesus, como o próprio título do enredo já revela.

    Pela sinopse de seu enredo, a Tijuca fará uma homenagem ao estilo tradicional. Ou seja, ela pretende contar a história de Carolina que começa no cerrado de Minas Gerais, onde a gigantesca mulher, ainda criança, aprendeu com os ensinamentos de seus ancestrais. Dentre eles, está o seu avó Benedito, o tal “preto velho que lhe ensinou os mistérios” como o próprio samba enredo já diz.

    Desse jeito, o enredo vai acontecendo em capítulos. Entre eles, está aquele em que ela vai trabalhar na roça e acaba presa e humilhada por portar um dicionário! Além disso, foi acusada de feiticeira e de ser uma mulher que queria causar prejuízos aos brancos, os donos do local (ou melhor, que achavam ser isso). Pensar em uma Carolina acusada de bruxaria é pensar no destino de várias mulheres que, ao se indignarem com as injustiças que o mundo lhes impunha, foram acusadas do mesmo.

    Infelizmente, vivemos uma realidade em que cada característica física de uma pessoa faz com que ela desça um degrau na escala social. Aí, quem é homem e branco fica lá em cima, já uma mulher, preta, que mora na periferia fica lá embaixo nessa escala que impõe diversas dificuldades para que essas pessoas sejam vistas.

    Carolina não só viveu essa realidade, ela se indignou com ela e resolveu contar. Isso porque, tinha uma arma muito mais barulhenta e potente que qualquer calibre que só se presta para calar vozes. Assim, fez de seu lápis megafone e falou para a sociedade sobre sua realidade, ainda que tenha tentado ser calada.

    Por todos esses motivos, fica claro que a Tijuca acertou muito em seu enredo. É necessário homenagear a coragem de uma mulher que nunca se calou diante de sua situação. Que a força de Carolina Maria de Jesus se espalhe para outras mulheres de fibra como ela, pois serão capazes de mudar esse país.

  • 6ª Escola a Desfilar: G.R.E.S. Beija-Flor de Nilópolis – Bembé

    “Deixa girar, que a rua virou Bembé/ Deixa girar que a rua virou Bembé”. Começo a escrever esse texto escutando a versão cantada pelo lendário Neguinho da Beija-Flor. Será que o primeiro ano sem ele vai gerar saudades? Pergunta retórica, não é? Fato é que seus substitutos também parecem estar em total condição de levar o bonito samba da escola na avenida. Agora, vocês sabem o que é o Bembé de Mercado?

    De acordo com o próprio enredo trata-se do “maior candomblé do mundo-nascido da transgressão de João de Obá, mantido na resistência do Pai Tidu, acalentado na doçura de Mãe Lidia, insistido na inquietude de Pai Pote e preservado na firmeza de sua Iyá Egbé e de seus detentores.”

    Acho importante citar todas essas figuras. Também o é falar um pouco sobre a história dessa festa que nasceu em Santo Amaro, no ano de 1889, por meio da ocupação de João de Obá para realizar uma grande festa de candomblé que durou três dias. Desde então, todo 13 de maio, a festa se repete no Largo do Xeréu e reúne quase uma centena de casas dedicadas a essa religião.

    É essa festa carregada de representatividade e de poder ancestral que a Beija-Flor pretende reproduzir na Sapucai. Quando falo em reprodução, o faço em sentido literal. Isso porque, tanto o samba-enredo quanto o enredo indicam que a escola pretende fazer um grande Xirê na avenida.

    Conseguem imaginar a força que esse desfile promete trazer para a avenida? A Beija-Flor, atual campeã do carnaval carioca, vem forte com um desfile que parece prometer colocá-la como forte candidata ao bicampeonato. Como um amante do carnaval posso dizer que esse enredo causou grande impacto e
    uma promessa de muitos arrepios ao longo do desfile. As forças ancestrais agradecem a escola por trazer ao conhecimento do Brasil que não conhecia uma festa tão cercada de representatividade e brasilidade.

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