Tem gente que é poeta e não sabe

  • Tem gente que é poeta e não sabe

    Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco.

    Tarde tranquila.

    O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro.

    Tem gente que cola chiclete no banco.

    Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente. Elas conversam e eu presto atenção em cada gesto, em cada risada. De repente, uma delas solta uma frase mais ou menos assim:

    — Sabe o meu namorado? Quando ele começou a namorar comigo, ele não era bonito. Depois, fui conversando com ele e hoje ele é bonito.

    Amigos, tem frases que me pegam de jeito. Ele não era bonito. Era comum, ordinário, anônimo.

    Hoje, depois dela, ele é bonito.

    Ele não era bonito, mas depois de amar e ser amado, ficou. Ela não buscou um homem bonito o bastante para fazer inveja às amigas. Ela gostou de um, namorou com ele e o fez ficar bonito. Abri minha mochila. Peguei a caderneta. Peguei a caneta Bic.

    Anotei: “Tem gente que é poeta e nem sabe disso.”

    Fiquei pensando em quantas sacadas geniais a gente ouve que não têm nada a ver com livros. Gente que nunca pisou em museu, que não lê literatura, que não vai ao cinema, que não é leitora. Então quer dizer que a poesia está fora dos livros?

    Não perguntei o nome da menina, nem o da amiga dela. Mas, de certa forma, jamais a esqueceria. A frase pulsa dentro de mim até hoje. Acho-a excelente, muito bonita.

    Precisava escrevê-la para que não se perdesse por aí.

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