Terça-feira

  • 10ª Escola a Desfilar: Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou a África

    “Meus sonhos e tambores, tintas e prazeres/ Pra você, Heitor”. É dessa forma que o potentíssimo refrão da Vila Isabel promete dedicar sua passagem pela Sapucaí ao seu homenageado. Segundo o próprio nome do enredo já fala “um sambista que sonhou a África”. Vocês sabem de quem se trata?

    A Escola do Morro dos Macacos homenageará o grande Heitor dos Prazeres. “Homem do povo” e multiartista que tem em seu currículo único os dons de ser sambista, compositor, pintor, inventor, boêmio e muitas outras coisas que a vida permitiu a ele ser. Sem dúvidas, o escolhido é uma figura que faz parte da história do Rio de Janeiro.

    Aliás, em sua vida viveu importantes acontecimentos da cidade, como as festas que Tia Ciata realizava em sua casa onde da macumba foi surgindo esse ritmo mágico que hoje se convenciona chamar de samba. Lá, ao lado de Pixinguinha tornou-se tocador de atabaques, um Ogã de Xangô e Oxum.

    Criado nesse ambiente, ele fez sua vida no samba, tornando-se “tocador” e aprendeu sozinho a tocar cavaco. Por viver nos dois ambientes, Heitor é uma figura que possui o mais alto gabarito para afirmar que “a origem do samba é a macumba”. Aos que ouvem, cabe não só respeitar, como também concordar com suas afirmações.

    Viveu o surgimento das escolas de samba, ainda na Praça XI, com outros grandes mestres, como o genial Cartola. Não só viveu como fez tudo isso acontecer.

    Por tudo isso, foi escolhido para representar o Brasil no Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dakar. Foi, mas não foi sozinho, porque o acompanharam nomes como Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Mestre Pastinha e outros.

    Tudo isso, permite a Vila caracterizá-lo como “Apaixonado Pierrot, Afro-rei”. Sim, um rei que será merecidamente saudado pela Sapucaí no último dia de desfiles do grupo especial. O samba magnifico dá a Vila a responsabilidade de ser a grande favorita. Será que vem título aí? Pode ser, a única certeza é que essa homenagem é mais do que merecida. Salve Heitor dos Prazeres!

  • Feliz Natal

    Sempre achei que, embora viver com gente dê trabalho, viver sozinho simplesmente não funciona. Somos seres de comunicação. Precisamos de gente por perto — pais, mães, amigos, irmãos, colegas de trabalho, professores, clientes, fregueses, marido, mulher, namorado, crush — Todos nós. Precisamos. De gente.

    Mesmo quando temos dinheiro, mesmo quando achamos que já resolvemos tudo. Viver sozinho? Não dá. Talvez por isso a vida nos obrigue a nos renovar o tempo todo — a repensar atitudes —. Porque, convenhamos, todo mundo é um pouco egoísta, de vez em quando. Ninguém acorda todos os dias disposto a dar bom dia a um desconhecido, muito menos numa segunda-feira.

    A vida é feita de pequenas provas de resistência: chefes que tiram nossa paciência; trânsito engarrafado, quando estamos atrasados; telefone que resolve dar problema justo no dia em que guarda todas as nossas senhas e dados bancários. A vida testa e, quando estamos no limite, qualquer um pode ser grosseiro. Ainda assim, é reconfortante quando percebemos que dá para tentar de novo, se renovar.

    Renovar-se é um exercício diário. Sem glamour. Como não somos perfeitos, passamos a vida tentando ser pais melhores; filhos melhores; parceiros melhores. Às vezes, passamos anos tentando aprender algo básico: ser amigo. Cuidar das amizades dá trabalho — e dá trabalho para sempre.

    Pensei nisso esta semana, ao assistir a “O Natal dos Muppets”. Um filme americano — bonito, delicado —. A história acompanha Ebenezer Scrooge, um homem que mede tudo em dinheiro; não se importa em demitir pessoas nem em cobrar dívidas altas, mesmo no Natal. Um sujeito que acredita não precisar de ninguém.

    E é impossível não se reconhecer um pouco nele. No corre-corre do cotidiano, a gente se ocupa demais em ganhar dinheiro, comprar coisas, acumular. O filme, no entanto, lembra algo simples: é possível ser feliz com pouco. E, quando isso acontece, a gente ama melhor quem está ao nosso lado. A gente se renova, um pouco a cada dia.

    Talvez esse seja o verdadeiro sentido do Natal. Não apenas a troca de presentes, a ceia farta ou os abraços. Há quem trabalhe na noite de Natal, há quem sinta a falta de quem já se foi. O espírito natalino tem mais a ver com sair um pouco de si e enxergar o outro. Com se renovar.

    Gostando ou não da data comemorativa, aproveito para agradecer aos leitores do Crônicas Cariocas por um ano generoso. Esta casa me acolheu muito bem. Desejo a todos os leitores, amigos e colegas cronistas um Feliz Natal, cada um celebrando à sua maneira.

  • Sobre “A melhor mãe do mundo”

    Nos últimos dias, tenho percebido nas redes sociais a grande repercussão que o filme “O Filho de mil homens” tem tido. Trata-se, realmente, de uma obra muito interessante e sobre ele quero comentar após ter lido o livro que o originou, de Walter Hugo Mãe. No entanto, gostaria de usar esse espaço para falar sobre outro que foi cotado para ser indicado ao Oscar e, também, está disponível na Netflix. Ou seja, “A melhor mãe do mundo”, de Anna Muylaerte.

    Ele retrata uma série de acontecimentos na vida de uma catadora de lixo chamada Gal (Shirley Cruz). Nele, a personagem é obrigada a fugir da casa onde vive com seu companheiro Leandro (Seu Jorge) em razão das agressões que vinha sofrendo deste pelo consumo de álcool. Ela pega seus dois filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo), e inicia uma grande epopeia pela cidade de São Paulo.

    Nesse sentido, me chama atenção o fato de o filme não estar sendo tão comentado quanto deveria, pois diferentemente de atores famosos, o protagonismo fica com aqueles que ainda não são muito conhecidos. Entretanto, esse fato não tira o mérito das atuações, Shirley Cruz entrega uma excelente atuação no potente papel que lhe foi conferido. Os intérpretes de seus filhos também estão muito bem.

    Um dos fatores que merece destaque é a construção dos personagens. Isso porque, diante de uma atmosfera de miséria e precarização, não seria um crime se eles não dessem nenhum espaço para a felicidade. No entanto, a história demonstra um espírito brasileiro que, mesmo diante de sérias dificuldades, não renuncia às pequenas gigantes coisas que os mantém vivos, ou seja, seu churrasco, cerveja ou time de futebol, pois elas são essenciais para viver e sobreviver. Como diria o grande filósofo Zeca Pagodinho “Deixa a vida me levar”.

    Gal é, então, uma sobrevivente que utiliza a felicidade e a fantasia como recurso para a fuga de uma realidade cruel. Esse fator me fez associar o filme ao clássico de Roberto Benigni, A vida é bela. Eu diria que “A melhor mãe do mundo” é a versão brasileira desse filme com todas as adaptações que a realidade do país exige. A cena do banho na Fonte dos Desejos, especialmente, me levou a essa comparação.

    Vale, ainda, ressaltar a coragem de Anna Muylaerte ao trazer à tona a importância das ocupações diante da tragédia causada pela especulação imobiliária no centro de São Paulo. Embora eu nunca tenha morado e conheça pouco a cidade, sei que o tema é amplamente discutido e nele são evidenciadas injustiças sociais nuas e cruas do sistema capitalista. Por isso, falar sobre movimentos sociais, em um momento em que o fascismo faz coro para incriminá-los, é essencial.

    Por fim, destaco que esse texto não se trata de uma crítica ao protagonismo de “O filho de mil homens” pois esse é um filme que trata de importantes temas e merece ser assistido. No entanto, precisamos começar a olhar com carinho para a realidade dos esquecidos e marginalizados por nosso sistema e “A melhor mãe do mundo” é importante pois ajuda a fazê-lo.

  • Seu Paventino

    Seu Paventino, um idoso aposentado e viúvo, não gosta de ficar em casa. Por isso, seu maior passatempo é passar os dias no boteco do João, na esquina de sua casa. Lá ele é figura tão presente que já faz parte do folclore local.

    O maior divertimento de Paventino é abordar novos clientes de João e fazer uma pergunta bem clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    Esse senhor possui um ritual próprio. Sai de sua casa assim que o boteco abre pela manhã, vai até a banquinha do Seu Altair comprar o jornal do dia, para depois ir bater ponto na sua segunda morada. Lá, ele coloca o jornal no balcão, pede um chopp gelado e fica a espreita. Quando percebe a entrada de alguém novo, lá vai ele fazer sua pergunta. Se a pessoa responde que foi a galinha, ele pergunta: e quem foi que chocou o ovo? Se responde o contrário, de onde veio esse ovo? Ou seja, independente da resposta, a diversão de Paventino estaria garantida.

    Um dos seus únicos desgostos era não conseguir fazer sua piada com os clientes costumeiros do bar. Como todos eles já conheciam muito bem seu costume, ninguém dava muita bola. Restava esperar por novos alvos.

    Um certo dia, ele fez exatamente tudo igual. Já deviam ser quase três horas da tarde e entrou no bar um senhor de cabelo bem branco, com uma camisa florida, bermudão e papete de couro. Ele logo pediu um chopp. Paventino, então, se aproximou, puxou assunto e indagou se o outro idoso seria capaz de responder uma pergunta. Ele respondeu positivamente. Esse era o momento de consolidar sua alegria e então perguntou:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    O senhor parou por poucos segundos (que soaram como horas) e respondeu:

    Os ovos, que são estruturas reprodutivas amniotas, existiam há milhões de anos antes da galinha. O primeiro indivíduo da espécie Gallus, o gallus domesticus, chocou de um ovo posto por um animal de uma espécie ligeiramente diferente.

    Dessa resposta, surgiu um silêncio apavorante no Boteco de João. Todos que ali estavam pareciam olhar para aqueles dois senhores que ali conversavam. Na realidade, o olhar era voltado para o novo cliente que ousou dar aquela resposta a Paventino. Esse, por sua vez, ficou branco, mais branco do que costumava ser e durante um tempo ficou sem resposta. No entanto, não poderia deixar aquilo barato. Sentindo vontade de dar um grande brado retumbante, ele decidiu ser um pouco mais elegante e só falou:

    — Pombas, meu camarada, ciência? Não vem com essa que não quero saber disso não.

    Paventino, então, levantou e foi se sentar em uma outra mesa onde acabava de chegar ao bar um jovem que, provavelmente, veio se refugiar daquele calor infernal que fazia na cidade naqueles dias. Então puxou assunto e fez a pergunta clássica:

    — Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

    E assim se passava mais um dia na vizinhança e no Boteco do João.

  • A guerra íntima de todo leitor

    Quando ia escrever seus livros, o escritor Moacyr Scliar aproveitava, como dizia nas entrevistas, os intervalos da vida: a poltrona de um avião, a palestra do fulano, o aeroporto — qualquer brecha que, entre um compromisso e outro, a rotina oferecesse.

    Para nós, leitores, não é diferente. Lemos na sala de espera do médico, no sacolejo de uma viagem de ônibus, no aeroporto, esperando um amigo no shopping. Quem lê há muito tempo sabe bem o que é isso. Tenho amigos que, apenas para me causar inveja, juram que não se incomodam com barulho; eu, ao contrário, acho que o silêncio virou um artigo de luxo — e pagaria qualquer coisa por ele.

    Como grande parte dos leitores, tudo o que quero é um refúgio. Que, como já disse, anda cada vez mais raro.

    Se abro um livro em casa, num domingo à tarde, o vizinho resolve comemorar o aniversário da esposa, com direito a karaokê, música alta (quando estou lendo, odeio qualquer tipo de música; qualquer uma, até as minhas preferidas) e aquelas palmas estrondosas. Tento ser tolerante. Tento.

    Aí aproveito a sala de espera da dentista, abro o livro, começo a minha viagem… mas alguém liga o WhatsApp, manda e recebe áudios, depois desliza o dedo pelo feed do Instagram. Lá se vai o meu silêncio outra vez.

    Outro dia, no parque, procurei um lugar com sombra, longe dos casais, das crianças, dos grupos com violão. De repente, um sujeito para perto de mim, diz “bom dia”, começa a se alongar e — adivinhem — está acompanhado do seu inseparável radinho de pilha.

    Não sei se você reparou, mas, atualmente, ninguém faz nada em silêncio: academia, caminhada, natação, estudos, dirigir. Só resta ao leitor a sua luta diária por um pouco de sossego.

    Outro dia, sentado num banco bem no centro da cidade, minha viagem pela imaginação era frequentemente interrompida pelo flanelinha: “Aí, gente boa!”, “Aqui, gente boa!”.

    Abro o livro, fecho. Torno a abrir, fecho de novo. E assim, sem sucesso, vou tentando.

    Tento a sala de espera do teatro, do dentista, a praça, a biblioteca, o pronto-socorro, as gôndolas do supermercado, um lugar debaixo da árvore do estacionamento. Às vezes — como já me aconteceu — vou ler em frente aos hospitais, onde não se pode buzinar, falar alto ou fazer festa.

    Exageros à parte, é maravilhoso quando, em meio a este mundo tão barulhento, encontro um lugar quieto e posso saborear, finalmente, o livro. Só a imaginação me ajuda a suportar a vida. Tudo o que peço é que me deixem em paz.

  • Empadinhas de camarão

    O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas.

    Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha.

    Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeiro, a moça do balcão me atendeu sorrindo:

    — Posso ajudar?
    — Tem empadinha de camarão?
    — Que pena, de camarão, a gente não faz.
    — Nem umazinha só?

    Aceitei, a contragosto, uma de quatro queijos, tomei um café. “A tarde seria azul, não houvesse tantos desejos”, como dizia Drummond. Viver é desejar. E, naquele instante, o que eu mais queria — sem dúvida — era sentir a suculenta se desmanchando na boca, derretendo, única, gloriosa.

    E não importava se estivesse murcha, fria, de ontem, desde que fosse ela, minha obsessão salgada.

    Perguntei num boteco pobre, esquina com a Rua dos Goitacazes, havia quatro empadinhas frias no balcão, olhando pra mim com cara de segunda-feira.

    — Boa tarde.
    — Posso ajudar, amigo?
    — Essa aí… tem empada de camarão?
    — Temos bacon, frango, alho-poró.
    — Não quero outra, só a de camarão.
    — É de hoje de manhã, pode ser?
    — Deixa pra outro dia 
    — respondi.

    Lembrei de Leminski: “Não discuto com o destino, o que pintar, eu assino.” E, naquele dia, a vida, Deus, ou o próprio destino, nenhum deles queria que eu encontrasse o tesouro que eu procurava.

    Belo Horizonte é uma cidade adorável, mas cheia de caprichos, imagine: no meio de tanta empada, não ter justamente a joia de camarão.

    Viver também é aprender a desejar o possível. Talvez, na falta de uma paixão arrebatadora — que é a tentação dourada — eu devesse, quem sabe, dar uma chance às de quatro queijos, frango com catupiri, ou até à de jiló, famosa lá no Ponto da Empada, no Mercado Central.

    Mas não adianta, meu coração não sabe desejar o possível. Poderia até me contentar com outros sabores, eleger uma predileção secundária, mas, mais cedo ou mais tarde, eu acharia a pequena maravilha, e, quando achasse, comeria com calma — e, como já havia decidido, tomaria junto um café fumegante.

    Nessas horas, quando saio com minhas obsessões gustativas, prefiro ir só. Se chamasse alguém, além de enfrentar esse complô injusto da cidade contra minha delícia, ainda teria que aguentar um amigo reclamando atrás de mim. Tudo, menos isso.

    Fui a um dos destinos mais famosos de BH: o Ponto da Empada, dentro do Mercado Central. Entrei pela Avenida Amazonas, fui percorrendo os corredores — aquele labirinto de cheiros, vozes e panelas — até que, de repente, para me distrair da saga, uma moça me ofereceu um copinho de suco de milho verde.

    O suco estava tão bom, mas tão bom, que acalmou minha alma um pouco. Deu até pena — verdade, pena — de quem não mora em Belo Horizonte, e não tem um Mercado Central por perto.

    Cheguei ao Ponto da Empada, e fiquei olhando os fregueses comendo de pé no balcão, um com café, outro com refrigerante, a maioria de olhos fechados, murmurando:

    — Hummm… bom, não é?
    — Ah, acho que vou levar meia dúzia.

    Olhei a lista de sabores, também não tinha.

    — E você, moço?
    — Uma de bacalhau.

    A atendente me deu, e, assim como todo mundo, eu falei:

    — Hummm… bom, não é?

    A empadinha derretia na boca, deslizava macia. Tomei um refrigerante. Falei pro rapaz do caixa:

    — Nossa, é uma maravilha.
    — Eu sou suspeito pra falar
    — respondeu, rindo.

    Pronto. A de bacalhau era minha favorita. Se pudesse, comeria todos os dias, com café, com suco de milho verde, sozinho, acompanhado, tanto faz.

    Fui colocar uma encomenda nos Correios e, ao parar no ponto de ônibus, vi uma lanchonete aberta, na estufa, uma fartura de empadinhas douradas.

    Entrei, olhei pra um lado, olhei pro outro, disfarcei e… olha lá. Olha lá! Quem estava ali? Uma quantidade imensa de empadas de camarão. Ali mesmo, na Rua Goiás, em frente ao ponto de ônibus.

    — Me vê uma empada de camarão aí.
    — Com catupiry ou sem?
    — Sem.
    — Mais alguma coisa?
    — Aquele café quentinho, por favor.

    Justo quando eu não esperava mais. Aí, me lembrei de Guimarães Rosa: “A felicidade se acha é em horinhas de descuido.”

  • Fala, Memória! Belchior Vive!

    Ao lembrar, agorinha, da troca de roupa e mudança para outra cidade do nosso “Bigode” cearense, esse que não cantava tanto quanto aquele outro que cantava, o Bievenido Granda do Perfume de gardênia, no mesmo ano em que perdemos também os ótimos Luiz Melodia e Vander Lee, a porteira da memória foi aberta.

    Agora, com a fazenda de porteira aberta, casa destelhada e também de janelas abertas, lá fui eu de volta para os anos… 90 (?), na API, nossa ex-Associação Paraibana de Imprensa, hoje transformada em um self service ou coisa que o valha, encontrar-me com o excelente compositor de Alucinação e alucinações outras.

    Foi lá, ainda passeando pelas “Coisas do Momento”, vizinho da “Letra Lúdica” do excelente Hildeberto Barbosa Filho, amigo de priscas eras, no jornal do mesmo nome (O Momento), fundado e dirigido pelo saudoso Jório Machado, editado na época pelos saudosos Oduvaldo Batista e Maria José Limeira, que me encontrei pela primeira — somente o encontraria uma segunda — vez como ele, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes.

    Nesse dia, no auditório — era esse o nome? — da API, ele ainda curtindo o sucesso do seu “rapaz latino americano”, dava um relaxada coletiva. Estava presente. Assim por acaso. Tomando umas e outras naquele barzinho que respirava cultura, meio as piadas e a performance do “artista” Moura, então responsável pelo bar, subi para ver esse que foi o melhor compositor daquela safra de nordestina que invadiu o Sul maravilha, com as suas histórias “a palo seco”, onde desfilavam pavões misteriosos.

    Hoje, passados os anos, confesso que não o achava tão diferente desse compositor cheio de ideias, filosofias e letras em que se transformou. O mais culto de sua geração. Sem dúvidas. Um compositor excelente. Autor de letras que quase não cabiam nas músicas que a sua cabeça em constante revolução fabricava.

    Naquele dia, lembro-me bem, os estudantes estavam nas ruas. Não buscando mudar o mundo, mas contra o aumento no preço das passagens de ônibus. Nada mais comum. Não havia um só cara-pintada. Todos de caras limpas. Negócio seguinte: foram ver o ídolo. E, aproveitando a oportunidade, pediram o seu apoio “à causa”. Lembro-me bem. 

    O protesto tem sentido… Lutar. Lutar. Lutar. Sempre. Mas, nesse momento, estou aqui como artista…

    Como?!

    Obtemperei.

    Sei ainda que, naquele momento, o papo, o nosso papo nada tinha a ver com o fato. Ou teria?

    Não entendi. Então quer dizer que o Belchior se preocupa apenas em vender o seu produto, e acha tudo muito legal quando a estudantada sai para comprá-lo? É isso?! Agora quando essa mesma molecada precisa do seu apoio numa reivindicação justa e legal, ele diz “Nada a ver com isso eu tenho, pois sou um artista? Estás parecendo aquele outro que não tá nem aí para o que acontece aqui fora, porque o seu único desejo é estar Odara!

    E aí? O que você quer dizer com isso?

    Agora foi a vez de ele Obtemperar.

    Sou um artista, Faço arte. Quer discutir arte comigo?!

    Não queria. Não quis. Não discuti. Não havia necessidade. Sabia. Era um artista e muito bom, e fazia uma arte muito boa. Mas o papo não era por ai.

    Tentei ainda lhe dizer que seria deixar que os Estudantes brigassem por ele, enquanto ele — fiz questão de abusar do “ele” — ficava em casa “contando o seu metal.” Aquele mesmo que a Elis Regina, por livre e espontânea vontade, resolveu transformar (e cantar) em “vil metal”. Disse-lhe. Mas, entre mortos e feridos, encontramos motivos para novas canções.

    Tive ainda a oportunidade de estar outra vez, mais uma vez e apenas uma, dessa vez em São Paulo, com o compositor da bela e datada “A Palo Seco”. Aquela famosa que fala no ano de 1973 (Chile). Ou teria sido no ano de 1976 (Soweto?)?

    Fala, memória, invoco Nabokov! Bons tempos aqueles, hein?!

  • O maestro Edino Krieger passou por aqui

    Ele nasceu em Brusque (Santa Catarina), no dia 17 de março de 1928. Estão fazendo as contas? Pois é. Edino Krieger, esse mesmo que pede que “por favor” não o chame de “Édino”, com esse “E” maiúsculo acentuado, um dos maiores compositores do mundo. Pois é. O Maestro passou por aqui.1 Por acaso o convite veio em forma de Rosa também fui convidado para o mesmo aniversário em que o Maestro convidado também fora. Um encontro festivo e familiar. Ou vice e versos. Nesse dia, muito bem acompanhado, recebi do Maestro Edino uma alegre e divertida aula sobre a vida e a música. Tudo sem esquecer a minha bela e gostosa música nordestina, essa que para o Maestro é uma das mais ricas do mundo.

    — Ah, 1berto! Eu gosto muito da música de vocês! Admiro muito o Repente. As Emboladas e Cantadores de viola. Maravilhosos! As imagens poéticas que eles conseguem criar são maravilhosas! Tem mais: métricas perfeitas e versos redondos!

    O Maestro ainda contou boas histórias sobre os nossos Eleazar de Carvalho (Iguatu – CE) e José Siqueira (Conceição-PB). Sobre o primeiro, lembrou as “peças” pregadas por alunos e regidos. “Eleazar tinha uma memória fenomenal! Bastava uma leitura da peça e… estava tudo na cabeça!”. José Siqueira? “Ah, esse teve uma importância histórica na valorização do músico brasileiro! Não era muito de composição. Mas, nesse campo, – valorização – os músicos devem muito a ele”.   

    O papo com Edino, aos 89 anos ou quase isso, considerando que na próxima semana a essa idade chegará, graças a Deus, mesmo com toda a erudição musical que o mundo conhece, respeita e admira não tem nada de professoral. É todo sorriso a flor da pele. E se não bastasse, livre gargalhada espalhada entre uma história e outra.

    E a do filho Edu, versado nos “mistérios existenciais” ou coisa parecida, que lhe perguntou no dia em que fazia 68 anos, sabendo que nessa idade ele perdera o pai, se não entrava em crise pelo fato de estar fazendo exatamente a idade em que o seu “mestre da banda” trocou de roupa e se mudou para outra cidade?

    — Não tenho a idade do meu pai, seu avô, como parâmetro. Mas a da minha mãe, sua avó, que viveu por aqui quase 100 anos!

    Edino é assim. Nada de professoral nas conversas. Sempre o mesmo. Estando em festa de aniversário ou depois de uma de suas muitas apresentações por aqui e alhures. Nunca destoa. Assim, por mais que insistam em dizer que de perto ninguém é normal, o maestro Edino Krieger é normalíssimo. Não existe entre ele e o mais leigo dos fãs aquele que se sinta constrangido numa aproximação.

    Se essa sua rara qualidade por si não bastasse, simplicidade a toda prova, coisa mesmo de gênio, pessoa capaz de contar uma piada e sorrir com a piada contada como se estivesse contando a referida pela primeira vez, tem ao seu lado a companheira de mais de 40 anos, Neném, por todos assim chamada carinhosamente, que é somente sorriso e alegria. Um fato, esse perceptivo por todos, que a torna dezenas de anos mais jovem.

    Mas nada melhor que ouvir esse mestre sem nenhuma pretensão de ser engraçado. Edino não precisa.  O seu humor é tão natural quanto o seu “Canticum naturale” (1972), composto em “parceria” com os pássaros, esse fazendo coro, e os sussurros da Amazônia.  

    Sem aquele chato ar a professoral, repito, o maestro discorreu sobre a sua terra e família, e contou histórias que mereciam ser encerradas em um “capa dura”. Um homem de mil histórias vividas. E todas merecedoras de um livro somente para elas.  

    Ali, nesse dia, sábado passado, num papo entre sorrisos e suaves doses de uísque, não se encontrava o crítico de música e colunista do Jornal do Brasil (caderno B) e Tribuna da Imprensa. Mas o menino que contava – sem mesmo que fosse perguntando — sobre o porquê do seu “estranho nome”. “O Edino foi uma homenagem do meu pai a um colega de farda”.

    Em Brusque, cidade natal, não havia o que chamamos por aqui de Quartel ou departamento outro parecido. Era “Tiro de Guerra”. Instituição militar do Exército Brasileiro encarregada de formar atiradores e ou cabos de segunda categoria (reservistas) para o exército, Voces sabem. Assim, o seu pai, Aldo Krieger, foi enviado para servir (de verdade) em outra cidade. E saiu dela já como “maestro” de banda de música da cidade.

    Assim, por lá, graças a um superior hierárquico, o musico foi descoberto enquanto executava serviços gerais no quartel onde servia. Resultado: em pouco tempo era quase o “dono” da banda. Pois bem. Foi lá que conheceu o “Edino”, nome esse que mais tarde, em homenagem ao mesmo, batizou o seu musical filho.

    O papo com Edino não tem nada daquele ar professoral nem clima de erudição, Ele não posa de “professor”. Mestre? Nem pensar. Nenhuma importância se não encontra no meio um ouvinte no mesmo nível do papeador. Suas histórias são todas contadas com o humor típico de quem estar s de bem com a vida.  Sempre. Todas assimiladas por todos. Em atos rápidos e engraçados.

    Nessas historias são muitos os personagens famosos que merecíamos conhecer. Não digo gozar da amizade que esses tinham – muitos tem ainda – com o maestro. São muitos. Paulo Moura, para quem escreveu/transcreveu obras para o seu sax alto, (brasiliana?) e ele gostou tanto que “fugiu” com a partitura. Vinicius de Moraes, o poetinha de quem ainda guarda boas histórias, parceirinho seu na instigante “Fuga e antifuga, quarto lugar no Festival Internacional da Canção, do ano de 1967. Maestro Hans-Joachim Koellreutter, Claudio Santoro, Guerra-Peixe e Eunice Catunda, esse que formavam o Grupo Música Viva… Mas falar sobre o compositor, o crítico musical e o produtor cultural é correr risco de ficar pelo caminho sem mostrar toda a “genialidade” do virtuose menino que iniciou estudos de violino aos sete anos com seu pai, realizando recitais no Estado dos nove aos 14 anos.

    Depois do papo com esse “jovem” de 89 anos, isso mesmo, lucidez em cada frase e marcando essa com um humor típico de quem estar sempre de bem com a vida, não se leva a impressão de que ali estava um dos mais importantes compositores eruditos do mundo em atividade. Mas aquele colega que acabou de contar mais piada sobre o amigo Vinicius de Moraes. Esse mesmo que lamentava o fato de ser grande poeta, mas pequeno no essencial que tanto desejava: “Se houver reencarnação, acreditem, desejaria voltar como Vinicius mesmo. Só uma coisa: quero voltar com o pau um pouquinho maior”. E encerra a história numa gargalhada incontida.

    Esse sem dúvida é o maestro Edino Krieger, um exemplo acabado da simplicidade que faz dos mestres e/ou gênios merecedor de todo o nosso respeito e admiração. Edino é esse exemplo acabado.

    A minha benção, maestro!

    1. O maestro e compositor Edino Krieger morreu na noite de terça-feira, aos 94 anos, em decorrência de complicações respiratórias e renais. Ele morreu no Centro de Terapia Intensiva da Casa de Saúde São José, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. ↩︎

    *Texto publicado originalmente em 17 março de 2017, no portal Crônicas Cariocas.

  • Não basta ser leitor, é preciso parecer também

    De uns tempos pra cá, virou moda fingir-se leitor ou leitora. De fachada, claro. Nas fotos do Instagram, o rapaz ou a moça é visto ou vista lendo clássicos, carregando ecobags com estampas de livros e autores. Querem posar de inteligentes, eruditos, atraentes.

    Vejo um rapaz, na academia, com corpo escultural e músculos definidos, lendo No Caminho de Swann, de Proust. As memórias de um escritor francês que ele nem sabe quem foi.

    No metrô, uma moça carrega um exemplar de Dom Quixote, de Cervantes, primeiro volume. Cruza e descruza as pernas, mexe no cabelo, ostenta a ecobag.

    Camisetas de Clarice Lispector, bolsas com frases de Machado de Assis, fotos com uma xícara de café ao lado de As Confissões de Santo Agostinho. A leitura virou adereço.

    Mas será que fingir que lê é útil?

    Na verdade, isso não é novidade. Há muitos anos, numa crônica famosa intitulada Consulta e Receita, Paulo Mendes Campos — este sim, um verdadeiro leitor e erudito — dizia que, para fazer sucesso em um coquetel, um certo leitor que escreveu para ele não precisava ter lido livro algum. O cronista desmascarava festas chiques, a cultura ostentada, com ironia e bom humor.

    O problema do coquetel era justamente esse: o fingimento tinha efeito apenas dentro do círculo fechado, para impressionar apenas os presentes. Não gerava interesse real por livros; era vaidade pura.

    No Instagram, porém, a história é outra. Se o bonitão ou a bonitona finge que lê, o seguidor pode se apaixonar pelo livro e ler de verdade. A mentira passa a ser propaganda. O livro circula, chega a quem talvez nunca o tivesse descoberto. O fingimento, então, pode gerar algo positivo: leitores de verdade.

    Na verdade, enquanto as pessoas “chiques” fingiam ser leitoras apenas entre elas, era algo meio besta. Agora, com a internet, tirar uma foto com um livro que você não leu pode ser uma ótima propaganda. Afinal, um livro que você não leu pode ser o livro da vida de alguém que te segue nas redes sociais. Continuem, meninos e meninas, continuem.

  • Sobre vida, arte, educação, democracia, anistia, blindagem…

    Além da crônica ou do conto, hoje vou com um texto de opinião que, perdoem o pleonasmo, vem em primeira pessoa. Tenho acompanhado com bastante curiosidade os últimos acontecimentos políticos que tem ganhado destaque neste país lindo, e controverso, chamado Brasil. Como roteirista amador e apaixonado por cinema, acho incrível como a realidade brasileira consegue igualar, ou até mesmo superar, a criatividade dos maiores escritores mundiais desse gênero. É tanto plot twist que eles devem ter inveja. Agora, pensando em todos esses acontecimentos em relação a minha trajetória de vida, não posso deixar de fazer algumas considerações que deixarei soltas neste singelo texto.

    Minha primeira graduação foi em Direito. Desde então, tenho convivido com muitos questionamentos pessoais em relação a essa profissão. Entretanto, apesar desses, eu não tenho como diminuir a importância que essa ciência tem para a sociedade e para a democracia. O direito é um instrumento essencial para a garantia desse termo hoje tão falado, mas cujo real significado poucos realmente conhecem. Será que os jovens não aprendem sobre seu significado nas escolas? Ou será que nosso ensino se tornou tão mercadológico e finalista que seu significado se perde dentre outras milhares de exigências? Essa é uma discussão que poderia gerar teses sobre educação e que não vale o aprofundamento aqui. Polemizando um pouco, talvez falte um pouco mais de Paulo Freire, apesar de muitos dizerem que esse é o grande problema da nossa educação.

    Voltando ao tema democracia, talvez ela não seja um modo perfeito de governo. Aliás, será que a perfeição existe fora do seu significado? Apesar disso, considero que ela seja o melhor modelo, pois permite que a pluralidade humana coexista em espaços comuns. Ou seja, somos seres plurais e, por isso, precisamos respeitar o que cada um pensa. Não importa se uma pessoa é de direita ou esquerda, heterossexual ou homossexual, conservadora ou liberal ou qualquer outra coisa, o que deve sempre prevalecer é o respeito. Além dele, a liberdade de todo o indivíduo se expressar livremente, desde que isso não prejudique os direitos de outro. Seguindo, nesse regime todos são iguais perante a lei, ainda que as vezes seja preciso garantir que, aqueles que são prejudicados pelo sistema, possam usufruir de políticas para minimizar desigualdades, como a política de quotas, por exemplo. Somos iguais nos direitos e nos deveres.

    Todo esse brainstorm de características remete a questões tão obvias que, certamente, o leitor desse texto está se perguntando o porquê estou falando tudo isso. Talvez eu volte a questão dos roteiros do primeiro parágrafo para entrar na seguinte questão, o absurdo. Pensando em um contexto sem nenhum tipo de ideologia de esquerda ou de direita. Será que alguém concordaria que nossa democracia pode ser colocada em risco por qualquer pessoa que tente um golpe de estado? Será que seria razoável permitir que alguém, junto com seus pares e colegas, decida se ele(a) mesmo irá decidir sobre um crime que cometeu? Acho que a resposta para ambas é negativa. Ao menos, espero que seja. Se o é, por qual motivo alguns tem aceitado renunciar a elementos tão caros e importantes a nossa democracia pelo fato de defender certo posicionamento político? Será que isso vale a pena?

    Não se trata aqui de ser de esquerda ou de direita. Hoje, apesar de qualquer posicionamento político, eu me considero um fã da democracia. Talvez essa tenha sido uma das principais lições que aprendi ao cursar direito. Precisamos defender esse modelo para que possamos realmente conservar nossa liberdade de expressão para opinar, seja lá como for, dentro dos limites que exigem a legalidade. Não existe ditadura benéfica aos humanos, sejam elas de direita ou de esquerda. Qualquer tipo de restrição ao ser livre é burro.

    Finalmente, chego aos atos realizados no dia 21 de setembro de 2025 em todo o Brasil. É muito bom ver que, independente de correntes ideológicas, tivemos milhares de pessoas lutando por um objetivo tão nobre, ou seja, defender a nossa democracia. O ato mostra como o Brasil é lindo e gigantesco culturalmente, como temos talentos que fazem ter orgulho real por sermos brasileiros. precisamos cuidar desse país para que toda essa pluralidade floresça cada vez mais. Nisso consiste o real patriotismo.

    *Textos assinados são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião do Crônicas Cariocas.

  • A Velha e o Mosquitão

    Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região.

    Toda essa calmaria ficou abalada quando um dia, enquanto assistia ao seu programa favorito, o plantão telejornalístico interrompeu sua programação com a seguinte notícia.

    — Informamos aos moradores desta cidade que amanhã receberemos a maior invenção deste século, o barco nuclear. Projetado com o tamanho de uma simples embarcação de pesca, ele será capaz de fornecer energia para todas as fábricas da nossa cidade. A crise energética enfim acabou. O equipamento ficará atracado na vila dos pescadores.

    — Por que diabos essa geringonça vai ser colocada aqui para iluminar as fabricas do outro lado da cidade? – indagou a senhora.

    No dia da inauguração, jamais tinham sido vistas tantas pessoas esquisitas naquela localidade. Era uma gente vestida de terno que andava com a cabeça tão levantada que quase alcançava o céu. Foi até estranho para os moradores daquela região verem o prefeito e vários vereadores comparecerem ao vilarejo fora do período eleitoral. Após todos os discursos e pompas, estava inaugurado o gerador de energia.

    Logo depois, começou um zunido infernal naquela localidade. Nenhuma pessoa conseguia mais fazer nada sem ser atormentado por um barulho ensurdecedor em seus ouvidos. Dona Maria já não conseguia mais ver ser programas de televisão. Como uma senhora obstinada, ela não poderia deixar aquela situação permanecer daquele jeito. Pensou logo em bolar um plano.

    Durante dois dias, ficou observando o ir e vir do pessoal que tomava conta daquele mosquitão. Percebeu que, uma vez ao dia, durante a troca de turno, o local ficava sem ninguém de vigia. Essa era a hora perfeita. Então, a Super Senhorinha saiu de sua casa, adotou passos cuidadosos e chegou em frente ao seu objetivo. Agora, precisava saber de onde vinha aquele barulho. Ela não titubeou, com sua perícia de cientista do lar, observou tudo durante algum tempo e percebeu que o som deveria vir de um cabo dentro daquele equipamento. Foi lá e desconectou tudo. Na mesma hora, o barulho parou. Saiu de lá vencedora.

    No dia seguinte, a paz voltava a reinar naquela casa, como era incrível a sensação de poder assistir televisão sem nenhum barulhinho para atrapalhar. Estava nas nuvens. De repente, sua programação voltou a ser interrompida pelo plantão.

    — Informamos que, por motivos ainda desconhecidos, o funcionamento do barco nuclear foi interrompido. A concessionária responsável está tentando adotar todas as medidas para restabelecê-lo o mais rápido possível, mas ainda conseguiu detectar o problema. Sendo assim, é necessário informar que estamos correndo um grande perigo, pois essa interrupção no equipamento por mais de 36 horas poderá causar uma explosão que destruirá nossa cidade. Os desenvolvedores do barco nuclear criaram esse mecanismo para nos proteger contra possíveis ladrões de tecnologia.

    Dona Maria ficou espantada com a notícia, mas sabia que não tinha tempo a perder. Esperou a hora que já conhecia muito bem e lá foi mais uma vez em direção ao mosquitão que tanto desprezava. Como já sabia exatamente o que fazer, não demorou nem 5 minutos. De repente, começou o zunido de novo, todos os funcionários correram para ver o que havia acontecido. Quando olharam para trás, somente viram uma senhora andando vagarosamente. Ela olhou para todos e disse:

    — Tentei voltar a ter paz para assistir meus programas de televisão, esse barulho estava complicando minha vida. Agora, se para ficar viva eu preciso aguentar o barulho desse mosquitão, que ele continue — disse Dona Maria contrariada após restabelecer o zunido muito a contragosto.

  • BORNOUT

    Nasci um nada. Fui criado para ser um nada. Desde pequeno, nunca soube que o dinheiro pode ser usado para o lazer. Aliás, qual o significado disso? Meus pais só trabalhavam e tudo era minimamente economizado para podermos pagar as parcelas de nossa casa em um condomínio classe média e do carro do ano, a grande paixão do meu genitor. Objetos nos quais ele empregava seu tempo livre e sua matéria.

    Enfim, fui criado para ser insignificante e decidi vencer esse destino.

    Logo aos dez anos de idade comecei a trabalhar vendendo doce na porta da escola. Era onde eu estudava? Não. Para sustentar seus desejos de aparência, meus pais sempre me matricularam em escolas públicas. Longe da minha casa, é claro. Ninguém tinha grana para comprar doce de criança. Então, eu não podia vender lá. Por isso, ia para um colégio de bacanas onde a playboyzada sempre comprava tudo. Nunca soube se era por pena ou só para se livrar rápido de mim. Foda-se, isso não importava, estava fazendo o meu dinheiro.

    Minha relação com a grana sempre foi de respeito. Ao mesmo tempo em que eu queria juntar cada vez mais, tinha medo de ficar deslumbrado e gastar tudo. Por isso, deixava ela lá, guardada, bem no cantinho dela. O único motivo justificável para mexer nas economias era para investir. Sempre buscava novas formas de aumentar minhas economias.

    Trabalhei durante toda a minha infância e adolescência, nunca tive tempo para brincadeira ou para perder tempo com inutilidades. O trabalho era meu único foco. Quando fiz dezoito anos, peguei o que tinha, comprei uma moto, aluguei uma quitinete e sai da casa dos sonhos. Nunca mais voltei a falar com meus pais, apesar de eles terem tentado muito. Eu não tinha raiva deles. O que não tinha era tempo.

    Passava os dias fazendo entregas em meu “amigo” de duas rodas, quase nunca ia para a casa. Quando raramente estava livre, ficava pensando em qual era a utilidade de pagar aquele lugar. Entretanto, logo caia na real. Ali, ao menos, poderia jogar meu corpo cansado quando precisasse. Não dá para morar em uma moto.

    Por esse motivo, meus anos como motoboy foram sempre objetivando comprar um carro. Não queria um modelo pra aparecer para ninguém. Queria um econômico que não quebrasse muito. Trabalhei como boy por cinco anos até tingir esse objetivo.

    Agora, eu precisava de mais, eu sempre quis mais. Meu objetivo era conseguir juntar o meu primeiro milhão. Dá para juntar isso sendo motorista de aplicativo? Impossível? Eu não conhecia essa palavra. Se alguma hora ela viesse em minha cabeça, eu ligava o celular, colocava um vídeo de motivação e assistia focado. Meu pouco tempo livre era unicamente dedicado a assistir um canal de um cara que saiu do nada e ficou rico. Ele ensinava os outros a fazerem o mesmo. Eu ouvia aquilo até cansar para ver se acontecia
    comigo.

    Comecei trabalhando dez horas, muito pouco. Passei para doze, dá pra aumentar. Quatorze, posso fazer um esforço. Dezesseis, foca no seu objetivo. Dezoito? Tá puxado, quase não pareço um ser humano, mas preciso aguentar.

    Certo dia, eu já estava completando umas dezesseis horas de trabalho, meu corpo pedia arrego, mas minha mente me chicoteava pedindo pra aguentar mais. Faltavam “só” duas horinhas. No meio dessa briga, eu apaguei. Quando fui acordar, estava em cima de uma cama de um hospital. Quando acordei, meus pais logo se aproximaram. Olhavam com uma puta cara de tristeza de merda. Eu fiquei puto, falei “o que ta acontecendo“. Minha mãe apenas falou “Filho, sinto muito, você perdeu todos os movimentos da cabeça para baixo“.

  • Que graça tem um livro?

    A graça de um livro? Ele te dá prazer. Se você não está lendo por obrigação, está envolvido na viagem mais deliciosa que poderia fazer — não apenas por países, sem precisar de passaporte, mas também por épocas. Um livro faz voltar no tempo.

    E a razão é única: prazer.

    Você escolhe uma história, se delicia lendo sinopses, acolhe a dica de um amigo e vai. Um livro não precisa te dar lições de vida, nem te deixar rico, nem transformar a sua existência.

    Eu era um simples vigilante de galpão quando viajei por vários planetas com O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. Na vida real, cuidava de um depósito de sinalização de trânsito. Quando adolescente, antes que meus olhos fossem contaminados pela banalidade dos noticiários, li Capitães de Areia, de Jorge Amado, e me misturei a Pedro Bala, Dora, Volta Seca — meninos de rua da Bahia. Li também Cartas a um jovem poeta, de Rilke; Knulp, de Hermann Hesse, durante a crise dos 40 anos; e O Triste Fim de Policarpo Quaresma e Clara dos Anjos, de Lima Barreto, devorando-os nos ônibus, indo e voltando para o centro de BH.

    Por que eu lia? Porque gostava. E ainda gosto. Só isso.

    E o que dizer de O Bebê de Tarlatana Rosa, de João do Rio, que me transformou em folião de carnaval? Surreal: um livro me pôs na avenida, sem eu sequer sair da poltrona. Estranho, não é? Se a gente fica parado lendo, as pessoas acham esquisito. Devia estar jogando bola, sambando ou correndo. Mas não: eu lia.

    Li pela primeira vez Crônica de uma namorada, de Zélia Gattai — esposa de Jorge Amado — ainda no ensino fundamental. Era ruim de bola, preferia ler, e me fascinava o mundo que Zélia trazia. Ler era gostar de ler. Nada além disso. Nem precisava.

    Já adulto, quando o trabalho me irritava, li Bartleby, o escriturário, de Herman Melville. O patrão de Bartleby, um advogado famoso, tinha um grupo de funcionários copiando processos no escritório. E Bartleby, de repente, virou-se para ele e disse: “Prefiro não fazer.” Surreal ver um empregado falando aquilo para o patrão. Eu ria, batia palmas, pensava: “Como assim?”

    Ler é das coisas mais fantásticas do mundo — conto, crônica, romance ou poesia. Dizer que leio só porque gosto é atrevido, eu sei, mas é a mais pura verdade.

    O melhor livro é aquele que a gente escolhe sozinho, sem resenhas e sem recomendações. Entrar numa livraria e deixar a vontade decidir. Aí, nunca tem erro. Comigo, sempre deu certo.

  • O Prazer de Desviar

    Não sei quanto a vocês, mas há palavras que me cansam só de ouvir. “Focar”, por exemplo. Palavra querida de coachs e gurus, parece um cabresto moderno: manda olhar sempre na mesma direção, quando é das distrações que a vida se enche de beleza.

    É como se, nos últimos tempos, quiséssemos eliminar do mundo todos os imprevistos: o botão da camisa que arrebenta, o carro que passa veloz numa poça d’água, molhando nossa roupa de lama, o outro que fala alto no ônibus e desconcentra a leitura. A vida, nessas horas, parece mostrar quem manda — que a gente não a controla, apenas se adapta, improvisa.

    Outro dia, num vídeo no YouTube, um psicólogo dizia para o espectador: “Você não pode namorar agora. Está ‘casado com seu mestrado’, tem que renunciar.” O rapaz estava com uma moça, mas era claro para quem assistia que ele estava sem tesão, que a mulher não o empolgava, que o coração não batia. Ele se enganava: “Estou casado com meu mestrado.” Mal sabia que o coração não conhece foco, o tesão menos ainda; é ele quem manda — e as surpresas da vida que dão as cartas.

    E aquela gente que programa as leituras para o próximo ano, para a próxima década, para as outras duas: “Agora, estou focado em ler os contemporâneos, agora, nos clássicos.” E se surgir algo mais interessante? Não pode?

    Tem também a pessoa que decidiu, sei lá por que cargas d’água, que precisa emagrecer. Você a convida para um restaurante novo, quer apresentar um sabor diferente, um vinho, um prato… e ela responde: “Mas agora, estou focada em emagrecer, perder peso, é minha meta do ano.”

    É como se, dentro dela, houvesse um Galvão Bueno gritando: “Foco, campeão! Não perca sua meta, não desista dos seus sonhos, dos seus objetivos.”

    Mas, como disse antes, a vida tem sempre razão. Ela muda, é imprevisível, escapa do nosso controle. Só que também traz surpresas boas. Um amor que surge de repente, a possibilidade de uma viagem, uma torta de chocolate que enche a boca d’água, um cheiro delicioso de café. Nesses momentos, pelo menos eu me permito gritar: “Dane-se esse tal de foco.”

    Um cheiro delicioso de café que a gente sente do outro lado da rua.

    Claro, na vida, precisamos fazer escolhas. “Ou isto ou aquilo”, como naquele poema de Cecília Meireles. Nem sempre dá para fazer tudo; escolher uma coisa é, às vezes, desistir da outra. Mas que saibamos que escolhemos — e, se quisermos, possamos chutar tudo para o alto se um caminho mais interessante surgir. Não precisamos que ninguém buzine no nosso ouvido: “Foco, foco.”

    Fazemos escolhas, sim. Sempre. Mas sempre temos a oportunidade de mudar, de fazer diferente, de deixar o coração querer outra coisa. É essa liberdade que torna a vida tão bonita.

  • O Clube dos Poetas Amadores em Extinção

    Era madrugada, por volta de uma da manhã. M. faz um grande esforço para sair de seu apartamento sem fazer barulho. Precisava se fazer invisível. Caminha até a porta e observa o movimento da rua. Embora conhecesse todos os pontos não filmados por onde poderia passar, precisava ter o máximo de cuidado. Embora fosse ateu, caminhava sussurrando orações que nem sabia ao certo.

    As ruas estavam desertas. Escuras. Uma espécie de barulho contínuo assombrava seus ouvidos, não conseguia saber se era real ou mera fantasia causada pelo seu medo de ser descoberto. Andava rápido, mas silenciosamente, como se fosse um invasor no lugar onde nasceu e viveu ao longo de toda a sua vida.

    Após toda a tensão, conseguiu chegar ao local desejado. Era uma portinha, bem castigada pelo tempo, que somente uma pessoa muito observadora, ou um robô perfeitamente programado, poderia notar. O local perfeito para o obrigo de esquecidos.

    Seu interior era uma sala pequena com uma mesinha iluminada no meio que deixava escuros os cantos do ambiente. Quando chegou, viu os que já estavam presentes. Ao todo cinco. Cumprimentou a todos e perguntou:

    — Será que vem mais alguém?

    — Vamos esperar. Chegar até aqui virou tarefa para poucos. Os robôs de ronda estão cada vez melhores. Chegará o dia em que não conseguiremos mais nos encontrar. — disse J.

    Esperaram durante um tempo. Apenas mais três chegaram. Então W., o anfitrião da reunião, toma a palavra:

    — Vamos iniciar. Hoje são oito, ontem eram dez. Amanhã? Ninguém sabe. Vamos aproveitar este momento.

    G., um dos integrantes comenta:

    — Hoje quase fui pego ao tentar chegar aqui. Eles não sabem o que é errar, exigem que sejamos perfeitos, da mesma forma que foram criados para ser. Quando nos detectam nas ruas, nem perguntam. Em segundos, perdemos nossas vidas. Eles não têm coração — disse P.

    — Vamos a primeira leitura da noite. M., por favor.

    — O preto é preto/ O branco é branco/ Se o preto não é branco/ O branco nunca será preto.

    Todos os presentes naquela sala começam a gritar e a se abraçar com enorme euforia. Alguns extremamente emocionados abraçam M. Outros permanecem chorosos em seus lugares. F., sem conseguir se conter, grita:

    — Como é bom poder ouvir livremente poesias ruins!

    Emocionado, W. se prepara para chamar o responsável pelo próximo poema.

    Toda euforia ali vivenciada, era sinal de um novo tempo. O mundo já não era o que foi um dia. A Inteligência Artificial aprisionou os humanos e tentava reprimir sua humanidade. Valores como o amor, a solidariedade, a amizade e. até mesmo, o erro, não podiam ser tolerados. Algoritmos só funcionam se criados com perfeição. Nesse mundo, poder escrever poesias ruins era um privilégio. Aqueles homens, ao rirem da imperfeição, faziam uma revolução em busca da liberdade.

  • A VINGANÇA DO LAPTOP**

    *— Quando a tecnologia resolve mostrar quem manda (e vira protagonista da reunião)

    O relógio marcava 14h30 e ele estava numa reunião remota de marketing da Agência Pixel & Café*, com o chefe, as meninas do RH, as estagiárias… e até o Padre Marcelo, convidado para “abençoar” o projeto.

    O computador, num surto de rebeldia, começou a travar: reiniciava sozinho no auge da reunião, desligava sem aviso e exibia um “fantasma” na tela, como aqueles velhos televisores sem controle remoto. A cada “pix!”, a câmera congelava, o áudio estalava. Ele apertava o notebook e xingava baixinho:

    — Mas por que essa porcaria resolveu dar problema JUSTO agora?

    — Que máquina maleducada — brincou a esposa, espiando pela porta.

    — Para de tirar sarro! — retrucou ela, fingindo indignação.

    A mulher folheava o manual, perguntando se ele queria chamar alguém para ajudar. Mas, quando a vontade de rir se tornava incontrolável, corria para o banheiro — deixando o marido ali, brigando com a tecnologia, e voltava com a tensão convertida em gargalhada abafada. Era impagável.

    De repente, ele se transformou numa versão caseira de Leandro Hassum — soltando impropérios com todo o carisma que o estresse do momento permitia:

    — Mas que máquina mais imbecil, não conhece o que é ética, não sabe o que é dar duro por uma empresa. Quando eu puder, o destino dessa porcaria vai ser a lata do lixo.

    Do nada, a reunião voltou. Chefe, RH, estagiárias… e o padre Marcelo ajeitando a batina. 

    — Eu gostaria que todos ligassem a câmera — disse o chefe.

    A câmera decidiu ter vontade própria: apareceu “Permitir câmera?”

    — Mas eu permito, ora essa. Pelo amor de Deus. Que máquina mais desumana, sem coração — resmungou ele.

    Quando a imagem voltou, inclusive do padre, ele clicou, levantou a mão e o chefe liberou a fala:

    — Como eu disse, este projeto vai dar uma alma nova para a empresa, uma chance muito maior de investimentos.

    Aí começou o coro dos microfones:

    — Você precisa ligar o microfone!

    — Tem que ligar o microfone!

    — Tem que liberar o microfone!

    O som virou um coral desafinado. O padre Marcelo, sereno, balançava a cabeça como se rezasse pela alma da tecnologia — e pelo descanso do homem que virou comediante por instinto.

    De repente, ele tirou a camisa, começou a mordê-la, jogoua no chão, pisou nela, gritou, deitouse no chão e esperneou:

    — Máquina mequetrefe, computador patife, sirigaita!

    Então parou para pensar: “O computador era fêmea ou macho? Qual era o sexo do computador? Na boa, o computador é ele ou ela?” Pensou em perguntar isso ao ChatGPT, mas só depois da reunião.

    Afinal, muita gente se refere ao computador como “meu PC”, “minha máquina”. Mas, e aí, o computador é macho ou fêmea? Ele é “ele” ou “ela”? Ou será que é “elu”?

    De repente, ele começou a bradar:

    — Vão todos, em fila organizada, para o inferno! 

    — Vai você, chefe. Com esse terno ridículo de pastor de igreja, esse terno de brechó.  

    — Vai você, sua maluca. Fala mal de todo mundo pelas costas, mas não vai embora porque está dormindo com o chefe.

    E, mais do que a camisa, ele tirou a calça e pisou nela, só de cuecas. Parou. Riu de si mesmo. A câmera estava desligada e, com o microfone com defeito, ninguém o veria nem ouviria. Começou a dançar, a rebolar na frente da câmera, a jogar beijos imaginários para a estagiária da assessoria de imprensa. Um verdadeiro “Conga la conga”. Até que o computador decidiu dar o ar da graça: a câmera ligou de repente. Ele, de cuecas, com o dedo indicador na boca.

    — Estávamos ouvindo. Disse o chefe.

    Ali, mais do que voltar para a reunião, ele queria sumir, desligar o computador, enfiar a cara num buraco. A câmera ligada mostrou o homem congelado — todos boquiabertos, divididos entre a gargalhada e o choque. O chefe pausou a reunião: “Vamos tomar um café rápido.” Na prática, era uma pausa para as risadas, para o fuxico. Depois disso, ele seria o convidado mais esperado no happy hour da firma. Ver um surto tecnológico com final cômico rende boas risadas.

    E ali, na hora do aperto, ele aprendeu: nunca se deve ofender um computador. Ter um laptop como inimigo é a pior coisa que existe. Ele pode se vingar e colocar a gente em situações embaraçosas. Mas, aos olhos alheios, a diversão é garantida.

  • Postei que me amo, mas o Wi-Fi não curtiu

    Sabe aquele dia que a gente acorda meio piegas, sentimental demais, como se tivesse engolido um coach motivacional junto com o café? Se nunca acordou assim, por favor, me indique o remédio, porque eu sou refém dessas crises.

    Pois foi numa segunda-feira dessas que eu acordei cafona demais, abri o Facebook e vi a clássica pergunta: “O que você está pensando?” Sem pensar muito, mandei logo:

    “Eu ando me escolhendo todos os dias, mesmo quando pareço a pior opção.”

    Postei.

    Saí para trabalhar. No ônibus, entre aquela multidão hipnotizada pelo celular, peguei o meu para checar… zero curtidas.

    Z-e-r-o.

    Fui olhar meu perfil, contei uns 500 amigos. Pensei: “Uau! Quinhentos amigos e nenhum tem tempo pra mim?”

    No WhatsApp, mandei a mesma frase para o grupo da família, para uns amigos… No almoço, conferi: muitas setinhas azuis, nenhum comentário. Silêncio sepulcral.

    Tentei o Instagram: “Eu me escolho todos os dias. Mesmo não sendo a melhor opção.”

    Daí um amigo velho conhecido, aquele tipo que adora bancar o engraçadinho, respondeu no privado:

    “Quando você posta que já superou tudo, a gente sabe que você tá fingindo.”

    Poxa, ele me respondeu com meme e tudo.

    Eu, no Uber, voltando pra casa, quase seis da tarde, pensei:

    “Que opções eu tenho, cara pálida? Viver de likes? Não, né?”

    A verdade é que a gente não escolhe muito não. O careca não escolhe ter cabelo igual ao do galã da série. Eu, com a barriguinha de chope, não escolho ouvir todo almoço aquela piada: “Tá esperando bebê?”

    Queria que a barriguinha sumisse por osmose, abdução, qualquer milagre. Mas não rola.

    Então, a saída é fazer as pazes com a careca, a barriga, e os 500 amigos que não curtiram meu post.

    Voltei lá e apaguei a mensagem motivacional. Ninguém viu, ninguém sentiu. Tudo certo.

    Se alguém tivesse curtido, seria outra crônica. Mais bonitinha do que esta.

  • Feliz Dia dos Namorados

    Ele entrou no carro — com sono atrasado e a alma desabada.

    — Bom dia — disse para a motorista.
    — Bom dia — respondeu ela.

    Ele vinha cansado. Noite inteira no hospital: gente gripada, filas enormes, enfermeiras com três noites sem dormir, indo de um plantão para o outro.

    Com anos como enfermeiro, aprendeu a não exigir sorriso nem bom humor dos outros. Dava o sorriso dele, a ajuda dele — ou, às vezes, só um atendimento decente. E isso já bastava.

    O perfume da motorista era bom, mas nada invasivo. Aliás, como ela estava bonita. Se maquiara para o trabalho naquela manhã, se agasalhara, se perfumara.

    Na esquina da Amazonas com Araguari, ela disse:
    — Feliz Dia dos Namorados, viu?

    Às vezes o amor está só perdido no trânsito.

    Os dois riram.
    — Ah, já sei. Você é casado, né? Acertei?
    — Não, não sou casado. Sou solteiro.
    — Então seu amor deve estar preso no trânsito.
    — Batucando no volante?

    Ela riu. No rádio, Alcione cantava “A Loba”, e ela acompanhava — com a cabeça, com a voz, com vontade.
    Ele comentou que, duas semanas atrás, tinha ido a um show da Alcione, numa praça de Contagem.
    Ela cantou “A Loba”, “Faz uma Loucura por Mim”, “Garoto Maroto”.

    Um vozeirão — mas debilitada. Fez o show todo sentada.

    Falaram do trânsito, da vida, dos ex, do trabalho.
    Ela contou que queria deixar de ser Uber, tirar carteira de caminhão, rodar pelas estradas.
    Ser caminhoneira — como foi o avô.

    Mas ele não esqueceu aquela frase: “Feliz Dia dos Namorados.”
    Vinda de quem ele menos esperava, lembrando que a vida — ao contrário do que a gente pensa — não vive no piloto automático.

    E se a moda pega?
    O motorista do ônibus para a passageira. O farmacêutico para a freguesa. A atendente da Casa Rio Verde para o cliente bonitão. A gari para o garçom.
    Quem não tivesse namoro, que desejasse um Feliz Dia dos Namorados a um desconhecido atraente. Simples assim.

    Mas não.
    Somos todos engolidos pela pressa, pela urgência de ganhar mais e mais dinheiro, comprar mais e mais do que não precisamos.
    Mas, de vez em quando, algumas pessoas saem do automático. Como aquela motorista.

    Chegaram na casa dele.
    O dia começava — algazarra de crianças indo pra escola, o bom dia dos vizinhos.

    — Débito ou crédito?
    — Débito.
    — Aproximação.
    — Obrigada. Até a próxima.

    Antes de ir embora, ele não resistiu:
    — Feliz Dia dos Namorados pra você também.
    Deu o cartão dele.
    Ela também ofereceu o dela.

    A próxima, quem sabe, podia ser numa cafeteria charmosa. Ou num bar.

    E você, leitor?
    Ficou com vontade de desejar um Feliz Dia dos Namorados a um desconhecido?
    Quem seria?
    Tenta. Vai que.

  • Uma história de desapego

    C. considerava ter uma vida normal. Geralmente, sua rotina era casa/trabalho. Neste ele era um sério senhor que fazia tudo conforme mandavam as regras. Em sua casa, libertava seu lado criativo e passava suas horas escrevendo.

    Todos os dias saia do forno um novo texto. Não considerava ser um escritor, mas jamais imaginou conseguir viver sem exercitar esse seu lado. Às vezes, se dava ao luxo de sonhar em ter seus trabalhos reconhecidos e fazer sucesso. Quando isso acontecia, logo procurava desviar seu pensamento. Preferia guardar seus trabalhos em uma gaveta, pois não suportaria a crueldade dos críticos. Seu medo era limitante, mas não se importava, queria somente conversar seu hábito.

    Não costumava revisar nada que escrevia. Por isso, as vezes perguntava se conseguiria reconhecer suas crônicas escritas no passado.

    Quando não estava criando, costumava assistir ao telejornal da noite. Não gostava de ficar desinformado. Certo dia, viu uma notícia sobre um escritor que ficou famoso nas redes ao escrever uma crônica sobre a condição humana. Ficou maravilhado. Enquanto o homem falava sobre seu texto, ele apenas movimentava sua cabeça em tom de concordância. Passou a admirar aquele artista. Quem sabe um dia seria igual…

    Não satisfeito com a reportagem, foi procurar a crônica. A cada parágrafo ficava mais encantado. Não conseguia discordar de uma palavra. Foi buscar entrevistas, podcasts e qualquer coisa em que ele participasse. Realmente tornou-se um fã. 

    A grande admiração por aquele artista trouxe a vida de C. a inédita experiencia da incapacidade de escrever. Ficava se perguntando como duas pessoas poderiam se interessar pelo mesmo assunto, mas expressá-lo de forma tão diferente. Sua sensação era de indigestão diante da incapacidade de escrever com maestria. Passou a ser mais exigente com sua escrita. Não conseguiu mais concluir nada.

    Desanimado diante desse momento de interrupção criativa, resolveu revisitar seus textos antigos. Quem sabe essa atitude não poderia reativar sua mente. Sentou-se em sua poltrona e começou a ler seus trabalhos. Era bem crítico em relação a grande maioria. Ao ler alguns deles, chegou até mesmo a sentir vergonha

    Quando já estava chegando no final do material guardado, pegou uma crônica e começou a ler. Ela falava sobre a condição humana. De repente pensou “espera aí, esse aqui eu conheço muito bem”. Na realidade, saberia recitá-lo de trás para frente, mas fez questão de continuar lendo até o final. Como aquele texto saiu da gaveta e foi parar no mundo? Decidiu guardá-lo por último no lugar onde achou que nunca estivesse saído. Naquele momento, sua mente era uma avenida metropolitana em horário de rush.


  • Desencontro

    Após um ano de intercâmbio, Clara retornava a sua cidade natal. A menina que partiu, agora era uma mulher. Todos os seus medos e inseguranças, foram vencidos por suas novas experiências. Entendeu ser o mundo gigantesco e plural, cercado por pessoas diversas e muito diferentes do seu antigo e pequeno quadrado. Ela era um barco novíssimo em folha e iniciava sua navegação rumo a um oceano infinito. De seu passado, cada vez mais distante, deixou uma paixão, agora indefinida, Narciso.

    Ele era seu grande amor de juventude. Um homem cobiçado por todas as meninas da cidade. Durante muito tempo. sofrera calada até conseguir manifestar seu desejo de conquistá-lo. Quando finalmente conseguiu e teve seu amor correspondido, ela jurava que nada no mundo os separaria.

    Durante seu período de viagem, experienciou tantas coisas incríveis que conseguiu apaziguar sua paixão. Entretanto, não via a hora de poder revê-lo. No dia marcado para o reencontro, não conseguia esconder sua ansiedade. Ele a convidou para ir ao melhor restaurante da cidade. O cenário estava armado para uma noite memorável entre amantes.

    Quando chegou ao local, Narciso já a esperava com certo ar de impaciência. Ela abriu um largo sorriso de felicidade e ele respondeu sério com impaciência.

    — Que saudade!

    — Você está atrasada e me deixou esperando.

    Ela estranhou a reação, mas tentou amenizar a situação.

    — Desculpe, eu demorei um pouco me arrumando. Queria estar bonita para esta noite.

    — Parece até que não sentiu saudades.

    Desconfortável, ela prosseguiu.

    — Como você está? Tenho tantas coisas para te contar…

    — Eu fiquei muito chateado quando decidiu ir para essa viagem, eu não concordei. Até hoje penso o mesmo. Clara, você tinha tudo aqui, sabia que eu podia te dar a melhor vida do mundo. Quando foi, minha empresa estava começando a fazer sucesso. Você não tem ideia de tudo o que eu construí nesse tempo. Minha empresa é a maior da cidade. São tantas mulheres querendo estar no seu lugar, tem ideia disso, né? Devia ter valorizado por tudo o que eu posso te oferecer. Espero que agora se esforce para
    recuperar o tempo perdido…

    Ele seguiu falando. Ela não conseguia mais ouvir, só pensava. Nesse ano, cresceu tanto como pessoa. Conheceu tantas outras fantásticas. Aprendeu a valorizar-se enquanto mulher. Sabia muito bem o que queria.

    Interrompeu seus pensamentos e a fala de Narciso.

    — Preciso ir embora.

    Ele tentou falar, mas ela somente virou as costas e saiu.

    Sua trajetória estava apenas no início e queria desbravar o mundo. Não podia se submeter aos limites do passado. Muito mais do que parecer, ela precisava ser. Precisou se libertar das correntes passadas que a tornavam pequena. Para isso, fez de um encontro, desencontro.


  • O tempo que não temos

    Ao escritor faltam muitas coisas, dinheiro, valorização, suporte e – frequentemente – sobre o que falar. O cronista, tendo a obrigação periódica de sentar e tirar algo do papel, é o que mais sofre com isso. Mas não, não divagarei aqui sobre a falta de assunto. Não irei cair nesse lugar comum dos autores de crônicas. Pelo menos, não agora. Não será desta vez que adentrarei no rol daqueles que possuem um texto com essa temática. Pelo menos, não agora. Do que eu quero falar e reclamar diz respeito a outra falta: a de tempo.

    Esse problema, certamente, não é exclusividade do escritor. Longe disso. Algo comum de nossos tempos é, justamente, a falta de tempo. Com exceção de alguns poucos (os muito ricos e os vadios, que são quase a mesma coisa, mas só os segundos têm minha admiração), não se escapa à correria, à agonia, à agenda apertada e ao relógio a achacar cada suspiro de nossa vida.

    Espremido pelo tempo, o homem vive; espremido pelo tempo, o literato sobrevive. Além de todos os afazeres diários, o escritor precisa lidar com as matérias artísticas e com a vida literária. Ou precisaria, pois, muitas vezes, só resta falhar. Mais uma atividade, mais algo em torno do qual a vida se desenvolverá nas mesmas 24 horas. Afora o trabalho e as obrigações diárias, há a palavra, da qual não se escapa, mesmo quando ela, na azáfama cotidiana, escapa ao texto.

    O autor se encontra comprimido no dia a dia, na exigência de comer, de pagar as contas, de comprar o leite do menino…. Necessidades a oprimir a necessidade do verbo, que remanesce tímida, taciturna e necessária.

    Ao contrário do se poderia pensar, o trabalho científico é mais concorrente do que companheiro do labor artístico. E, estando inserido na vida acadêmica e suas demandas inesgotáveis, é sobre elas que minha atenção se concentra. Mais em documentos do que em versos, mais no século XVIII do que em mim, mas na política do que no amor, é assim que meus pensamentos se encontram ao longo da semana, mesmo nas horas que – supostamente – seriam de descanso. Tomada pela pesquisa e seus problemas, raramente o cérebro se desliga daquele foco e se permite outros voos.

    Sendo mais que o tempo de irrupção da ideia, o pensar literário encontra breve espaço para existir e se nutrir. Porém, mesmo nesse contexto hostil, há vezes que uma reflexão ou um verso me ocorre. Brota em mim com efusão e, com dor e lamentação, vem a morrer sem desabrochar. Escasseiam-se os momentos durante a semana nos quais poderia cultivar aquilo que me veio de repente e que se foi ainda mais de repente, existindo apenas no fugaz instante em que me lembrei escritor.

    Todavia, não raro, aparecem, no final do dia, algumas horas disponíveis. “Vou abrir o computador e escrever”, penso eu. Porém, outra vez, o cansaço vence a vontade e me vence. Mais do que a página do word, meu corpo chama a cama e me entrego a ela. Em berço esplêndido, quando já espero encontrar meus sonhos, alcança-me um mote. Todos sabem como se deve proceder nessa situação: pegar o caderninho e anotar. Faço isso? Que nada, o pouco de energia que sobrou não me permite. Assim, cerro os olhos e o expediente de escritor, que, naquele dia, nem começou.

    Já se foi a época em que minha principal preocupação no mundo da escrita eram as questões estéticas que rondavam a minha cabeça e os livros que lia. Hoje, a maior inquietação que me toma é ter um minutinho para rabiscar meia dúzia de letras ou passar os olhos em algum poema.

    Talvez esteja aí minha grande dor; dor que, com certeza, aflige a tantas outras pessoas que vivem a literatura. A tantas pessoas que veem seu contato íntimo com a matéria viva mais dissipado, que veem sua experiência humana mais pobre e apenas veem.

    Não irei fechar essa página e esse desabafo desejando a morte do meu respeitável público como fez Rubem Braga ao se queixar da falta de assunto. Entretanto, irei xingar o sistema econômico, a academia, o relógio, o motorista de ônibus que queimou a parada, a fila do supermercado, o amigo que me parou para conversar e eu mesmo. Xingarei a todos que merecem e que não merecem.

    Todavia, enquanto xingo, sonho. E, em minha utopia, – não tenho dúvidas – haverá tempo para a arte; para tudo haverá, até para se balançar na rede olhando o pássaro na caixa de ar-condicionado. Nós teremos o tempo.


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