Vou te contar o que vim fazer aqui. Faz algum tempo, uns meses já, que meu desempenho ao piano não avança. Estava muito preocupada em especial quando tentava executar “A Chegada da Rainha de Sabá”, de Handel. Pela sua cara nunca escutou, mas não tem problema é uma composição alegre, um pouco difícil eu admito, mas que merece ser tocada com precisão.
Vai daí que ultimamente não tenho obtido nenhum progresso. Meu professor tem me olhado feio e insistido que não estou me esforçando. Eu pratico bastante mas sabe o que aconteceu?
Aos poucos fui percebendo que algumas notas aparentemente fáceis e até básicas da composição não estavam saindo direito.
Foi então que ouvi dizer que os pianos eventualmente carregavam os espíritos da natureza.
Todo piano é feito de madeira, você sabe, e ela traz em si essa ligação com a mãe-natureza, foi o que me explicaram.
Quando corta a madeira esses espíritos são separados dela, ficam perdidos. Desde então eles vagam de um piano para outro buscando seu lar. Nessa busca eles assombram os pianistas.
Por vezes você vai tocar e o som sai tão pesado que parece que tem um elefante dentro do piano. Em outras ocasiões esses espíritos travessos camuflam a nota tocada certa tornando-a ruim.
Enfim, um inferno.
Ai me disseram que precisa pesquisar de onde vem a madeira do piano. Foi um trabalhão, já te digo. Meu piano é um Fritz, Fritz Dobbert. É, parece alemão, não é ? Só que não, porque a Frtiz Dobbert fabrica pianos no Brasil há quase 100 anos. Portanto, os espíritos são brasileiros certo? Aí a coisa complica.
Com esse caldo de culturas que a gente tem que misturou índio com português, com africano com europeu, com jacaré e cobra d’água não dá para ter certeza da origem desses espíritos.
Eles todos se misturaram aqui também.
Os que moravam na árvore que foi cortada para fazer o piano se juntaram com os que vieram de fora, nos navios. Pensa, se as pessoas fizeram isso, por que não os espíritos? Tudo é possível nesse mundo fantástico que nos cerca, acredite em mim.
Por isso que eu vim aqui. Me disseram que esse Xamã era a última palavra em conhecimento sobre essas coisas espirituais, sabe. Nem estranhei que ele ficava aqui em Copacabana mas tudo bem, o bairro é grande e tem de tudo um pouco, estou acostumada.
Você sabia que ali um pouco depois da galeria Menescal tinha uma vidente turca que lia a sorte na borra do café? Menina, era uma coisa de louco! Não errava uma, segundo uma tia me contou que ficou sabendo por uma vizinha cuja prima veio de Minas só para se consultar. Tiro e queda.
De qualquer forma, meu assunto aqui é um pouco mais focado, eu diria. Tenho fé que o Xamã vai me orientar, vai iluminar meus caminhos. Tomara que não me peça para fazer sacrifícios com animais que isso faz uma sujeirada da nada.
Queimar incenso e até um fuminho assim diferente, se é que você me entende, eu topo.
Opa, minha vez, até daqui a pouco amiga. (um tempo, assim, não tão grande depois…)
Você não vai acreditar. Estou passada. Vim para pedir orientação ao Xamã e ele foi rápido como quem rouba. Depois de me escutar relatar o que estava acontecendo ele me perguntou quantas horas eu pratico ao piano. Eu respondi que duas horas por dia. Sabe o que ele me disse? Que se eu dobrar para quatro horas os espíritos irão embora.
Acho que o Xamã está gozando da minha cara.