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  • mar- 2007 -
    24 março

    A Quarta Dimensão

    Levantei da cama. Pela janela do quarto do hotel antigo vejo a madrugada nas luzes insones da cidade. Sei onde estou, mas isto não tem nome. Estou que não mais sei. Entre lençóis ela, a mulher de bruços, adormecida de mim e sou seu silêncio. As palavras que trocamos nos toques de nossos gestos sexuais ainda ressoam seu cheiro íntimo. É o som do desejo, você conhece? O lobo já se precipita nos meus pés crescidos. Lembro, antes que ele me domine todo o corpo, que a velha estação do trem é bem próxima do hotel, uma quadra ou duas. Lá os trilhos apontam fugas e destinos. Bom lugar para a fera. Desenho com as mãos um afago no ar na direção dela e reparo nas unhas crescidas. Como um susto viro rápido o corpo nu e me lanço no espelho da parede oposta à cama. No peito dispara o coração animal. Sou o espelho, a imagem nele é o quarto sem mim. Apenas a mulher sobre a cama e a ausência de quem a amou é nítida nos vestígios sobre o branco dos lençóis em desalinhos. Como a amei… Um último olhar antes de me trancar no estreito banheiro, …

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  • ago- 2006 -
    5 agosto

    Um pouco de felicidade

    Particularmente, eu gosto da Praça Mauá. Passo por ela quase todos os dias, indo ou voltando do trabalho. O trânsito é estressante, as pessoas se esquivam sem se olhar, e ainda assim me agrada. De manhã, o corre-corre assusta: passos apressados, buzinas impacientes, motoristas malcriados. Afinal, ali começa a Avenida Rio Branco, a mais movimentada do centro do Rio de Janeiro. Mas eu gosto. Gosto de saber que, no meio do caos, ainda sobrevive um restinho de boemia, um fiapo de solidariedade. À noite, tudo se transforma. É como se a praça trocasse de pele. A agitação continua, mas de outro jeito, paradoxalmente mais lento. Às vezes, sem motivo nenhum, sento num banco e fico ali, quieto, por horas. Observo o vaivém frenético dos carros, o tropeço dos transeuntes. E, no fim, o que me prende sempre é o ser humano. Foi assim que conheci a família de Zirão. Ele dizia ter vinte e seis anos, mas aparentava mais de trinta. Ainda assim, liderava sua pequena tropa com calma. A mulher, bem mais velha — quarenta, talvez quarenta e cinco — observava seus gestos com um ar de aprovação. O filho mais velho, um garoto de uns treze anos, a …

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  • fev- 2006 -
    25 fevereiro

    Sal ou doce? — Biscoito Globo, quem vai?

    Foi esse o chavão que aprendi a escutar nos sinais de trânsito e nos pontos de ônibus cariocas desde que cheguei ao Rio, lá nos anos de 1990. Mas a verdade é que o Globo já caminhava pelas ruas muito antes de mim. Mais de quarenta anos de história, embalagens imutáveis, sabor cristalizado no tempo — como se fosse um pacto silencioso com a cidade. As rosquinhas de polvilho, crocantes e viciantes, custavam quase nada: um ou dois reais. Mas quem come uma nunca fica só nela. A segunda vem fácil, a terceira inevitável. Até o saco esvaziar e os farelos denunciarem a gula na camisa ou no banco do carro. O próprio slogan não mente: “o biscoito que você não pára de comer”. Na Avenida Brasil, Via Dutra ou na Linha Vermelha, madrugada ainda fresca e motores presos no engarrafamento, lá estão eles: camelôs surgindo como miragens. Carregam nos braços os saquinhos brancos com aquele bonequinho-mapa-múndi sorridente. Verde para o salgado, vermelho para o doce. E eu, invariavelmente, caio na tentação. Sempre digo a mim mesmo que vou resistir. Nunca resisto. Abro o pacote, começo a comer, e só percebo que acabou quando o vazio do saco pesa mais …

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