Tony Bennett

  • Canções pra Americano Ver

    A revista Rolling Stone publicou recentemente sua lista de 500 melhores canções de todos os tempos (grifo meu) e supostamente de todo o mundo, atualizada para 2024.

    Aparecem na lista nomes como Cardi B, Carly Rae Jepsen, Migos, Megan Thee Stallion, Eslabon Armado, BTS, Clipse, Pusha T, Bad Bunny, Mark Ronson, Nick Minaj, CL Smooth, Funky 4+1  e Cardi B. Já ouviu falar em algum? Esses ilustres desconhecidos que bombaram nas plataformas de streaming e têm bilhões de acesso no Youtube em breve estarão mofando nas nuvens do esquecimento assim que largados à sua irrelevância.

    Em compensação, músicos de prestígio não fizeram jus a uma indicaçãozinha sequer. Ficaram de fora dentre outros, Frank Sinatra, Tony Bennett, Sarah Vaughn, Nat King Cole, Quincy Jones, Barbra Streisand, Carpenters, Janis Joplin, Joan Baez, Sting, Tom Waits, Bjork e Moby.

    Não é preciso ser crítico musical para constatar que há algo de errado. Que parâmetros teriam sido usados para reputar ídolos do pop descartável como Backstreet Boys e Britney Spears como superiores a um Tom Jobim ou um Burt Bacharach?

    E o que dizer de canções que atravessaram gerações e se eternizaram no imaginário popular como “Moonlight Serenade”, “As Time Goes By”, “Over the Rainbow”, “Smoke Gets in Your Eyes”, “Moon River”, “Take Five”, “Summertime”, “Stella by Starlight”, “My Funny Valentine”, “Misty”, “Autumn Leaves”, “Ne me Quitte Pas”, “La Vie en Rose”, “Volare”, “Besame Mucho”, “Guantanamera”? Nenhuma foi lembrada. Por serem músicas ‘de tiozão’, não mereceram a atenção dos iluminados idealizadores do famigerado guia da RS. Em seu lugar, entraram coisas tipo, “Toxic”, “In Da Club”, “Yeah”, “Hey Ya”, “Big Poppa” e “Fuck tha Police”.

    O rock não teve melhor sorte. Foram sumariamente vetadas bandas de primeira linha como Deep Purple, Dire Straits, Genesis, Yes, Jethro Tull, Emerson Lake & Palmer, Supertramp, Echo & Bunnymen, Siouxsie & Banshees e os ex-Beatles Paul McCartney e George Harrison. Apesar de cantarem em inglês, foram preteridos por uma simples razão: são britânicos. Fossem da terra de tio Sam, não fariam jus a tamanha desfeita.

    Por outro lado, abundaram indicações de gangsta rap, hip hop e country music (equivalente ao nosso sertanejo universitário), estilo cujo alcance está restrito ao território americano.

    Nada contra. Não se trata de discriminar determinados gêneros musicais. A questão é que um levantamento que se propõe a ser um painel da produção musical representativa deveria com isenção abrir espaço ao que é produzido em todas as épocas e lugares, segundo sua relevância artística.

    O Brasil pode dar-se por satisfeito: conseguiu emplacar umazinha preciosa indicação no clube fechado dos 500: “Ponta de Lança Africano”, improvável canção de Jorge Ben Jor surpreendentemente ganhou a 352ª posição. Nada a comemorar já que ficaram de fora temas como “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Carinhoso”, “Asa Branca”, “Aquarela do Brasil” e “Chove Chuva” (essa última do próprio Jorge).

    Outros países tiveram pior sorte. Foram banidos da lista xenófoba da RS a França (Edith Piaf, Charles Aznavour, Serge Gainsbourg), a Itália (Pavarotti, Bocelli, Peppino di Capri), a Espanha (Paco de Lucia, Sarita Montiel, Gypsy Kings), Portugal (Amália Rodrigues, Dulce Pontes, Madredeus) e a Alemanha (Ute Lemper, Marlene Dietrich, Nina Hagen). Que dirá os pobres latino-americanos. Tal como imigrantes ilegais, foram barrados a Argentina (Astor Piazzola, Carlos Gardel, Mercedes Sosa), o México (Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Maná) e Cuba (Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, Buena Vista Social Club). Por não se expressarem no idioma trumpiano, foram escanteados.

    O rol de escandalosas omissões é infindável. Grandes nomes que fazem parte da memória musical foram atirados na lata de lixo da história.

    Poderíamos relevar tais aberrações fosse esse painel um dos inúmeros que pipocam em sites inexpressivos na internet. Não é o caso. A Rolling Stone se alardeia como uma revista gabaritada e adquiriu respeitabilidade nos meios musicais. Figurar em sua ‘qualificada’ seleção tem para o músico o peso equivalente ao que teria para o cinema uma indicação ao Oscar.

    Sendo uma publicação sediada nos EUA, não esconde sua subserviência descarada ao showbiz americano e se afina ao mote “make America great again”. Abdicou dos ideais democráticos e universalistas que inspiraram sua criação para adotar um deslavado colonialismo cultural, difundindo para o resto do planeta a predominância de valores essencialmente americanos.

    Prefira a despojada, mas honesta lista das ‘500 Mais da Kiss FM’.

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