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out- 2025 -20 outubro
Na parede do banheiro
Mila Cox estava filmando e gravando uma entrevista a que seu parceiro musical Zími estava sendo submetido. Estavam na sala do apartamento que dividiam no bairro da Liberdade. Eram cinco horas e sete minutos de uma tarde de chuva e São Paulo estava caótica. Notícias de alagamentos e quedas de árvores eram a tônica dos noticiários locais. Fazia tempo que não sentiam tanta satisfação por poderem trabalhar em casa e poderem ficar de boa quando as condições cli
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20 outubro
Poema #42: Chuva Noturna
A chuva no asfaltoleva papéis/cigarrose o vômito de ontem.Amanhã novos resíduosvirão para preenchero vazio do meio-fio.Areia (À Fragmentação da Pedra)
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19 outubro
uma pílula para manter a sanidade — …humanidade?
A vida é um eco, não é mesmo? Mesmos problemas; vida que se derrama enquanto pensamos demais e, talvez, ajamos de menos. Descomplicar é sinônimo, em ação, do substantivo vazio. Que também pode ser um adjetivo. O vazio dói. O apartamento ficou vazio. A vida descomplica quando menos nos esforçamos. O vazio é repleto de tudo; é o próprio caos. Descomplicar é o verbo de ação para que a estafa necessária possa agir em meio ao vazio. Tudo o que nos torna nós mes
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19 outubro
Velórios Virtuais
Elas escolheram sempre a mesma mesa, no canto da cafeteria — aquela perto da janela, com vista para a rua movimentada. Um ritual silencioso: dois cappuccinos, celulares na mesa e o feed de notícias aberto. Foi entre um gole e outro que o suspiro da mais falante das duas anunciou o assunto do dia: — Você conseguiu descobrir do que faleceu Diane Keaton? A outra levantou os olhos da tela, com a seriedade de quem comenta a morte de alguém da própria família. —
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19 outubro
A procura da poesia
Ah! Carlitos! Se você soubesse da correria desse mundo! Corremos ainda mais! E não prestamos atenção em quase nada! Acelerados em quase tudo! Sentimos com pressa! Amamos com pressa! Brigamos com pressa! Desviamos com pressa! Olhamos com pressa! Chegamos ao despudor de morrermos com pressa! Os tempos pós-modernos são intensos e corrosivos! Tempos controversos e destrutivos! Ah! Carlitos! Se você soubesse… O seu humano máquina se transformou ainda mais
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18 outubro
Acalento
Ao escrever, eu namoro, flerto, me apaixono. Por quem? Por elas, as palavras. Já perceberam como elas chegam? Afoitas, apressadas, querendo passar à frente umas das outras. Delas, sou fã, parceira e amiga. Pois venham, achem seus lugares, enfeitem, enfeiem, traduzam, confundam. Ahhh, as palavras… Com o seu poder, destroem impérios, apaziguam corações quebrados, animam os desesperados, fazem felizes os apaixonados. E os sons? Variados, engraçados, escrachad
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18 outubro
Duplo carpado
Quando surgiu o papo de que 60+ era a melhor idade, eu não levei a sério. Julguei se tratar de ironia social ou brincadeira de mau gosto. A maioria de nós, obviamente, não deseja morrer. Mas, daí a achar que a velhice é a esperada sobremesa ao final do jantar, já é demais. Envelhecer, decerto, não é o fim do mundo, mas exige traquejo e criatividade para que o processo seja vivido como percurso e não como chegada. O discurso social não facilita o trabalho n
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17 outubro
Receita para se aburguesar
Como perspicaz observador do seu tempo, Gregório de Matos soube compreender bem o papel da aparência naquela sociedade, o que o levou a compor um soneto intitulado “Remédios para enfidalgar”. Os tempos são outros, a sociedade é outra e os estratos sociais são outros. É verdade. Porém, embora com lugar diferente e mais distante do “ser”, o “aparecer” continua presente. Tem, inclusive, efeito curioso em determinados sujeitos inconscientes de sua classe. Assi
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17 outubro
Bethoven nos salvará
Nos enredos de futuro catastrófico um dos temas mais recorrentes é a invasão da Terra por alguma raça alienígena ultra avançada. Os aliens chegam enfurecidos e destroem a humanidade e o que chamamos de civilização. Nem sempre por completo porque sobram alguns homo sapiens que se organizam e por fim derrotam o invasor mega tecnologicamente avançado. Bom, eu penso eventualmente nessa ideia. Não a extinção da raça humana mas a ameaça vinda de algum ponto do e
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16 outubro
Alguns convencidos que tudo sabem!
Um grupo de cientistas japoneses criaram o sistema ferroviário que uniu Tóquio a 36 cidades vizinhas. Eles tiveram a colaboração de Blob, um sincício multinucleado macroscópico, amarelo brilhante, que também propôs resultados semelhantes nas redes rodoviárias no Reino Unido e na península ibérica. Seu nome científico é Physarum polycephalum, e já vivia na Terra há 500 milhões de anos antes dos seres humanos. Esse é um exemplo de como a sa
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16 outubro
Quando o nosso nome estiver gravado na pedra
Até os dez anos me chamei Donato, embora meus pais nunca tivessem gostado desse nome. Por que me batizaram assim é um mistério. “Não está com o rosto definidoainda”, diziam. “Quando for adulto e sua cara indicar que nome deve ter, mudaremos.” E assim foi. Aos doze, com a mudança de voz, decidiram que Donato já não combinava comigo, e que o melhor nome para meu rosto recém-estreado na adolescência seria Adalberto — Beto para os amigos. Esse nome durou até a
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15 outubro
Atriz dentro da parede
Era setembro. Estava ela diante do espelho a mirar-se. Já estava bem habituada a ouvir elogios mencionando a sua beleza, mas não era certo em suas formulações o que isso significava exatamente. De pé, frente ao espelho. Olhos grandes e bem abertos a olhar no vidro vivo e desafiador um rosto dotado de beleza semi-exótica – porém inquestionável – quase que como procurando pelo alheio. Estava séria e não caberiam sorrisos naquele momento. Na verdade, ninguém
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15 outubro
Fixação
Daniele sabe me intimidar. É uma mulher sem par. Ela tem um quê de melindrosa, sarcástica, que eu adoro. O timbre de sua voz flutua até os meus ouvidos, é algo divino como uma canção de Debussy, e eu me sinto inebriado e confuso. Toda vez que a vejo é um desconcerto total, fico abestalhado, sem reação. Talvez seja porque ela não dá a menor bola pra mim. Não sou estragado, me considero mediano, “bem parecido”. Tenho me esforçado bastante para ter uma vida,
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14 outubro
Quase Real
A internet é a cama desarrumada do mundo. Ou melhor: o quarto desarrumado do mundo. Dá na mesma, mas eu precisava começar minha crônica de hoje com alguma bobagem. Sinceramente, abrir um site hoje é como entrar na casa de um adolescente: panela suja, meia em cima do roteador e um cheiro indefinido de pizza com desespero. Cada link é uma gaveta aberta; cada anúncio, uma roupa esquecida da ex. E o pior: a gente fica à vontade nesse caos, como se fosse nosso.
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13 outubro
No limbo
Zími entregou a Mila Cox uma sacola para discos com um LP dentro. Ele não a havia presenteado em seu aniversário, dois dias antes. Conhecem-se desde o nascimento de Mila Cox, e trocavam presentes eventualmente, mas sempre com alguma zoeira sutil envolvida. O LP era uma edição nacional e comum de uma coletânea da Siouxsie and the Banshees, em bom estado de conservação. A contracapa, no entanto, trazia uma dedicatória escrita com esferográfica, que de
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13 outubro
Poema #41: Disritmia
acredito que hajadentro em mimuma separação entrecorpo e espírito,espírito e mente.a cabeça pensa de uma formae o corpo age de maneira diversa,nunca se coadunam em alma de ser.sou o intervalo exato, inexpressivo,entre o talvez e o se e o quando serásendo que sou este ser, de si ausente,defeituoso e desengonçado. Da Essencialidade da Água
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13 outubro
Poema #06: De tudo o que não sei dizer
Se te olhasse de novo, te perceberiaSe eu soubesse enxergar, ah, se soubesse…Quão terrivelmente felizesSeriam meus dias Temo não saber o depois.Pois quem nunca se perguntou…“E agora, o que vem”? Deixo vir.Mas temo…Não saber receber. Temo a teima de não saberSer para saber.Temo ter de temer, e temer…E não viver outra coisa,Não ver a beleza,Fazer do outro jeito,Viver ao contrário, Não acertar nunca,Estar sempre ocupadoDe erros e não saber fazerOutra coisa se
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12 outubro
um outro sentido humano, não apenas sentimento
O vazio é um lugar insuportável: fede à ausência. O vazio, cujo endereço é nômade (na pressa), é também essência humana — carrega-se como um caramujo. O vazio como morada, cuja forma é o fazer nada. O desespero da entrega que não afeta a vida do consumidor final. Tanto se fazer por nada. O suor total por um gesto que o mundo faz corriqueiramente: levar à boca e engolir, sem mastigar. O vazio é o que se encontra quando já se leu demais. Já fez demais. Já de
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12 outubro
Pergunte ao Jacobina
O reflexo da imagem sempre despertou curiosidade e encantou o ser humano. Ele é a metáfora perfeita para dizer a forma como nos vemos, qual a nossa autoimagem. Estima-se que ele tenha surgido, ainda que de forma rudimentar, há cerca de cinco mil anos, na antiga Suméria. De lá para cá, vem assombrando principalmente as mulheres, inconformadas com seu reflexo no Espelho de Cleópatra, símbolo da beleza e dos cuidados femininos, desde a antiguidade. Em O
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12 outubro
Poema #13: As Naus e o Sonho
Entre as naus e os sonhos de antesAnterior à memória, objeto estranho…o mar era só… sem os seus navegantes.Calmo, vário e tamanho, As águas, um mistério, um senãoporém, quando teima a criatura humanao desejo insistente instiga a mãoa alcançar tudo, com toda a gana… brota na alma um querermais que tudo e muito mais!Indo sem ir e vendo sem verdo precipício à beira do cais. Da imagem fez-se o nobre cantodo canto nobre fez-se a triste sinada
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11 outubro
Todo mundo conhece uma Odete
Na última aula de Pilates, o assunto que movimentou os ânimos foi: quem matou Odete Roitman? Quando Beth trouxe a questão à baila, imediatamente, Tatiana revirou os olhos, fechou o sorriso e lançou: — Acho essa novela um lixo. Nem de longe se parece com a original. Não assisto. Me recuso. O clima pesou mais do que os halteres. Deu para perceber o mal-estar de Beth ao se dar conta de que puxou uma conversa que não despertou interesse, ou pior, causou nítido
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9 outubro
A Melhor Estação
Ela sabe que já é outono pelo barulho crocante das folhas secas rachando sob seus passos. Ainda que não possa distinguir as cores nem os galhos secos, ela sabe. Não percebe a diferença entre os ocres, os marrons ou os amarelos-avermelhados que forram o chão, mas sente a mudança do ar, que é mais fresco na sua estação preferida. Suspira. Já não sente tanto calor quando passeia pelo parque e ainda não faz um frio que a impeça de se deitar na grama e deixar o
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8 outubro
Um dia na vida
Era quinta-feira e Mila Cox marcou dois shows para os Crop Circles no fim de semana. Duas festas juninas, uma delas raiz, na periferia de São Paulo, e a outra era mais gourmetizada. Sexta na Casa Verde e sábado em São Caetano. Na sexta seria sossegado, show deles com abertura do uruguaio Silvano. No sábado foram quatro shows. Dessa vez deram sorte, porque a organização do evento os colocou para fazer o segundo show, logo depois que S
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8 outubro
Um trupicão blindado, é pênalti?
No fim do ano passado eu havia decidido parar de palpitar sobre política. Não faltam assuntos mais aconchegantes, como o bafo dos Dragões de Komodo após o lanchinho da tarde. Aviso de antemão, não quero usar da ironia nem do sarcasmo, ainda que um comentário ou outro possa ser interpretado dessa forma. E, digo logo, se isso acontecer, a culpa é sua, leitor, não minha. Então, a verdade é que fiquei desanimado ao ver os nossos nobres vereadores correrem para
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7 outubro
Tem gente que é poeta e não sabe
Estou no ônibus, indo para o centro, um compromisso banal que não vem ao caso agora. O ônibus está vazio. Não é horário de pico. Homens e mulheres, cada um no seu banco. Tarde tranquila. O ônibus cheira a café velho e plástico. Bancos azuis, gastos, alguns pichados. Todo mundo, de certa forma, parece querer escrever uma frase no ônibus, quer ser lido pelo próximo passageiro. Tem gente que cola chiclete no banco. Aí vejo duas meninas, bem no banco da frente
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7 outubro
Poema #01: Chiclete com Banana
Eu só boto bip-bop no meu samba quando o tio Sam pegar o tamborim Somos povoSomos pluralidadeSomos originaisSomos naturezaSomos belezaSomos muitoColônia, de novo?Nunca!Sobre tudoSomos… tudoSomos … CUL-TU-RA!Por issoEu só boto o bip-bopNo meu sambaQuando o tio SamPegar no tamborim!
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6 outubro
Poema #40: Interstícios da Vida
Deixar de ser cúmplice da vidade outros que em mim personificama parcela da culpa que subtraiodo erro coletivo e meu, individualizado. Obscurecer o reflexo do sofrimentode homens que não vejo em presença,mas que em espécie me julgam dignode vê-los (como testemunha da mortesem remissão de si) em que se abrigam. A desvisão do homem como forma de sedesviar do mundo, numa covardia anônimade se cegar para o que há de recíprocono duplo ato de existir e ser respo
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6 outubro
Por que os bons morrem cedo?
Não sei por onde começar. Dói muito falar, lembrar de tudo isso. Gislane me contou de supetão, mulher sem coração: “Vá visitar logo, antes que ele morra!”. Disse assim, na bucha, que Renato estava doente, em fase terminal, nível quatro de cancro no cérebro. Renato é meu amigo de infância, estudamos juntos no Vinícius de Moraes. Um cara de coração imenso, me abrigou, com a sua humildade família, quando tive de sair de casa por conta das bebedeiras do meu pa
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5 outubro
Dias quase perfeitos
Recentemente assisti Perfect Days, uma coprodução entre Japão e Alemanha lançada em 2023. O filme é estrelado por Kōji Yakusho, no papel de um limpador de banheiros. Confesso que, no início, precisei de algum esforço para entrar no ritmo. A narrativa é lenta. O dia a dia do personagem, Hirayama, se repete quase como um ritual. Mas, aos poucos, essa repetição revela algo essencial: a beleza da simplicidade. Uma vida aparentemente pequena, quase claustrofóbi
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4 outubro
Incomodada ficava a sua avó
Há pouco tempo assisti a uma entrevista do ator Wagner Moura onde ele dizia que vivemos uma crise da verdade. Não há mais certeza ou garantia de que aquilo que se vê, lê, ouve ou se experiencia é real. Tudo pode não ser o que parece ou se afirma. Até o que constatamos com os nossos próprios olhos pode ser falso. A inteligência artificial, com sua produção de imagens e realidades, ao gosto do freguês, atende prontamente à nossa ânsia de completude e tampona
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