status quo

  • Super pobres

    Muito se fala dos super ricos, grupinho reduzido de privilegiados que amealham fortunas tão descomunais que fazem o Tio Patinhas parecer um pobretão.

    Erguem mansões em localidades diversas com dezenas de cômodos em mármore maciço e um séquito enorme de serviçais, bunkers antinucleares, coleções de carros blindados, iates, jatinhos, joias e objetos de luxo. Possuem zoológicos particulares com animais exóticos (em extinção). Constroem banheiras de ouro e privadas cravejada de brilhantes para dar um tratamento vip até à saída de seu cocô.

    Investem em terras, fazendas, gado, ilhas paradisíacas, fundos exclusivos, startups, e outros ativos cujos rendimentos e valorização lhes permitem fazer o seu patrimônio crescer indefinidamente. Tal qual seu ego. E sua ambição. Sonegando impostos para perpetuar a riqueza em sua integralidade.

    Não sabendo o que fazer com tanta grana acumulada, promovem festanças nababescas em hotéis 6 estrelas com shows de artistas super stars (super ricos também) e organizam turismo espacial de lazer para outros super ricos gastarem seu tempo em frivolidades inacessíveis aos demais mortais.

    Não bastasse, fazem lobby sobre os governantes para direcionar os rumos das políticas para atender a seus propósitos particulares de maneira que os destinos da humanidade a eles se subjuguem.

    Não se importam também em rapinar os recursos da Terra em benefício próprio, ameaçando a existência de todos os seres vivos, inclusive deles próprios. Colocam os bens materiais acima de tudo inclusive da vida.

    Na outra ponta, na base da pirâmide social, uma imensa maioria de indivíduos padece de fome e sede e luta pelas migalhas que os permitam sobreviver: são os super pobres.

    Para um visitante do espaço que descesse à Terra, tamanha desigualdade seria inconcebível. Qual a lógica em os terráqueos aceitar passivamente uma sociedade em que muito poucos têm bilhões enquanto bilhões têm muito pouco?

    A chave para a compreensão desse quadro bizarro é que os super ricos contam paradoxalmente com a condescendência dos super pobres para manter o status quo.

    Os super pobres não se revoltam, nem se organizam para pressionar por mudanças que melhorem sua situação relativa. Aceitam humildemente a superexploração a que são submetidos. São também super pobres de espírito.

    Opostamente ao que imaginara Marx em sua ‘luta de classes’, esses falsos ‘coitadinhos’ enxergam como seus reais inimigos não os abastados donos do capital, mas os demais pobres a que consideram fracassados e os imaginam como concorrentes na batalha para a ascensão social. Se não obtiveram sucesso nessa empreitada utópica para ‘subir na vida’ é por não terem se esforçado suficientemente. E passam a trabalhar dobrado, tornando-se além de super pobres, super esgotados.

    Acatam a ideia de que aqueles que se encontram em situação aflitiva foi por desígnios de um Deus que premia materialmente apenas quem é bem sucedido como empreendedor.

    Admiram os bem aquinhoados que, graças a seus esforços, teriam alcançado a bem aventurança traduzida por uma vida de luxúria, ao gosto do Cristo corporativo que dirige a humanidade não de um trono celestial, mas acomodado numa cadeira ergonômica de couro num smart office com ar condicionado. Que está mais para CEO do que para o céu.

    São os super pobres que abastecem com seu dízimo os pastores charlatões. São eles que elegem com seu voto os políticos corruptos e que enriquecem com sua atenção influencers picaretas. São eles que seguem os mandamentos dos impostores midiáticos que os convencem sem questionamento de lorotas persuasivas.

    Os super pobres menosprezam a educação que poderia fazê-los compreender a exploração e ignoram a palavra daqueles que os exortam a entender a dura realidade. Preferem viver na ilusão e se apegar à religião que lhes ensina o conformismo e a submissão.

    Sim, os super ricos podem continuar a se esbaldar à vontade. Contarão sempre com a benevolência dos super pobres.

  • O direito dos velhos

    É comum em saites de divertimento ou em redes sociais a exposição de pessoas quando estão novas e quando envelhecem. De forma por vezes maliciosa, os redatores expõem as fotos com legendas que enfatizam o contraste entre o rosto de ontem e o de hoje. O alvo é quase sempre alguém que pela beleza ganhou fama, admiração, suspiros apaixonados dos fãs. Como um contraste a isso, o autor das postagens parece lembrar: “Quem te viu, quem te vê”.

    O que está na base dessa atitude, mais do que a disposição de ferir ou depreciar figuras específicas, é um generalizado desprezo pela velhice. Embora se viva mais hoje, e os idosos ou mesmo os velhos cada vez mais frequentem locais como clubes e academias, há por parte de muita gente uma disposição hostil para com eles.

    Essa hostilização faz pensar, por antítese, no chamado “Poder Jovem”, expressão associada ao livro de Arthur José Poerner que exalta a disposição política dos estudantes brasileiros durante o período da ditadura militar (1964-1985). O livro de Poerner “narrava a história do movimento estudantil e sua atuação em momentos cruciais da história do País, ressaltando o potencial dos jovens como agentes de transformação social e política.”

    A obra destaca o idealismo da juventude e a sua vontade de contestar o status quo então vigente, marcado pela repressão aos movimentos sociais e pelo cerceamento de liberdades fundamentais ao indivíduo. Disso veio uma espécie de entronização dos jovens, considerados a partir daí como os principais agentes de transformação da sociedade. Chegou-se a dizer que não se devia confiar em ninguém com mais de 30 anos, como se a idade fosse um referencial de caráter.

    No poema “Velhice”, Olavo Bilac parece antecipar o que hoje é corriqueiro nas redes sociais. Sem meias palavras, escreve: “A velhice é cousa vil!/ Faz a alma informe e feia./ Desfaz a antiga ideia/ Da formosura juvenil.” São versos que pintam de forma nostálgica e sombria o envelhecimento. E tanto mais deprimem, quanto mais ressaltam a feiura da velhice em contraposição à beleza da juventude.

    Será mesmo a velhice uma “coisa vil”?  O que haveria de desprezível nas pessoas que estão nesse período da vida? Elas não têm mais a beleza da juventude e padecem de achaques que as tornam por vezes impacientes e difíceis de conviver. Por outro lado, têm a experiência, que segundo Sartre é mesmo um direito dos velhos.

    O parnasiano carregou nas tintas, sem dúvida. Há em favor dele, digamos assim, a ressalva que a esses versos faz Rubem Braga numa de suas antológicas crônicas. Lembra o cronista que, de fato, num poema Bilac considera “vil” a velhice — mas, num dos seus textos em prosa, afirma desejar “envelhecer sorrindo”. Tal expressão, longe de indicar ressentimento ou desconforto, sugere uma alegre resignação com a passagem do tempo.

    Talvez o verbo “sorrir” no verso bilaquiano indique mais do que a aceitação do inevitável ciclo vital. Indique também a percepção, trazida pela maturidade, do que a vida realmente é. E, sobretudo, traduza com algum ceticismo a desconfiança nos que se arrogam ter a verdade e deter o poder — tenha este o rótulo que tiver.

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