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set- 2025 -17 setembro
O menino que pintava cidades
Sempre identifiquei as cidades pelas cores. Mesmo antes de visitá-las, ainda garoto – empinando pipas nos arredores de casa ou jogando bola dente-de-leite pelas ruas – eu já sabia que o Rio de Janeiro era azul, igual ao céu em dia claro, e São Paulo, de um cinza faiscante. Pensava nisso e começava a desenhar em um papel pequenos quadrados, dentro dos quais escrevia os nomes das cidades. A partir dali, cada uma passava a ser classificada por uma
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16 setembro
Entre Rolês e Rodeios
Já disse em algum lugar — não lembro onde — que nem o cronista descansa: se deixa o bloco de anotações em casa, não importa. Você ouve uma frase no táxi, na pastelaria, na farmácia, no Uber e sente aquele chamado para a escrita, algo como: ali dá uma crônica da boa. O meu, outro dia, foi a palavra rolê. Com o controle remoto, pulando de canal em canal, vi uma garota falando: “eu acho que a minha grande crítica a esse rolê dos suplementos”. Rolê? Será que o
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15 setembro
O Chute na tomada
Bueninho era o vocalista da banda ‘Impunes’. Ele saiu do metrô na estação Liberdade, a caminho da Rua da Glória. Faltavam sete minutos para as treze horas. Logo chegou ao portão do prédio em que moram Zími e Mila Cox, que juntos são a banda Crop Circles. Era um trajeto curto, onde ele pensou em como algumas influências musicais deles podiam ser identificadas. Mas eram influências obscuras, e eram numerosas também. Muitas delas poderiam ser mais
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15 setembro
Poema #04: Sujeito Itinerário
Sentar-se à varanda e deliciar-se com aspassadas, dos sons da cidade,com a corrente inóspita do tempo… Ao silêncio de um lago turvoque se desdobra,sobre as luzes que escapam, e a vida queexiste… como que omundo as retirasse de si. E notar as ondas eternas das horasque mergulham sob a vastidãode um verso transitório,entre aquilo que se ée o que se fora. Estou farto de uma existênciarelapsa erepentina; deste lampejoimediato que submergee estilhaçao vis
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15 setembro
Poema #37: Um Vazio Suficientemente Cheio
Subtraímos da vidaa sua menor parcelapara o preenchimentode nossas carências. Mas ao assumirmos ocontrole desta mínimapropriedade, sentimos que ela não nos bastaposto que a enxergamosapartada de sua totalidade. Acrescentamos então à vidaa parte restante que faltapara completar a visão quenós temos do seu conjunto. Mas ao nos atribuirmos acapacidade de dispor doselementos de acordo com nossamomentânea vontade, a vida perde a complacência concedidae resgata
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14 setembro
Música Brasileira
Ah! Que saudade da travessia de Milton, das noites com sol de Venturini, do palco de Gil, da construção e das construções de Chico!! O coração aperta com a alegria e as alegrias de Caetano, com as águas de março de Tom e, generosamente, faz lembrar de Madalena de Ivan. O som alcança corpo, alma e coração e, diante de mim, surge um lindo lago do amor, um lagode Gonzaguinha. Faz brotar mais água e um oceano inteiro em Djavan. Devagar, devagarinho, chegam os
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14 setembro
Tatibitate
Meu amorzinho, vamos começar. Vou explicar para você direitinho o que vai acontecer, não se preocupe, estou aqui pra ajudar, viu amorzinho? Qualquer dúvida pode me perguntar, eu estou aqui do seu ladinho o tempo todo. Vamos lá? coloque o pezinho aqui, assim amorzinho, um pezinho pra frente, o outro pezinho pra trás. E a mãozinha precisa estar firme assim, viradinha. Quem lê esse parágrafo logo imagina um adulto conversando com uma criança bem pequena, que
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14 setembro
………….|….|…|…|.|.|…|.
Uma penaRubra, rubor – ruído ruivoFeito item desejadoJaz – ainda que repleta de vidaNo papelão bonito de onde veio NuncaSequerDaliSaiu Enquanto observa o líquido – mesma corrubra, rubor – ruído ruivoDançar serelepe em cristal humanoApaixona-se e queixa-se da sina que lheCabeAbreFechaResta O rubor vem do entalheAfinação do cálamoCalado a observarRêmige de primeira linhaAve-falante-de-peito-roxoAres exóticosMasÉBrasileira – bras
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13 setembro
Para mim e por mim
Hoje eu acordei disposta a me elogiar, admirar meus feitos, reconhecer minhas lutas, relembrar todas as vezes que me levantei de tombos dolorosos e segui em frente. Acordei sedenta da minha essência, de abraçar com carinho minhas cicatrizes, as lágrimas escorridas por trás do muro da fortaleza. Perdoar as escolhas feitas com ingenuidade, que tanto me culpei por achar burrice. Sorri orgulhosa do meu jeito brejeiro de dar nó em pingo d’água… Hoje eu qu
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13 setembro
Realidade Adversa
“Da minha infância querida, que os anos não trazem mais…” “Maringá, Maringá, depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste que eu garrei a imaginar…” “Vento que balança as palhas dos coqueiros, vento que encrespa as ondas do mar…” Aqui, sentada na varanda, Felícia aos meus pés, o sol de setembro ainda ameno e o trinar dos passarinhos me zoando aos ouvidos, eu penso. Sem pressa, sem ódios, sem amor. Como trilha sonora, busco deliberadamente os sons que
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12 setembro
Montanha
A inspiração é forte. A concentração, igual. Olha-se adiante, para cima, em busca de cada reentrância na pedra que permita firmar as mãos ou só os dedos. Meio pé em um calço é o suficiente para subir mais um pouco no paredão. Visto por baixo, a parede parece lisa e impossível de ser conquistada. De perto, a visão é outra. Apoios para as mãos e pés se multiplicam, mas não estão expostos. É preciso atenção e muita observação para achá-los. A cada momento da
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11 setembro
O doce Augusto
Nasceu palhaço, um grande palhaço, mas não se deu conta disso, e ninguém lhe disse. E então passou os anos fingindo uma seriedade que não tinha. Jamais prosperou: nunca foi capaz de cuspir nem dar pontapé no traseiro dos outros ou fingir que gostava de criança, pois gostava de verdade. Era mesmo um palhaço, só que não sabia que era. E por isso foi infeliz. Um dia, numa reunião familiar sem importância, disse com voz de falsete: “Definitivamente, não sou ni
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10 setembro
Destino
Ela buscava a perfeição nas pequenas coisas. Não por vaidade – que tolice seria pensar assim – , mas porque temia que, se um detalhe lhe escapasse, o resto se desfaria junto. Como se a vida fosse tecida de minúcias frágeis, e bastasse um único fio solto para que tudo se desfiasse. Naquela tarde, após o encontro inesperado com alguns colegas do antigo curso de Arquitetura, decidiu retardar a volta para casa. Um happy hour. Um instante de distração. E nesse
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10 setembro
Desumanização
Acompanho a minha esposa na fisioterapia. Como vocês sabem, ela fraturou o braço há um mês e está entrando numa fase longa de recuperação. Estou cagado de cansado, de um dia todo de trabalho; peguei um trânsito maldito e estou agora, 18h30min, num tal Ginásio 2 – Pós-operatório, no prédio do plano de saúde. Foi uma correria até chegar aqui. Antes, pegamos uma fila razoável para a marcação inicial. Ela foi chamada minutos depois – não demorou muito. F
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9 setembro
O Edgar tem cada uma
Para Luis Fernando Verissimo, com saudade* O Edgar está longe de ser bonito, mas anda empenhado em virar um grande sedutor. Acha que é só questão de lábia, de saber xavecar do jeito certo: o papo, o feeling, o timing. Nos sebos, vai direto à estante dos livros de autoajuda, escritos por coachs que ensinam o menino cheio de espinhas a chamar a menina mais bonita da escola para o cinema. Ao comprar um desses livros, Edgar tem uma exigência: não aceita consel
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9 setembro
A Velha e o Mosquitão
Dona Maria costumava se gabar por ser a maior espectadora de televisão do planeta. Havia alguém responsável por lhe conceder esse nobre título? Sim, no caso, ela mesma. Moradora de uma vila de pescadores, tinha uma vida bastante simples. Acordava de manhã, sentava-se em sua poltrona e ligava sua televisão. De lá só saia quando alguém batia em seu portão querendo comprar os sacolés que vendia para as pessoas daquela região. Toda essa calmaria ficou abalada
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8 setembro
FERIADO
Estou sentado, sozinho, na mesa de um bar, numa dessas noites perdidas. Lá fora a chuva impede-me de sair e eu fico observando este meu impedimento que na verdade é fuga a uma determinação que não tenho tido. Olho para a chuva e vejo a sua cortina de indiferença. A chuva escorre e a água correndo parece trazer-me uma espécie de nostalgia semelhante à náusea. A chuva forma com suas goteiras algo parecido com uma delimitação de espaços, de vivências, de ansi
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7 setembro
Poema: #12: Exercício Pessoano
A chuva veio tomaros meus pensamentose me puxou pelo braço… assim inteiroe já não me sou…deixei de ser…somos e não somos.Várias vozes… absorção.Um senão! E fica a impressãode que a vida se abandonana brevidade acelerada das coisas…e não somos! Fingimos ser…Inventamos, copiamos, fazemos um rascunho…E nos deparamos com o sentido inoportunode não querer entendere somos! Vencido o humano,bandeiras ao vento, mastros,cor
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7 setembro
Oscilações
Um corpo que envelhece, expressões sem fôlego. Vera move-se em vaievéns curtos, sem, contudo, se entregar à queda. No espelho, vendo o que não queria – ou tentando não o fazer; momentos antes, a caixa… dezenas de momentos em papel fotográfico, seu os tantos sorrisos congelados em uma linha torta e encantadora de tempo. Via-se em cada instante eterno, ainda feita de sonhos. Como se o vento do mar Tirreno jamais tivesse parado de soprar em seus cabelos
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7 setembro
O diário secreto de Miss Marple
O ritual da noite era sempre o mesmo: minha irmã fechava as portas do armário, apagava a luz e decretava silêncio. Só então eu podia, sorrateiramente, pegar o meu livro, lápis, um caderninho e me esgueirar para o meu refúgio de leitura noturna – o banheiro– nada confortável, convenhamos, mas privativo, o que considerava um privilégio. O livro escolhido era adequado a essa leitura furtiva – algum título da coleção de Agatha Christie que minha mãe guardava n
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6 setembro
Não se faz omelete sem quebrar os ovos
Para muitas pessoas, a aproximação do aniversário inaugura o inferno astral, tempo no qual tudo que poderia dar errado, dará. Não sei se acredito nisso, mas fato é que, semanas antes do glorioso dia, tem início, dentro de mim, um misto de desassossego e agonia para decidir: como, onde e quando vou comemorar? Quem vou convidar? Penso na roupa que vou vestir, na playlist que vai tocar. Faço, mentalmente, a lista de convidados, mas antes mesmo de resolve
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6 setembro
Ou nada, ou tudo
Costumo rezar sozinha. Não por falta de fé coletiva, mas por necessidade de compreender o sentido da prece: se é pedido, agradecimento ou louvor. Nas igrejas e templos , percebo a oração como um ato comunitário. Já em casa, no silêncio, ela se transforma em diálogo íntimo, sem medo nem pressa. Essa percepção nasceu dos meus intervalos de “nada a fazer”. Paradoxalmente, nesses vazios sempre encontrei invenção e força. A vida me exigiu muito cedo: de menina
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6 setembro
Rua do Bispo
Quando criança, costumava jogar futebol a 50m de casa, em um terreno baldio, no bairro do Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão no início da Av. Paulista e terminava 5 quadras depois, próximo a um campo de futebol de várzea. Chamava-se Rua do Bispo. Não sei de onde surgiu esse pitoresco nome nem me importava saber, voltado que estava para questões mais importantes, como brincar e ser feliz. Moleq
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4 setembro
Pessoa
E porque viver não é necessário — necessário é criar —, ele dizia para si mesmo nas horas longas em que, de sua janela, à noite, olhava o mar: Ah, Pessoa, tu tens uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais que um espectador de ti mesmo, tens que assistir ao melhor espetáculo que puderes. Acaso não tens em ti todos os sonhos do mundo? Então sonha, homem, sonha… Quando se sentia só, nas noites em que apenas os pa
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4 setembro
Laranjas azedas com sal
É pegar uma laranja azeda, cortar exatamente ao meio, e ir colocando sal, aos poucos, em micro-pitadas, à medida em que se vai chupando. Umas três pequenas adições de sal dão conta. O que se sente? Bem. Um pouco do azedume da laranja, um pouco do salgado, obviamente, e, surpreendentemente, um leve sabor adocicado que não deveria estar ali — pois a laranja não é do tipo doce — mas está. Ele transava, desde sempre, experimentações gastronômicas. Contudo, a l
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3 setembro
Doce Maria
Nada vem por acaso. Acredito no destino, fé e sorte. O que tem de ser será. Marcelo saiu com a mãe para passear. Foram ao restaurante do avô, para visitá-lo e brincar com os primos e amiguinhos que moram nas redondezas, no bairro Antônio Bezerra. Lá, entre brincadeiras, meu filho viu uma gatinha abandonada, que ronronava com ardor, pedindo carinho. Marcelo pegou a pequena e não queria mais soltar. Levou-a à mãe, para mostrar a novidade. A mãe de cara se ap
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2 setembro
O que a última Virada Cultural diz sobre nós
Fui ver uns shows na Virada Cultural de BH, onde moro, no sábado e no domingo, dias 23 e 24. No sábado, assisti ao show das meninas do Fat Family, homenageando Tim Maia. No domingo, voltei para ver o Olodum e, logo em seguida, Carlinhos Brown, numa apresentação afinadíssima com a Orquestra de Ouro Preto. Os shows foram uma delícia: todos fazendo a gente sacudir o esqueleto, tirar o pé do chão, dançar. Desta vez, não quis virar a noite. Fui para casa dormir
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1 setembro
Poema #08: Contrato
A palavra dada tem valorinsuscetível de medir.Pode-se apenas estimar o pesona palma da mão estendida. O corpo intui o preçoque o verbo não soube exprimir.Em troca, a renúncia ao trocoabrevia o lapso do som ao silêncio. No mercado das promessas,a confiança é soberana.Mas às vezes, submissa,flerta com o charme do blefe.
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ago- 2025 -31 agosto
Pi-ta-da
Pitada – palavrinha gostosa de pronunciar e quase sempre de provar. No gosto, desgosto, e até no desacerto. Tudo começou, pelo que sei, com a pitada de rapé (râper, do francês), tabaco em pó usado para cheirar e, segundo uma citação encontrada na obra clássica de João Manuel de Macedo — A Moreninha, avivar o cérebro. Do rapé para o uso na culinária foi uma pitada. Seu uso mais comum passou a ser uma medida do sal, recomendada nas receitas, para o desespero
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31 agosto
Malta
Malta é um arquipélago no Mediterrâneo habitado desde cerca de 5200 AC e que foi invadido pelos mais variados povos. Os últimos a passarem por lá foram os britânicos cuja influência vai desde a língua inglesa, que divide espaço com o maltês, até a mão de trânsito pela esquerda. Tornou-se um país independente em 1964 e agora faz parte da União Europeia. As principais ilhas são Malta e Gozo, a primeira muito mais turística do que a segunda, mas ambas com sít
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