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jun- 2025 -26 junho
Uma nova quadrilha
Carlos gostava dos dias frios. Laura, dos ensolarados e quentes. João, dos chuvosos. Laura assistia a todas as telenovelas. Carlos, às partidas de futebol. João preferia os livros. Laura falava muito, sempre. Carlos, um pouco menos. João, só o necessário. Laura acreditava em Deus sobre todas as coisas. Carlos era ateu. João, agnóstico. Carlos adorava dançar e era ótimo nos bailes. Laura gostava mais dos concertos; ficava louca com Debussy. João era cinéfil
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26 junho
Ao final de tanto!
No teatro Pantomima presenciamos uma apresentação onde metade do sentido da obra surge através dos gestos dos atores. A outra metade, você mesmo cria a seu bel-prazer. Em sua mente pode aparecer uma cena de horror quando seus dias estão carregados, ou uma paisagem deslumbrante, sinônimo de como você está de bem com a vida. Sua metade imaginada ao vivo, tem o mesmo gosto do prazer exclusivo de sua escolha, porque somos egoístas no quesito, felicidade,
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25 junho
Temístocles, a filosofia e o ônibus
Por muitos anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 7h17, e o levava para a escola. Aos amigos ele contava qual curso faria na Universidade. Tinha planos, como todo jovem sonhador, um tanto bobo, claro. Pouco ciente de suas prováveis desventuras. Por dois anos Temístocles esperou o ônibus na mesma parada, bem perto da sua casa. O ônibus passava pontualmente, às 13h01, e o levava para o curs
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24 junho
O porteiro que era dono de uma ilha de livros
No trabalho, ele anotava placas e nomes de pessoas. Na hora do almoço, abria livros. Porteiro da Praia do Forte, na Bahia, dono de uma ilha de livros, guardião de entradas e saídas. E, sem que ninguém desconfiasse, dono também de uma ilha de livros. Começou quando foi fazer o primeiro ano do fundamental. Analfabeto funcional até os 13 anos, vendedor de geladinho, picolés, ambulante para sobreviver. A professora, comovida, deu para ele a chave da biblioteca
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23 junho
Poema #03: Oferenda
Da onda ao pé da praia,recolho as relíquias do mar:sigilodeslumbrante encantopronúncia sincera de uma fé sem dogmas. Preservo meus amuletos.Quisera crer somente na forçadas águas que os trouxeram,banhados em luz e sal,sutil religação do corpo ao mistério. Algo estranho, porém, cortaminhas mãos, meus pés.Fio afiado de facacravado nas costas da mansidão.Em vão vasculho a areia:misericórdia amor tolerânciaestão enterrados tão fundoque sequer a mais teimosa es
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23 junho
Poema #29: Novas Lendas Urbanas Inventadas do Nada
Eu estava de tocaia na praça em frente à sua casaaí ela chegou de bicicleta e quando foi abrir a portaeu ataquei, agarrando-a por trás e já sentindo o delíriodaquelas carnes macias que me foram negadas em vida. Havia crianças por perto e então eu achei melhorinterromper o procedimento e levá-la para um lugarescuro e deserto e então fomos a um velho cemitériocom ela protestando que preferia estar com uma amiga. Mas eu havia morrido por causa dela e não era
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22 junho
Dois cafés e um canto de bar
Engraçado perceber como, com o passar do tempo, o ser humano perde alguns centímetros de altura; não é somente pela coluna que enverga para aqueles que não se exercitam. Mas há um efeito mais profundo da pressão da gravidade no tamanho dos idosos. Há um bom tempo escutei que, se nos medíssemos ao levantarmos pela manhã, após horas na posição horizontal, e depois, no meio do dia, quando já estamos na ativa da vida social, teremos duas alturas distintas. Nun
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22 junho
Crônica para Cronistas
Você que faz crônicas, que olha para a rua, para os rostos, sente o vento e insinua um parágrafo… Você que, no banco de uma praça ou em uma calçada, vê o movimento da vida e escreve… Você sabe o peso de uma crônica? Escrever crônicas é traduzir o complexo jogo da vida. É colocar em palavras o gesto, o beijo, a conversa, a fila e a briga, o trânsito, o nada e a terrível falta de assunto… Entretanto, antes de qualquer coisa, é preciso rever
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22 junho
Bandeira branca
Chega um momento na vida em que é melhor hastear a bandeira branca e desistir de certas lutas. Insistir em batalhas perdidas só serve para agigantar o inimigo que vive dentro de nós. É tempo de revisitar as bases que um dia abandonamos por medo ou fraqueza — e reconhecer que, mesmo tendo hoje mais forças, tentar retomá-las só nos faria ver que talvez nunca tenham sido, de fato, nossas. É preciso aceitar as baixas no exército de projeções otimistas e evitar
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21 junho
Modo Economia de Energia
Vamos falar de bateria social? Para mim, está cada vez mais difícil não prestar atenção, calibrar, recarregar ou mesmo optar se devo usar essa tal ferramenta. Todos os dias eu percebo o quanto ela está se tornando indispensável e necessária em nossas vidas. Em muitas situações parece existir um desgaste nas relações sociais, talvez pelo cansaço de se expor ao outro, ao julgamento, às interações forçadas. Quando mais jovem, eu ouvia contarem que a pessoa es
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21 junho
Paratatá
A experiência de não ser entendido, tampouco entender o que o outro diz, é de uma angústia visceral. Isso acontece, mais rotineiramente, nas desavenças, nos mal-entendidos, no ciúme, mas refiro-me, aqui, à vivência de estar num país de outra língua que não arranha o inglês ou o espanhol. É curioso constatar que duas pessoas podem não conseguir se comunicar, ainda que queiram ou precisem. Ambos podem ter vocabulário farto, palavras na boca para usar,
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21 junho
Algoz Ritmo
Esqueça o tempo em que você era explorado pelos patrões e tinha de brigar por seus direitos. Precisava se filiar a anacrônicos sindicatos, contar com um Estado falido e ineficiente e políticos corruptos para que suas condições de vida pudessem ser melhoradas. No mundo de hoje, somos nós, os algoritmos que determinamos o que é bom para você. Colocamos à sua disposição robôs que sabem exatamente o que você pensa, sente e do que você precisa. Foi-se a época e
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19 junho
Os esquecidos
Existe esse bairro do qual pouco se ouve falar, encravado na periferia extrema de uma grande cidade. Um lugar miserável feito de papelão, barro e lata velha, com cadeiras coxas nas portas e arremedo de jardim sem flores debaixo das janelas. Nesse ermo, sempre deixado de lado, vivem os esquecidos, uma gente feia à qual a gente da cidade entende por bem dar as costas. É um aglomerado de mortos-vivos que perambulam, comem quando conseguem o que comer, transfo
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19 junho
Bilhete Premiado!
Ficamos mais próximos de nós mesmos nesses últimos anos, foi inevitável o isolamento e descuido em relação aos outros, porém, crescemos sobre maneira evitando por vezes um desespero sem volta. Os melhores estão aqui, os mais fortes e preparados se safaram da peste, e agora revivemos nosso passado na busca de respostas diferentes porque todas as questões mudaram, algumas de tamanho, outras de conteúdo. A forma de revisar a vida, travada pelos ar
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17 junho
Com quantos anos ainda se pode dançar?
Depende. Depende das juntas, da artrite, da saúde em geral, depende de tanta coisa. Naquele sábado, na pista da Pink Flamingo, os garotos com preguiça do flerte – dançavam, riam, bebiam. Ninguém se olhava. Ninguém se deixava gostar. Foi quando ele – camisa branca, jeans comum e tênis – foi para a pista com jeito de quem ainda sabe como se faz certas coisas. Primeiro ele olhou. Depois sorriu. Depois gostou. O outro olhou de volta. Depois s
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16 junho
Poema #02: Último andar
Inunda o céu a invasãodesse voo vadio sem asasde volteios fora do tempoa trapacear a vertigem. Fora de ordem e selvagenssão as aves que sequeras mais hábeis artimanhasmantiveram na gaiola. Em silêncio, em liberdadefuram a fila das nuvense enganam sombras e luzesno movimento sem freios. Ao redor do último andarvê o caminhar derradeiroque prescinde de convitepra lançar-se ao recomeço. Faminto de novos aresvoa pra abocanhar o céupássaro infenso à censuratecid
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16 junho
Poema #28: ANÍMICA
quando eu tinha todos os movimentoseu era sol entre nuvensaves de arribaçãoqualquer coisa de menos sólidapor haver.eu via cachoeiras em meus sonhosremanso de riospedra grande de sentar meninoflorestas a esculpir. Da Essencialidade da Água
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15 junho
[com]penetrante:
Convencer-se profundamente sobre algo; Concentrar-se intensamente em algo. […] Quantas toneladas de cimento erguem-se do solo em direção ao céu, na cinza e tão loquaz São Paulo? Quanto de densidade vital se esfarela nas sombras penetradas por passos, sapatos, solas, pés descalços, arte de rua, pombos, cachorros, bolsas de senhoras que, sem querer, lançam-se, desobedientes, ao rés do chão das calçadas, a testar a humanidade: ajudo a senhora com seus pertenc
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15 junho
Melhor não rir na sexta…
Todo mundo conhece aquela velha metáfora do copo: meio cheio ou meio vazio. Virou referência clássica para distinguir os otimistas dos pessimistas. Basta um gole de convivência em família ou entre amigos para perceber quem vê a vida com espuma no topo e quem enxerga apenas o fundo do copo — seco, é claro. Na minha roda de infância, havia uma amiga que levava o conceito de copo vazio a um novo patamar. Era praticamente um poço — mas um poço sem fundo. Desde
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15 junho
Poema #10: OUÇO RUMORES
Ouço os passos do ventoOuço e estremeço… Tempo EntretempoOuço rumores de ventoE penso que sou euo ventoe o rumor Momento…E o meu corpodescolado das palavrasé brisa marinhaAs ondas me invadem uma a umae a sensação da vida e do amor preenchem os espaços outrora vaziospreenchem cada cantoo olhar de sal e as mãos que se quebram de tanto escreverAs ondas e o ventoe o meu corpo ainda intactoDepois? Não ouço mais nada…
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14 junho
Namoro Fake
Foi amor à primeira vista! Mas aqui já cabe uma dúvida: tem como não ser assim? Pensei, repensei, e concluí que talvez o amor, esse danado, só se instale quando é fulminante. Ou, pelo menos, quando nos parece inevitável. Amor precisa de sujeito. Ele pode ser físico, abstrato, indeterminado, oculto. Pode ser real ou inventado. Mas o outro, o par romântico, existe. Mesmo que só na nossa cabeça. E, quando você se percebe amando, naquele marco zero do sentimen
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12 junho
Trama subjetiva nas mentes!
O poder político mantém certas ideias para gerir uma nação, desenha caminhos fartos de opções no cotidiano do povo, que está a espera de sua colaboração e sustento. O poder da biologia carrega em suas raízes a capacidade de escrever a data de seu velório. O poder espiritual, sustenta a igreja com certas regras e posturas limitadas pela fé, diferenciado substancialmente com espírito e alma aos pés de sua prole. Carrega a eternidade como sa
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12 junho
Poema #01: Entrelinhas
Repara a frente do verso.Gêmeas, capa e contracapadispensam qualquer remendo.Abrem-se livres, pois sãoasas de uma ave vadiaa desnortear perspectivas(no alto, embaixo, início, fim). Enumerar as palavrasno caderno é exercícioárduo de caligrafia.Um sem-número de imagenscolore o branco entre as linhas,promove encontros na rígidageometria das paralelas. Remexe o varal das letras.O movimento preciso revela o que antes estavacamuflado sem disfarce:conselhos, cons
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12 junho
Diário do comandante do grupo de sobreviventes
Segunda-feira, 15 de março Cruzamos a linha que tínhamos marcado no chão como limite infranqueável e com isso provocamos esse desastre que nos trouxe até aqui, à beira do abismo. Fomos imprudentes e as consequências não tardaram. Acredito que nada possa piorar. É grande a sensação de que fodemos com tudo. Quase podemos sentir a respiração dos inimigos em nosso pescoço, o bafo quente deles em nossa nuca. Estamos vulneráveis, mas ainda armados e lutando e no
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11 junho
O último reduto da boa prosa
O último reduto da boa prosa é o bar. E quem discorda é clubista, é demagogo, é coach dos bem mequetrefes. Não adianta procurar argumentos contrários. O último reduto da boa prosa é o bar. E ponto. Simples assim. Sejamos razoáveis, em que lugar ainda encontramos uma prosa destituída de mimimis, de blablablás, de ramerrames? Uma prosa despreocupada com a opinião da vizinha lacradora com milhões de “seguimores”? Uma prosa afastada da prévia censura do politi
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10 junho
Feliz Dia dos Namorados
Ele entrou no carro — com sono atrasado e a alma desabada. — Bom dia — disse para a motorista.— Bom dia — respondeu ela. Ele vinha cansado. Noite inteira no hospital: gente gripada, filas enormes, enfermeiras com três noites sem dormir, indo de um plantão para o outro. Com anos como enfermeiro, aprendeu a não exigir sorriso nem bom humor dos outros. Dava o sorriso dele, a ajuda dele — ou, às vezes, só um atendimento decente. E isso já bastava. O perfume da
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9 junho
Poema #27: Uma Poesia a Marteladas
eu faço versoscomo quem martelaas sílabas do vocabulário:trôpego quase sempre. eu faço poemascomo quem sofreas pancadas do destino:difíceis como sempre. eu sobrevivocomo quem hibernana escuridão da noite:dilacerado sempre e sempre. com a música do Led Zeppelin“since i’ve loving you”para acompanharo meu enterro. Da Essencialidade da Água
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8 junho
A beleza do mundo, hein, tá no Gantois!
Amanheceu e Janaina, cantarolando Dorival Caymmi, se preparou para mais um dia de trabalho na entrada do Casa Espiritual do Gantois. Mais que depressa, arrumou a cesta com os alimentos responsáveis pela manutenção da energia dos orixás e que servem de caminho entre o céu e a terra: os frascos embrulhados de vermelho com azeite de dendê, as trouxinhas brancas onde colocou o vidrinho de álcool e alguns recipientes para o vinho, o mel e o fumo preto. Além dis
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7 junho
Tempo de ler devagar
“A comparação envolve confrontar a sua vida, ou um aspecto dela, com a de outra pessoa, procurando pontos de semelhança ou diferença.” Fui ao Aurélio em busca do significado exato da palavra comparar. Que bom que tive essa preocupação. Fiquei aliviada com a descoberta: não me comparo, não devo me comparar; e, se o fizer, jamais será no sentido literal da palavra. O que me levou a essa reflexão? Um passeio despretensioso, que terminou por me tocar profundam
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7 junho
O silêncio dos culpados
“Cauby cantando “camarim”, Orlando “faixa de cetim”, Milton, “o que será” e Dalva, “poeira do chão”. Melhor do que isso, só mesmo o silêncio. E melhor do que o silêncio, só João” (Caetano Veloso, “Prá Ninguém”) O sol exausto salpica seus derradeiros, débeis e sonolentos sinais de despedida, aquecendo com leveza minha pele e abrindo delicadamente seus poros para o que o universo possa com ela se conectar. De o
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