O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas.
Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha.
Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeiro, a moça do balcão me atendeu sorrindo:
— Posso ajudar?
— Tem empadinha de camarão?
— Que pena, de camarão, a gente não faz.
— Nem umazinha só?
Aceitei, a contragosto, uma de quatro queijos, tomei um café. “A tarde seria azul, não houvesse tantos desejos”, como dizia Drummond. Viver é desejar. E, naquele instante, o que eu mais queria — sem dúvida — era sentir a suculenta se desmanchando na boca, derretendo, única, gloriosa.
E não importava se estivesse murcha, fria, de ontem, desde que fosse ela, minha obsessão salgada.
Perguntei num boteco pobre, esquina com a Rua dos Goitacazes, havia quatro empadinhas frias no balcão, olhando pra mim com cara de segunda-feira.
— Boa tarde.
— Posso ajudar, amigo?
— Essa aí… tem empada de camarão?
— Temos bacon, frango, alho-poró.
— Não quero outra, só a de camarão.
— É de hoje de manhã, pode ser?
— Deixa pra outro dia — respondi.
Lembrei de Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.” E, naquele dia, a vida, Deus, ou o próprio destino, nenhum deles queria que eu encontrasse o tesouro que eu procurava.
Belo Horizonte é uma cidade adorável, mas cheia de caprichos, imagine: no meio de tanta empada, não ter justamente a joia de camarão.
Viver também é aprender a desejar o possível. Talvez, na falta de uma paixão arrebatadora — que é a tentação dourada — eu devesse, quem sabe, dar uma chance às de quatro queijos, frango com catupiri, ou até à de jiló, famosa lá no Ponto da Empada, no Mercado Central.
Mas não adianta, meu coração não sabe desejar o possível. Poderia até me contentar com outros sabores, eleger uma predileção secundária, mas, mais cedo ou mais tarde, eu acharia a pequena maravilha, e, quando achasse, comeria com calma — e, como já havia decidido, tomaria junto um café fumegante.
Nessas horas, quando saio com minhas obsessões gustativas, prefiro ir só. Se chamasse alguém, além de enfrentar esse complô injusto da cidade contra minha delícia, ainda teria que aguentar um amigo reclamando atrás de mim. Tudo, menos isso.
Fui a um dos destinos mais famosos de BH: o Ponto da Empada, dentro do Mercado Central. Entrei pela Avenida Amazonas, fui percorrendo os corredores — aquele labirinto de cheiros, vozes e panelas — até que, de repente, para me distrair da saga, uma moça me ofereceu um copinho de suco de milho verde.
O suco estava tão bom, mas tão bom, que acalmou minha alma um pouco. Deu até pena — verdade, pena — de quem não mora em Belo Horizonte, e não tem um Mercado Central por perto.
Cheguei ao Ponto da Empada, e fiquei olhando os fregueses comendo de pé no balcão, um com café, outro com refrigerante, a maioria de olhos fechados, murmurando:
— Hummm… bom, não é?
— Ah, acho que vou levar meia dúzia.
Olhei a lista de sabores, também não tinha.
— E você, moço?
— Uma de bacalhau.
A atendente me deu, e, assim como todo mundo, eu falei:
— Hummm… bom, não é?
A empadinha derretia na boca, deslizava macia. Tomei um refrigerante. Falei pro rapaz do caixa:
— Nossa, é uma maravilha.
— Eu sou suspeito pra falar — respondeu, rindo.
Pronto. A de bacalhau era minha favorita. Se pudesse, comeria todos os dias, com café, com suco de milho verde, sozinho, acompanhado, tanto faz.
Fui colocar uma encomenda nos Correios e, ao parar no ponto de ônibus, vi uma lanchonete aberta, na estufa, uma fartura de empadinhas douradas.
Entrei, olhei pra um lado, olhei pro outro, disfarcei e… olha lá. Olha lá! Quem estava ali? Uma quantidade imensa de empadas de camarão. Ali mesmo, na Rua Goiás, em frente ao ponto de ônibus.
— Me vê uma empada de camarão aí.
— Com catupiry ou sem?
— Sem.
— Mais alguma coisa?
— Aquele café quentinho, por favor.
Justo quando eu não esperava mais. Aí, me lembrei de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido.”