Vovós tagarelas?

  • Vovós tagarelas?

    Minha mãe chegou à velhice. Só pode! Anda muito pensativa e, se a gente pergunta, ela resmunga. Não quer ser interrompida em seu silêncio. Sabe por que eu sei? Porque me lembra a minha avó, a mãe dela. Ela também passou a ser econômica com as palavras.

    Poxa, ela era tão nossa amiga! Perguntava da escola, das bonecas, das colegas de sala. Contava coisas engraçadas, como quando pescou um peixe com o pai dela. Que o bicho se debatia no anzol e ela não sabia dizer como ,  mas o danado caiu em cima do seu pé. E ela falava que o peixe tinha furado o pé dela. A gente, com cara de espanto e sem acreditar, insistia: que peixe é esse, vó, que tinha bico?

    E ela ia lá dentro buscar um livro com um desenho de peixe espada, só pra dar efeito na história.

    — Olha aqui, Anita, como existe peixe com bico!

    Nisso, se passavam os dias, e era muita coisa que vovó contava. Como quando o neguinho do pastoreio salvou um menino que se perdeu em meio à boiada; 

    — O menino subiu na cerca e, depois, em cima da porteira pra ver a boiada passar.

    Ela começou:

    — Não tinha perigo, os peões passavam por ali sempre e sabiam bem dominar o gado, pra não estourar;

    — O que é estourar, vó?

    — É quando acontece alguma coisa que faz os animais se assustarem e sair daquela espécie de procissão por onde eles vão viajando. Estourar uma boiada é a pior coisa que pode acontecer! Esparramam, entram no mato, pisam em plantações, nem queira saber o quanto dá trabalho e problemas um estouro de boiada. Pois então… nesse dia não houve estouro. Mas houve um redemoinho de areia que tapou os olhos dos peões e o gado foi para o lado da cerca onde estava o menino. Quando passou essa espécie de ventania e os vaqueiros conferiram se estava tudo bem com o gado, deram falta do menino em cima da porteira. Peões são responsáveis por tudo que acontece no percurso do gado. Aí começaram os gritos pelo menino. Homens voltavam lá ao fim da boiada, outros iam para o lado da cerca, e nada do menino. O chefe da comitiva tocou o berrante, parou toda a tropa e a boiada, desceu do cavalo, ajoelhou-se no chão e pediu ao neguinho do pastoreio que mostrasse onde estava o menino. Mal terminou a oração, o gado saiu de um lado e abriu-se uma clareira. Bem ali, no mourão que segurava a grande placa de aroeira com o nome da fazenda ouviram o choro do garoto. Ele se desequilibrou e caiu de uma altura de três metros. Estava ali apavorado até que foi salvo pelo neguinho do pastoreio. Apavorados ficamos nós só de imaginar o acontecido!

    Contou também sobre existir galinhas tão felizes que botam  dois ovos por dia; e que ela aprendeu a ser costureira  fazendo à mão roupas de bonecas. 

    Nós tínhamos nela uma enciclopédia, uma contadora de histórias, uma defensora, uma amiga adulta. A diferença de idade não nos tornou estranhas.

    Com o tempo ela mudou. Ou nós mudamos. Sei que acabaram as conversas. Como um fogo vai perdendo as labaredas, depois o vermelho da brasa, até ficar tudo cinza, ela saiu de cena. 

    Agora parece que estou revendo esse filme. Um filme em que sinto minha mãe muito calada. Também não sou mais uma menina. Tenho filhas e filhos. Outra geração. Não olham ou cuidam, ou convivem com os idosos. Mas ela mora com minha irmã e temos ainda o costume antigo da família. Nos reunirmos à tarde para tomar um chimarrão e conversar.

    Como eu percebo agora, minha mãe não é mais a mesma; tornou-se coadjuvante.

    Fala pouco, como se não valesse a pena falar; como se ao calar-se ela ficasse melhor.

    Como se não houvesse nada a ser dito.

    — Que tá pensando, mãe?

    — Nada, ela responde.

    O médico nos aconselhou a estimular a conversação.

    Minha irmã Laura leva um vestido para pedir uma opinião, eu falo onde vamos no final da semana, e vamos colocando assuntos para mantê-la tagarelando com a gente.

    Eu a conheço bem. A busquei e levei ao médico  por muitos anos. E sabia quais assuntos a interessavam. Não falava de pessoas. Falava de mundo, de histórias, de imaginação. 

    Sentada na sala de costura de Laura, dando seguimento à profissão da terceira geração de mulheres da família, buscamos assuntos.

    — Mãe, já pensou as 24 horas serem só dia?

    — Eu gostava. 

    — É mesmo, mãe?

    — O dia é bonito, tem clareza, tem luz própria. Noites não me atraem. Escuro, barulhos característicos como o dos grilos, das corujas, os latidos dos cães no silêncio da escuridão. O amor dos gatos com miados, uivos, lamentos. Os desiludidos, bêbados, ou miseráveis saem mais à vontade no escuro da noite. A noite se dispõe às lembranças tristes, saudades longínquas, arrependimentos.

    Elas não têm belezas que possam tocar a alma. Quem diria da noite: “vamos ali ouvir os grilos”. Ela falava já com a voz mais baixa, como quem conta segredos.

    — Verdade, respondeu Laura, entre uma arrancada e outra nos pedais de sua máquina de costura.

    — As noites de luar são bonitas. Nos campos, então. Mas duram pouco. O dia convida a banhos de rios, passeios em jardins, pegar frutas em pomar e um mundo de coisas prazerosas. Poderia durar dias, e todos iam achar o que desfrutar. 

    E mesmo nesse dia eterno,  haveria horas certas para as pessoas dormirem. Vocês acham muito estranho? 

    Não respondemos. Era a vez dela falar. 

    — As noites, elas que me perdoem, continuou minha mãe, nunca me deram nada de bom. Só dormir, quando já não tinha mais crianças pequenas. Sem remédios, quando dormíamos o que diziam ser o sono dos justos. Ou o cansaço com a lida.

    — Até parece, digo, para provocar uma reação. 

    — Como se eu não conhecesse bem a senhora.

    — Ultimamente a senhora não quer mais nem sair. 

    Apenas ganhei um olhar gélido. Não retruco. Ela tem um gênio forte e não tenho a intenção de provocar briga.

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