Toxidade a conta-gotas

  • Toxidade a conta-gotas

    Sair da vida de alguém é uma decisão unilateral. Não há consulta nem aviso prévio. Às vezes, se o processo é lento, a outra pessoa percebe. Às vezes, não.

    Os motivos para a ruptura na convivência podem ser vários. O mais comum é dar um basta em uma relação tóxica. Depois dos mais variados episódios, das pequenas descortesias até insultos de diferentes graduações, finalmente se toma a decisão. Para alguns ela vem logo, para outros muito além do tempo razoável.

    A toxidade tem seus graus. Ela é mais percebida nas situações extremas. Mas nos graus mais leves é igualmente nociva.

    Seu efeito contaminante não é imediato e arrasador. Ao contrário, é suave porque envenena pouco a pouco. Os bons momentos convivem lado a lado com as situações ruins, mascarando-as.

    Por isso é difícil de detectar que há uma intoxicação em andamento mas ela está lá. Dia a pós dia criando depósitos de substâncias nocivas dentro de nós. Minando nossa vontade, nos transformando em algo que não somos.

    O que viramos? Um pouco de tudo e menos de nós. O basta é o ponto de ruptura da relação e da existência daquela persona que permitimos que surgisse. Uma representação simplória do nosso “eu” que pode ser tudo menos “nós”. Nossa vasta complexidade de faces foram submergidas enquanto nadávamos no lago frio e parado dessa relação tóxica. Mais um pouco e nos afogamos.

    O “basta” traz à toa quem somos e andávamos esquecidos. Não à toa, a leveza se acomoda a partir do dia em que decidimos negar a outra pessoa nossa companhia, desatando as cordas
    gastas dos restos insistentes do afeto que estava moribundo.

    Cria-se distância entre os dois.

    Pela natureza desse tipo de relação tóxica, suave em seu cotidiano contaminante, o rompimento é semelhante. Não há rompantes, discursos, choros, recriminações ou gritos. As poucas palavras ditas são suaves e que pouco a pouco vão ficando desprovidas de calor. A antiga intimidade é coberta por camadas de superficialidade.

    Aos poucos, no sentido inverso do envenenamento, vai se criando a capa de proteção. O silêncio ocasional oculta as intenções, as palavras vagas mascaram os pensamentos e os clichês tomam o espaço onde antes habitou a originalidade. Pouco a pouco vão se tornando estranhos um ao outro.

    Ocasionalmente, é verdade, a antiga convivência volta a memória. A persona tóxica pensará na outra com saudade e se perguntará onde ela anda e o que faz. Quem se desintoxicou suspirará um instante sorrindo em homenagem aos momentos felizes mas afastará logo do pensamento a lembrança. Aquele cotidiano contaminado deixou avisos em sua memória.

    A lembrança daqueles tempos afastará seu olhar para longe. Lá, onde quero estar.

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