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out- 2025 -4 outubro
Festa ao Entardecer
Daqui a poucos dias faço aniversário… O que vou pedir de presente? Alguma lembrancinha, mais para atender aos filhos e netos que me olham atentamente, tentando adivinhar meus sentimentos, ou meu estado de espírito, nesse dia que me leva cada vez mais ao entardecer da vida. Eu os conheço bem: cada um, à sua maneira, vai me sondar, tentar “me ler” nas entrelinhas. Não os condeno, pois por longos anos também passei pelo estranho papel de me sentir mãe, em vez
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3 outubro
Ultimo café
Contemplou em silêncio o burburinho alegre à sua frente. Da mesa de canto no terraço onde estava sentado espiava as demais espalhadas. A maioria com casais, fora uma grande com seis pessoas. Na sua, permanecia só. O sol da tarde era ameno e com luz leve. Escondido atrás do telhado da cafeteria, fazia sombra em sua mesa. Enquanto todos tricotavam alegremente sob o sol gentil, ele permanecia silencioso na penumbra. Uma variedade de sucos, doces, chás e cafés
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2 outubro
Febre de sentir!
Algumas pessoas têm habilidade em se doar, sentir que em sua condição humana há mais espaço para atender aos interesses dos outros ao invés de suas próprias dores cotidianas. São indivíduos que emocionam em manter uma relação mais frequente com o outro trocando ideias, pensamentos, conversas, sem pedras nos bolsos, que são raras e caras para muitos. Já, as pessoas pesadas, pessimistas e invejosas, tornam as relações diárias um prato azedo e temperado com s
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2 outubro
ARREBATADO
Quase morto de sede, o homem implorou ao céu por chuva, mas não caiu uma gota. Olhou pra cima e não viu uma só nuvem, só luz e azul. Rogou uma praga. Perambulou pela estrada poeirenta, o sol na cabeça. Viu algo no meio do caminho: uma escultura de madeira que alguém jogou fora. Era um rosto, uma cabeça. Uma cabeça completa. O homem a pegou nas mãos e a acariciou. Limpou a poeira e viu surgirem uns olhos, um nariz, uma boca. Um rosto. O rosto de um santo? E
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1 outubro
A tarde e a crase
Quando Carlos Emilio Faraco disse: “Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase”, não falava apenas de gramática. Ele nos oferecia um jogo perigoso, desses em que uma vírgula é um abismo e um acento decide o destino de uma frase. Um duplo sentido que escancara a língua como ela é: erótica, sedutora, quase obscena. Sem a crase, “a tarde” é um corpo inteiro: pedaço de vida, presente concreto, quase palpável. Algo que se pode dar: como s
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1 outubro
Nosso mundo
Enquanto meu filho brincava, eu atestava a sua inteligência e engenhosidade, emocionado. Como ele crescera rápido? Ao mesmo tempo em que me surpreendi, me assustei, como se um portal se abrisse em minha frente. A verdade é que não acompanhei bem seus últimos dois anos. Claro, ocupado com o trabalho e as infinitas obrigações do dia a dia, perdi um pouquinho do seu desenvolvimento. Não, perdi muito, e o tempo não volta atrás. Na hora me apercebi disso e me d
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set- 2025 -30 setembro
Não basta ser leitor, é preciso parecer também
De uns tempos pra cá, virou moda fingir-se leitor ou leitora. De fachada, claro. Nas fotos do Instagram, o rapaz ou a moça é visto ou vista lendo clássicos, carregando ecobags com estampas de livros e autores. Querem posar de inteligentes, eruditos, atraentes. Vejo um rapaz, na academia, com corpo escultural e músculos definidos, lendo No Caminho de Swann, de Proust. As memórias de um escritor francês que ele nem sabe quem foi. No metrô, uma moça carr
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29 setembro
Avarias
Na sala do apartamento que dividia com Mila Cox, Zími cantava e tocava no teclado dela uma versão de ‘Always the sun’, dos Stranglers. Usando apenas acordes rudimentares, executou a canção de maneira belíssima. A rouquidão de sua voz, a falta de técnica vocal e a embriaguez tiveram efeito favorável para o resultado apresentado. Mila Cox e Silvano observavam. A visceralidade mostrada ali, do nada, com Zími alcoolizado, improvisando, era algo tão
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29 setembro
Poema #39: House Of Dying
FebreSudoreseIncontinênciasVômitosSitofobiaExcesso de salivaFalta de arPalidezConvulsõesFeridasGritosRoncosFedorEspumas na bocaExcesso de gáscatinguentoDor no calcanhare cansaço no mesmo. Uma pequena listado que somos eainda tem genteque se jacta. O Jardim Simultâneo
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28 setembro
Metacrítica
Como uma sugestão literária pode desencadear reflexões íntimas A taça agora reflete um leve nuance púrpuro, apenas; eu, nesta fria estadia serrana, pretendia perder-me entre os dois novos volumes machadianos, ou, quem sabe, afogar-me nos sentimentos mais belos e tristes que só um romance épico da literatura infanto-juvenil de Budapeste apresenta-nos. Mas é fim de setembro, principia o inverno e a neve não virá, como sempre. Minhas mãos voltam-se para as te
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28 setembro
Poema: #12: UM LAÇO E UM NÓ
Um laço e um nóe o engasgo e o silêncioa palavra muda amordaçada e nadado que fizera antes apagao fluxo do poema e da prosae as mãos frágeis do poeta-cronistatentam a todo custo segurar o textoo desejoa insensatez e a loucura e o rio de letrassílabas palavras-peixe e amores brutosum laço e um nó e o engasgo e o silêncioa palavra matae cala e se calaafrouxa e apertaafrouxa e apertae joga e rolae deita e colaafrouxa e aperta e águae mais água inundam o ser e
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28 setembro
O botox da Monalisa. Quando a estética paralisa também os sentimentos
O sorriso é universal e uma das únicas expressões que já nascemos sabendo fazer e reconhecer, não importa o lugar do mundo onde estejamos. Segundo o dicionário, é uma expressão em que os lábios se curvam nos cantos, e é essa curvatura que acaba dando o tom do sorriso. Normalmente, com os cantos voltados para cima expressam alegria, contentamento, felicidade. Ao contrário, se fizerem uma curvatura ligeiramente para baixo ou de forma assimétrica podem expre
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27 setembro
As voltas que o mundo dá
Cada dia mais me convenço de que o universo se comunica com a humanidade por sinais sutis e precisos. Essa linguagem delicada costuma ser nomeada, por muitos de nós, como coincidência ou intuição. Eu, de minha parte, acredito tratar-se de um idioma ancestral, com o qual perdemos o contato, há muito tempo, mas permanece cifrado no nosso íntimo. Vez por outra, algo reconecta a sintonia perdida e decodifica a mensagem. Exemplo disso aconteceu hoje: estava me
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25 setembro
Os olhos dela
Ele ia deixá-los abertos, os olhos dela, mas decidiu cerrá-los para parecer que dormia. Conheceram-se numa festa de final de ano, na casa de amigos. Ele gostou do jeito e da graça com que ela levantou a taça de vinho durante o brinde para a contagem regressiva. Viu quando ela tomou um grande gole no “zero!” e abriu os braços para cumprimentar quem estava próximo. “Quero ela, quero essa boneca pra mim”, ele pensou, excitado. Já era quase de manhã quando cam
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25 setembro
Tempo da mudança de atitude!
Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências que vivi. Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço. Quando fui a escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula,
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24 setembro
Mano velho
Já não tenho tempo para nada, com oitenta e nove anos. Ele, o dono de tudo, se esvai, mais lento que outrora. Não suporto os achaques e as dores, que me atacam diuturnamente. A velhice é uma covardia, uma falsa esperança. O que posso esperar daqui para a frente? Muita coisa mudou. Minha amada esposa, Salete, se foi muito cedo – mais cedo do que eu previa, com sessenta e cinco anos. Ela, como quase todas as mulheres de sua família, teve câncer de mama. Um p
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23 setembro
Reencontros
Reencontrar alguém é como ganhar presente de Natal antecipado, de aniversário ou de amigo oculto. É como se, de certa forma, fosse possível voltar ao passado, reviver um tempo antigo de alegrias e ingenuidade. Outro dia reencontrei uma amiga que não via há três ou quatro anos. Ela é médica e, há vinte anos, ajudou a criar um grupo de teatro para adolescentes. Na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, naquele campus cheio de árvores e flores, vivi alguns
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22 setembro
Cheiro de jaula
Ainda era um pensionato aquela casa da rua Humaitá, onde Zími sempre parava na frente quando passava por ela, e ficava olhando durante a duração de um cigarro . Ele havia morado lá por alguns anos, atravessando o período da pandemia ali. Aquele lugar não havia sido a sua última moradia antes de dividir um apartamento com sua parceira musical Mila Cox. Ele alugou o quarto menor no apartamento de seu irmão mais novo, e ficou ali por seis meses. Era o prazo q
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22 setembro
Poema #38: Em Brancas Nuvens
Alguns dos meuspoemas são comoletras de músicasem música. Alguns dos meusgestos são comoatos de uma peçasem atores. Alguns dos meussonhos são comoum comício públicosem plateia. Alguns dos meusatos são comoum filme mudosem cenário. Alguns dos meusdelírios são comouma transgressãoda vida no sonho. Muitas das minhasloucuras são comoa minha própriavida & literatura,inéditas no finaldas contas. Inventário de Sombras
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22 setembro
Poema #05: Não É Aqui, Mas Perto
Estou debruçadosob a fagulha do instante.Me distorço enquanto crioa ilusão de um esboço para algoque sequer sei o quê. Ouso um salto, um pêndulo.Giro de cá e de lá.Laço-me à vertente de um vértice,dobro os olhares e os reviro, o sintoma.Tu, que me devoraste. A vertigem do hoje faz horaHá tempo… Apressa-te, que o passo é passado.Vagueia a tormenta, é futuro.Perdoa o vivido, é achado.Lamenta, já se fora perdidofeito pássaro garrido,debatendo-se,sangrando,só,
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21 setembro
Por que falar de amor?
Por que falar de amor? Por que falar do amor? Tantos versos já eu sei… Versos que foram escritos e vistos e sentidos com bocas e ouvidos, com café ou sem café, mas com açúcar e afeto? Por que falar de amor? Por que falar do amor? Tantas linhas e parágrafos já eu sei… Linhas que foram exaustivamente escritas e revistas com precisão do olhar? E que amor é esse? O amor falado, escrito, sentido, ralado, confessado, absolvido e absorvido em todos os
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21 setembro
O retratista fiel
Folhear álbuns de fotografias antigas — em papel ou digitais — tem me causado um certo estranhamento, uma sensação de que os ambientes, as pessoas, as fisionomias não eram bem assim como estão retratadas. Na foto do meu aniversário de 15 anos, o vestido que, à época, me fez sentir uma princesa hoje mais parece um tule de cobrir bolo. Difícil acreditar que fui eu mesma quem escolheu aquela roupa, que em nada me valorizava. Na varanda da casa onde morei com
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20 setembro
QUARENTENA
Com um sobressalto, fui arrancado da cama por um sonho apocalíptico. Ainda grogue e alarmado, abri as cortinas e meu humor logo mudou. Lá fora, me acenava um maravilhoso céu azul. Era sábado de aleluia. Aleluia! Que lindo sol! Um dia claro com temperatura amena, típico do início de outono. Perfeito para uma caminhadinha ao ar livre. Os gerânios do jardim do vizinho pareciam mais vivazes do que nunca. Um par de borboletas azuis bailava graciosamente a seu r
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20 setembro
Enxurrada
Quem morou em cidades do interior, em tempos idos, vai se lembrar da enxurrada. Do barulho, da intensidade, da cor, do tempo que durava. Hoje, talvez, poucas crianças tenham visto, ou até mesmo ouvido falar dela. Esse fenômeno da natureza não era o evento em si, mas a consequência. Ainda assim, tinha tanta força que me deixava suspensa na janela, olhando. A causa era a chuva torrencial. Quando amainava, virava pingos esparsos, ou garoa fininha. Só então po
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20 setembro
Eu vejo flores em você
Não tem nesse mundo quem nunca escutou falar que as palavras têm poder, seja para tornar realidade o que estava no campo dos sonhos, seja para elevar ou destruir alguém. Eu mesma lembro de algumas palavras que, atiradas contra mim, me fizeram sangrar por um tempo, assim como guardo na memória outras que funcionaram como unguento. Além do poder que lhes é peculiar, acredito, que elas também possuem altura, largura e profundidade, mas nem sempre nos damos co
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19 setembro
Com um tirano na barriga
“Fulano tem um rei na barriga”, todos conhecem o dito e, sem dúvida, ao menos uma pessoa que se enquadra no tipo que ele procura representar. De igual maneira, há quem possua um tirano na barriga. Mesmo que nunca tenha ouvido a expressão, tenho certeza de que o leitor conseguirá apontar alguém com essa característica. Esse tirano é também rei. Por vezes, crê ser um deus. O certo é que sempre corresponde a um déspota, mas nunca esclarecido (especialmente so
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19 setembro
Ruptura
Toda vez que olhava pela janela era em busca de distração. A vista não era de frente para o mar mas também não era para alguma parede. Do alto de sua janela avistava a cidade com sua arquitetura confusa e mista. Prédios clássicos que evocavam o passado de glória do bairro resistiam em meio a edifícios decadentes e lançamentos imobiliários de residências claustrofóbicas. Durava pouco a tentativa de desviar a atenção. Invariavelmente algo a puxava pelo pé e
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18 setembro
Cruel
— Estou aqui, Maria Helena. Quando recebeu o recado, ele não deu pelo motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados havia mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões, tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele, as coisas também não tinham sido fáceis
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18 setembro
Mundo Além das Quinas!
Há uma caixa no centro da mesa. Você a conhece bem: é quadrada, de paredes rígidas, com cantos precisos. Dentro dela cabem todas as respostas que você aprendeu a repetir, os “porquês” que não precisam mais ser questionados e os caminhos que todos já pisaram. O pensamento dentro da caixa é seguro, previsível, quase um ritual. Mas e se, em um dia comum, você resolvesse escalar suas paredes e olhar para além das quinas? Acontece que o “fora
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17 setembro
Brazilzão
Não falo de Clarisse, pelo contrário, ela se mostra ser uma pessoa de bem, engajada, fervorosa com os princípios das “quatro linhas da Constituição”. Falo de Sérgio, que se debandou para lá, pro lado comunista. É um tremendo de um traidor e vacilão. O casamento deles está um pandemônio. Imagine conviver com um comunista, que está pronto para matar um adversário a qualquer hora; que está repleto de ideais do mal; que quer ver a desgraça de toda uma sociedad
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