Sobre viver em tempos bárbaros

  • Sobre viver em tempos bárbaros

    Acesso a internet e me deparo com o genocídio em Gaza, o ataque de Israel ao Irã, outra demonstração do exibicionismo doentio dos EUA e o descaso da Indonésia com a nossa menina brasileira. Respiro um ar rarefeito. Falta saliva para deglutir todo esse horror. Penso no sofrimento atroz pelo qual ninguém deveria passar para viver ou morrer… um misto de tristeza, temor e desesperança me atravessa. E, como se tudo isso fosse pouco, me deparo com o vídeo de um homem russo atirando, violentamente, no chão, uma criança indefesa de apenas um ano enquanto sua mãe, grávida, busca um carrinho e luta pelo direito de fugir da guerra.

    Paraliso diante da minha impotência ou covardia para reagir a isso, promover resistência, criar barreira. Engasgo de angústia. 

    O único movimento ético e digno que consigo executar é o de não acreditar que a desgraça do outro é a prova da minha sorte, é o motivo pelo qual devo agradecer minha benesse. Não, esses acontecimentos gritam na minha cara a dimensão da nossa infelicidade, do nosso fracasso na construção de um ambiente promotor de bem-estar. Estamos todos muito mal.

    Sinto-me atirada na arena. Abriram as celas, saíram todos os leões famintos. Mas não sei lutar. Tenho tonteira, náusea, medo, cansaço. Na cabeça, uma dúvida martela o pensamento sem dó: me afastar das redes, das notícias, dos jornais é uma atitude covarde e egoísta ou um ato protetivo da saúde mental? 

    Leio sobre o montanhista voluntário que socorreu a brasileira. Um sorriso pequeno brilha nos lábios. Ele não sabe, mas, junto com o corpo inerte da nossa menina, ele trouxe, do fundo daquele vulcão, uma outra mulher combalida, a esperança na humanidade. 

    Obrigada, Agam Rinjani, por iluminar a escuridão bárbara em que vivemos com uma chama trêmula de bondade. 

    A dúvida ainda martela forte no meu pensamento. 

    E se o preço da minha paz for a alienação, o exílio na minha pequenez? E se a alienação me envergonhar de tamanha covardia e me roubar a paz? 

    Talvez esse tempo não seja definitivo, mas cicatrizante. 

    Talvez eu só precise parar por uns minutos para retomar o fôlego antes de seguir rumo ao cume feito a Juliana.

    Quem sabe meu guia e meu grupo sejam capazes de me esperar…

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