Uma história de resgate

  • Uma história fictícia em homenagem à cadela Cerys

    Era cedo, e o céu pendia sob o peso das águas. As botas afundavam-se na lama espessa. O cheiro, áspero, pungia o ar. Podiam-se enganar os olhos. Podia-se calar um país inteiro. Mas o odor… o odor jamais mentia. Em qualquer busca, servia-se de um estalar de língua. O som seco bastava: cadela e bombeiro seguiam juntos. Ela, sem guia; ele, sem alarde. Unidos não por coleira ou comandos, mas pela tarefa silenciosa e nobre de socorrer o próximo.

    O homem-bombeiro desceu do caminhão com rapidez e silêncio. Ao seu lado, a companheira canina. Toda pretinha, o pelo endurecido pelos dias de trabalho ininterrupto. Cão de busca. Fêmea. Pronta para salvar uma espécie que não era a sua. Para o mundo, não precisava de nome. Mas tinha. Chamava-se Cerys. Nome simples, de origem galesa, que significa “amor”. E talvez não houvesse nome mais justo. Ela não amava com gestos humanos, amava com o faro, com o silêncio, com a entrega. O filósofo Emmanuel Levinas dizia que o rosto do outro é um chamado ético. Cerys, ao farejar corpos sob a lama, respondia a esse apelo sem precisar ver rostos. Bastava-lhe seguir o instinto, mover-se com a nobreza dos que servem sem calcular o esforço.

    A cidade estava submersa. E sob as águas, escorria a lama. E sob a pastosa camada da terra, os corpos. Centenas deles. Cerys sabia. Farejava. Não chorava. Não latia. Não tentava consolar. Só cumpria. Enfiava-se entre os destroços com o faro tenso, feito corrente de aço pendendo do pescoço. Era isso que fazia. Era isso que sempre fizera.

    — Vai — disse o homem-bombeiro, com a voz de quem sabe que não adianta pedir desculpas por nada.

    Só naquela manhã, foram três.

    Um corpo de mulher, rosto já indistinto. Depois, um velho, metade preso sob os escombros da própria casa. Por fim, uma criança. Pequena. Encolhida. Como se ainda esperasse que alguém dissesse: “Calma, já vai passar.”

    Na mão da criança, um ursinho inchado de água e silêncio.

    Cerys sentou-se ao lado do corpinho sem vida. Apenas isso. Sentou. O homem-bombeiro entendeu. Aproximou-se devagar, como quem não quer acordar o que já não sonha mais. Agachou-se. Fez um afago sincero atrás da orelha da cadela. Disse baixo:

    — Mais um, parceira.

    Depois, nada. Nada além da lama. Do cheiro da morte. Do silêncio.

    No noticiário, um representante do governo apareceu para acalmar a população. Disse que o sistema funcionara. Que a resposta fora rápida. Disse estar orgulhoso do trabalho das autoridades. E que, em breve, haveria lares para todos os desobrigados. Promessas falsas.

    Não falou da cadela.
    Não falou do homem-bombeiro.
    Não falou da criança.

    E o silêncio, aquele mesmo que já havia sido farejado ali por dois seres que sabiam escutar com a alma, espalhou-se feito mofo em parede úmida.

    O homem-bombeiro sabia: seu sacrifício não seria lembrado. Já Cerys, essa não podia saber. O tempo que havia dado ao ser humano não lhe traria fama. Morreu jovem, aos cinco anos, em decorrência de uma leptospirose contraída no lamaçal. Morreu sem saber da glória. Mas soube servir. E isso, talvez, seja o que resta de mais nobre no que ainda ousamos chamar de amor.

    A travessia de Cerys foi feita em cortejo, ladeada pelos companheiros de farda do respeitado Corpo de Bombeiros de sua cidade. E a ela, enfim, foram rendidas todas as honras.

    *História fictícia em homenagem à cadela Cerys, especialista em salvamentos em locais de difícil acesso.

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