Tem coisas nesta vida que a gente não esquece

  • Tem coisas nesta vida que a gente não esquece

    Minha mulher, Maria da Graça, há dez anos padece de esquecimento. Seus olhos enxergam, mas não veem e, quando veem, não reconhecem o que viram, como se tudo que se apresentasse na frente deles fosse novidade: o vaso azul de porcelana, o relógio perto da janela, o caminho de crochê na mesa de jantar, a cortina de veludo — velharias cujo registro a memória já apagou. Há muito tempo a casa está vazia de sua voz e seu abecedário. Nos últimos meses ela tem se dedicado à atividade de caminhar do quarto para a cozinha, passando pelo corredor e, de novo, da cozinha para o quarto, até que suas pernas lhe digam “Basta!” A cada dia ela aguenta esse passeio mais vezes e suas panturrilhas estão bem fortalecidas pelo esforço. Gostaria de saber se algum maratonista faz tantos quilômetros por dia como minha mulher.

    No início, tive pena vendo o sacrifício dela para vencer cada etapa da caminhada, mas agora vejo sua atividade como algo bom. Penso: “Que maravilhosa sorte uma pessoa tem de se esquecer de tudo, que felicidade é dar um passo sem ter a mais remota ideia de quantos já dera anteriormente e de quantos será capaz de dar no futuro!”

    Hoje me sentei no sofá disposto a também esquecer algumas coisas, talvez pelo enorme desejo que tenho de voltar a fazer algo em conjunto com minha mulher. Começo por esquecer sua doença, por exemplo, e vejo seu passeio como aquilo que é — um passeio apenas, que começa no quarto e termina na cozinha, e depois recomeça na cozinha para finalmente terminar no quarto. Pode ser que, num momento raro, ela se detenha no corredor, olhe para mim e se aproxime para, ao meu lado no sofá, ver um pouco de televisão.

    Também procuro esquecer quem é essa mulher com quem divido a casa. Fico atento ao toc-toc do andador na madeira do assoalho. Quando ela aparece no corredor, olho-a e vejo-a como se fosse a primeira vez:“Que mulher linda! Acho que vou me apaixonar”. Ela me olha, nos olhamos, e ela me fala, depois de anos de silêncio: “João da Alegria, João, meu querido, tem coisas nesta vida que a gente não esquece.” Eu a ajudo a se sentar e ela põe sua mão debaixo da minha. Juntos olhamos para a tela à nossa frente.

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