Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida.
Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez.
Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia.
Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse.
Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas.
Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir.
Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção.
Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas.
Tem dias que até faço piada na rua.
Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de feras e voz alheia, prestidigitadores que fazem a culpa se tornar inocência em menos de um piscar de olhos. E os palhaços? Esses somo nós.