
A extinção dos Bocanegra
Houve um tempo em que na casa dos Bocanegra a vida era tranquila, quase imóvel. O tempo, para os membros da família, passava como passa o tempo para as vacas num pasto verdejante: sem pressa, modorrento e com fartura de grama para mascar. Uma história pode começar em qualquer lugar e em qualquer momento, e é necessário ter fé em quem a conta para que se acredite no que é contado. Acreditem em mim: a história dos Bocanegra e de sua extinção está cheia de nós, vãos, vazios, fendas, brechas. A existência de razão, ou a ausência dela, depende do ponto de vista pelo qual se escolhe analisar o que aconteceu, mas é a expressão da verdade. Eu vi, eu testemunhei. Acreditem.
Eis aqui, para quem quiser saber, o triste caso da extinção dos Bocanegra, família que sobreviveu com sucesso aos dinossauros, às pestes em geral, às guerras, às pragas todas, às epidemias e à fome. Chegou bravamente até nossos dias, mas destes não passou.
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Aos domingos havia o sagrado almoço na casa da velha matriarca viúva, ocasião em que filhos e filhas, genros e noras, cunhados e cunhadas, sobrinhos, primos e agregados apareciam para o beija-mão semanal e para compartilharem a comida, os comentários, as críticas a tudo e os xingamentos distribuídos no ar de maneira indistinta e inconsequente. Enquanto comiam, conversavam, e nisso não havia nada de estranho. O repertório das ideias e palavras jogadas no ar era variado e cada membro tinha pronto o seu pequeno veneno para destilar, tarefa realizada com entusiasmo por todos. Lançavam farpas uns contra os outros entre uma garfada de ironia e um gole de vinho tinto, como costuma acontecer quando há muita gente no mesmo ambiente. À mesa, todos falavam ao mesmo tempo e as opiniões acerca de qualquer assunto eram expelidas da boca junto com a respiração do falante, caíam sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana e invariavelmente alcançavam algum ouvido disponível naquele momento. O dono do ouvido disponível fingia não ter percebido a provocação e mudava de assunto. Isso sempre acontecia de forma aleatória, sem prévio acerto entre os integrantes da família. Assim, nunca havia atrito entre eles porque não era possível determinar se alguém tinha ofendido intencionalmente o outro. Tudo muito civilizado, emoldurado por sorrisos amarelos ou francas gargalhadas. Passavam de um assunto morto para um natimorto enquanto devoravam lasanhas, postas de peixe com alcaparras e rosbifes no ponto certo e vermelho da carne. Após a refeição e a sobremesa, o cafezinho e o tradicional jogo de cartas, outra oportunidade para continuarem o lançamento de mais e variados dardos uns contra os outros. No final da tarde, despediam-se com beijos e abraços e confirmavam a presença na semana seguinte.
A farra dos domingos durou meses, talvez anos. Durou, é forçoso dizer, o tempo necessário que devia durar, porque em qualquer família é assim: nada é, o tempo todo, o que parece ser e nem tudo permanece do jeito que está para toda a eternidade. A convivência, forçosamente, chega a um ponto irreversível de desgaste. E também porque na vida não há nada sem separação, já decretou o compositor, que na mesma canção se conformou: a vida tem sempre razão. Com os Bocanegra não foi diferente.
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Muitos domingos depois, o clima em volta da mesa beirava o insuportável. A matriarca, que antes tomava sua sopa com os olhos baixos, passou a erguê-los e a encarar cada um dos membros para entender o que se passava em sua família. Nos últimos tempos, o silêncio que de repente se instalou na sala de refeição podia ser cortado com faca, tão espesso era. Possibilitava que todos ouvissem o ruído dos talheres se chocando contra os pratos — isso era assustador! Os olhares, mudos, soltavam faíscas. Aos poucos, as palavras voltaram a frequentar as refeições, mas, quando saíam das bocas, não mais flutuavam aleatoriamente sobre a toalha de linho ou sobre a porcelana. Assim que se desprendiam dos lábios, as flechas verbais iam certeiras para o destinatário, que agora tinha nome e sobrenome. As opiniões, antes inofensivas e etéreas, vinham acompanhadas do olhar fulminante do emissor. Os telefones celulares não tinham descanso e eram usados com destreza para provar de maneira irrefutável o que queriam dizer, desde a cunhada que tinha ingressado na família havia poucos meses e não imaginava que havia bichas no seio de família tão distinta, até o primo marxista que era tratado com deboche. Está no Google, vejam aqui, dizia um agregado para provar uma tese. Eu recebi essa notícia de uma fonte muito confiável do Whatsapp, alardeava uma nora. O sobrinho gay entrava na conversa e, para mostrar erudição, indicava notícias escritas em inglês sobre o assunto que estavam discutindo. As mulheres passaram a se estranhar umas às outras. Uma delas comentou com a sobrinha sobre como aquela cunhada tinha ficado tão vulgar. Onde já se viu usar um decote desses, com a idade que tem? É quase uma centenária, Deus me livre! Pensa que vai arranjar outro amante?, ironizou. Os homens riam na cara uns dos outros, um dizia que tudo iria melhorar no país, o outro retrucava indicando o corredor da casa imensa, dizendo que lá no fundo estava a Idade Média e que lá era o lugar dele. Um outro batia o punho na mesa e quase chorava ao repetir o que tinha ouvido na assembleia do partido: só haverá justiça quando todos repartirem o pão. E engolia com gosto um naco grande de galinha ao molho pardo. Bicha cega comunista, retrucava, entredentes, a cunhada sentada na frente dele.
As crianças e os adolescentes se divertiam mais, trocando entre si os insultos e impropérios que aprendiam na escola e nos sites da internet. Eu vou fazer um golden shower em cima de você, riu o adolescente, ameaçando abrir a braguilha e olhando para a priminha de cinco anos.
O barulho de murros dados na mesa tornou-se uma constante durante o almoço de domingo. Nos duelos verbais, nem um só laço afetivo permaneceu apertado. Ninguém mais ficava para o cafezinho ou para o jogo de cartas. E assim as reuniões semanais deixaram de acontecer. A matriarca passou a tomar sozinha o seu prato de sopa enquanto dedilhava a tela do celular à cata de notícias de que gostava de ler, enviadas por um afilhado trumpista roxo que morava nos Estados Unidos. Ainda vou morar naquele país, pensava a velha. O silêncio era total na mesa em que agora só estava sentada uma pessoa. A estupidez, por fim, fizera morada na mesa dos Bocanegra.
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Hoje mal se falam. Ou melhor, hoje não se falam. Quando se encontram por acaso no centro da cidade, fingem que não se conhecem. Mudam de calçada. As mulheres não frequentam mais o mesmo salão de beleza nem pisam no mesmo shopping. Os homens fizeram o que nenhum homem faz: passaram cada um a torcer para time diferente de futebol (não queriam correr o risco de terem de se abraçar para comemorar o mesmo gol) e também mudaram, cada um, o banco onde guardavam o dinheiro investido para o futuro das crianças. Não se cumprimentam mais nos aniversários. Assim como os almoços de domingo, a família deixou de existir. Têm poucas fotos juntos, que não dão para encher um álbum. Não deixaram rastro de sua passagem por este mundo. Elo frágil de uma apodrecida cadeia de relacionamentos, os Bocanegra sucumbiram à era da falta de delicadeza e de empatia e desapareceram da face da Terra. Como aconteceu um dia com os dinossauros. Só que, destes, conhecem-se as pegadas e o esqueleto. Daqueles, nem isso.













