Autores
-
nov- 2025 -6 novembro
Embebida em éter!
O engenheiro e capitão italiano, Agostino Ramelli (1531 – 1610), nasceu na comuna de Ponte Tresa, hoje um Cantão da Suíça. Ele viveu no ápice do Renascimento, e foi inventor de inúmeros mecanismos para fins militares. Na França, ele criou a “obra” que lhe deu fama até o hoje, a “roda de livros”, que nada mais é do que uma estante de livros rotativa, que lhe possibilitava ler, consultar e pesquisar vários livros sem que o leitor saísse de sua cadeira. Os li
Leia mais » -
5 novembro
O Sol
A fluidez da manhã me capacita a digressões. Ainda me espanto e me encanto com o nascer do sol. Sinal de estar vivo. Sinal de uma tal de esperança que ainda vive em mim. Vou tomar uma medida para ser, sempre, amante do sol – desta feita, rigorosamente, como um penitente eterno. Apreciar, tomar o meu bom café, calmamente, para, só assim, encarar as profundezas do dia. Lorena não tem me deixado escapar da fadiga do dia como desejaria. Ela acorda tarde – e re
Leia mais » -
4 novembro
Empadinhas de camarão
O destino é meio brincalhão, vive tirando uma com a cara da gente — brinca de esconder, ora some completamente, ora se deixa achar de propósito, em todo caso, faz questão de lembrar quem é que dá as cartas. Nas últimas semanas, um desejo miúdo me tirava o sossego: uma empada de camarão. O problema é que, apesar de Belo Horizonte ser uma cidade onde se come muito bem, de camarão, propriamente, não tinha. Fui ao Biscoitim, ali na Rio de Janeir
Leia mais » -
4 novembro
De(i)vaga(R)ções sobre o surgimento de um novo líder no Morro(?) do Pau(?) da Bandeira – Sobre falar o óbvio(?)
Brevíssimas considerações iniciais: Antes de iniciar esse texto, eu peço licença a você (leitor) para que possa fazer uma breve diferenciação semântica entre dois temos. Sei que a pressa dos dias atuais torna essa introdução chata, mas considero que esse movimento inicial pode enriquecer sua leitura. Dito isso, segundo o Dicio, o termo devagar significa: “De maneira lenta; que não possui nem apresenta pressa; vagarosamente”. Já divagar: “Vagar; caminhar se
Leia mais » -
3 novembro
Marinhas de Vinna
Tábuas e pincéis compondo perspectivas de azuis caminhos nas águas de Mina. Walls and bridges interrompendo os verdes dos juncos, ao redor de paisagens recuperadas. Cavalos a toda brida nos levam a estreitos caminhos cavados nas encostas dos morros: paisagens nórdicas, mineiras e paulistas equivalem-se no absoluto do mundo, afinal diluído em contornos de magia, de luz e sombras em meio aos destroços do navio, como se a vida fosse isso – árvores de frio, an
Leia mais » -
3 novembro
Urubu de pelúcia
Mila Cox já nasceu em revolta contra o machismo e o racismo que via em muitos homens mais velhos e em muitos de seus contemporâneos. Ela praguejava ainda mais quando se tratava de pessoas mais jovens que ela, nascidos no século vinte e um, e com mentalidade tosca e medieval. Cox diz que apesar da obrigação de morrermos menos estúpidos do que nascemos, essa lógica parecia não se aplicar entre muitos jovens, na proporção devida. Exceção feita a Zimi, seu vel
Leia mais » -
2 novembro
Divagando
Reza a lenda que quando os conquistadores espanhóis chegaram à América apresentaram-se montados em cavalos. Os nativos, que nunca tinham visto um animal assim, e muito menos armaduras reluzentes, enxergaram naquilo uma coisa só, meio homem, meio bicho de quatro patas. Pode não ter sido bem assim no século dezesseis, mas se os alienígenas aportassem hoje em certos locais da Terra, talvez achassem que o telefone celular faz parte do nosso corpo, uma coisa as
Leia mais » -
2 novembro
Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta
Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – verdadeiras procissões suspensas – em que o asfalto, enfim, respira. Uma respiração congestionada. É isso, cinematograficamente falando
Leia mais » -
2 novembro
Onde está Fênix?
O final de semana prometia ser intenso. Depois de anos sem nos reunirmos, decidi chamar Roberto, Samanta e Maritza para a casa de praia. Oficialmente, discutiríamos os detalhes das comemorações de Natal. Mas, no fundo, eu queria testá-los — ver até onde cada um iria, agora que o mundo estava virando do avesso. O governo de transição havia decretado novas normas financeiras e sociais, e o colapso lá fora fazia a cidade oscilar entre apagões e sirenes distan
Leia mais » -
2 novembro
O Rio sangra
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu” — Darcy Ribeiro Desde que me entendo por gente eu escuto, ouço e vejo a mesma “fórmula” para combater a violência e o narcotráfico no estado do Rio, sobretudo, na capita
Leia mais » -
1 novembro
Pavê da vovó
A receita era antiga e sua avó quando era viva nem lembrava mais sua origem. Talvez fosse portuguesa, talvez holandesa ou uma mistureba de influências. Mas assegurava que tinha aprendido ainda mocinha quando morava em Vassouras, no interior do estado do Rio. Seu avô nunca foi muito fã desse pavê, dizia ela rindo, nem seu pai. Mas você meu neto, faz a minha alegria. Era verdade. Ele comia tudo que ela fizesse e tinha uma predileção toda especial pelo pavê d
Leia mais » -
1 novembro
Memória é pra quem pode
Eu invejo as pessoas que conseguem lembrar de situações, cenas, casos que aconteceram há anos, sem titubear ou duvidar da veracidade dos fatos. Não sei que tipo de dom essas pessoas têm, mas é incrível observar a forma com que elas conseguem acessar o passado, como se ele ficasse dobrado na primeira gaveta da cômoda. Tenho uma amiga de infância que sabe dizer a roupa que estávamos vestindo no nosso primeiro baile. Minha irmã lembra de histórias de quando é
Leia mais » -
out- 2025 -30 outubro
Sobre Ester
Tarde de sexta-feira. Dia dos namorados. Leve frio de começo de junho, nesse clima nunca radical do Estado do Rio, sudeste do Brasil, sul da América, entre os trópicos. Ponho roupa preta, acabada com meu paletó, preto, alemão, de fino corte. É meu único paletó, usado em ocasiões especiais apenas – e, na maioria das vezes, nem nestas. Saio então pelas ruas. Chuva fina. Abro meu guarda-chuva e vou, fugindo das rodas dos carros nas poças. É uma tarde triste.
Leia mais » -
30 outubro
A melancolia e a preguiça!
O tataravô da sofrência foi Ludwig Van Beethoven, que bebia demais como consequência de seus devaneios emocionais, o que colaborou com a sua morte prematura. A perda da audição não foi uma predisposição genética como alguns pensam, esse ainda é um mistério que nos surpreende e assombra. Foi do pai Johann que Beethoven recebeu suas primeiras lições de música; o objetivo era afirmá-lo como “menino-prodígio ao piano”, dada sua habilidade mus
Leia mais » -
30 outubro
Para que a chuva deixe de doer
Se naqueles dias de aguaceiro eu tivesse uma corda, e se eu não fosse pouco mais do que uma criança crescida, e se eu pudesse e tivesse coragem, amarraria minha mãe na cama e lhe daria uma surra para ver se ela parava de chorar e de gritar de dor. Quando chovia, os ossos de minha mãe latejavam e ela ficava louca. E me enlouquecia também. Mas eu não tinha uma corda. *** E agora, quantos dias me aguentando? Demasiados. Já são onze dias que chove sem parar, o
Leia mais » -
29 outubro
Apocalipticamente
“Subverter a ordem, apocalipticamente!”. Foi assim que Luan nos apresentou, numa conversa desleixada, “o projeto”. Devíamos chocar, como os Mutantes e Secos e Molhados – indicou-nos, inclusive, as referências, que eu nem conhecia. Não vou mentir: tive medo. Agarrei-me a certos exageros para continuar. Já tocava e queria tocar mais. Era o baterista do colégio e tinha, inclusive, o meu fã-clube. O sonho era viver de música, “da minha arte”, e esse era o medo
Leia mais » -
28 outubro
Almoço mineiro
Quarta-feira. Meio-dia. Belo Horizonte está nublada, como uma cidade que acabou de sair do banho. Desço a Rua da Bahia, venho do Minas Tênis Clube, fazer algo que não vem ao caso. Atrás de mim está a Praça da Liberdade, com os bancos onde já se sentaram Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. A cidade não é só um convite à crônica — ela é uma crônica pronta,
Leia mais » -
27 outubro
Poema #43: Carnaval, Bandeira e Eu
Quero banhar-me nas águas sujasQuero banhar-me nas águas sórdidasSou a mais solitária das criaturasMe sinto só. Confiei às mulheres os meus amoresCaí de quatro pelas sarjetasCobri minha alma de decepçõesValei-me Manuel Bandeira. Vozes da morte contai a históriaDa pessoa boa que sempre fuiE eu dormia ouvindo o ruído calmoDo bambuzal A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
Leia mais » -
27 outubro
Defasagem
Quando Zími ouviu Mila Cox bater à porta de seu quarto, pensou que fosse por causa das pilhas do controle remoto da televisão da sala. Ele as havia trocado,colocando pilhas usadas no lugar. Pecou miseravelmente e estava envergonhado. As pilhas dele já tinham acabado e eram da mesma marca das pilhas usadas por ela na outra televisão, pois foram compradas na mesma ocasião. Compraram poucas, mas ele compraria outras no dia seguinte. Antes de dividirem o apart
Leia mais » -
26 outubro
Por mais segundas-feiras e não sábados ensolarados
É manhã de sábado, os raios de um dia ensolarado rasgam os tecidos da cortina e iluminam meu rosto adormecido. Há muito barulho de vida lá fora. Levanto com os pés quentes e sonhadores no piso frio, lembrete físico das tarefas ainda por fazer. Me espreguiço, levanto o tampo da bacia sanitária, mijo. Descarga, torneira e sabonete líquido: jogo uma água de qualquer jeito no rosto, a toalha felpuda brinca de me fazer cócegas e eu sorrio. Café. Preciso de café
Leia mais » -
26 outubro
Desconfio que nasci pata. Pata pateta?
Sabe aquela pessoa especialista em uma atividade, focada, perseverante, que se destaca pela alta performance? Não estou falando de quem nasceu com um dom divino — porque aí seria fácil dizer: se não foi abençoado, desista. Falo do ser comum que escolhe um caminho e segue nele, dia após dia, sem desvio. Pois é… essa não sou eu. Pelo contrário. Sempre tive necessidade de pular de galho em galho: cada hora um foco, um novo desafio, sempre para explorar algo d
Leia mais » -
26 outubro
Poema #14: Fluxo
E vemé frio é poucoe quente e certoincerto é leve é tardee breve e loucosolto é muito é medoe mesmo e igualreal parte e vemvem e parteuma partee vai…
Leia mais » -
25 outubro
A atemporalidade da dor
Naquela manhã de sábado, um senhor de setenta e poucos anos acordou decidido a acabar com o tormento vivido nas últimas cinco décadas. Aquela vergonha entranhada nos poros, aquela humilhação cravada na mente, aquelas risadas de escárnio ecoando na lembrança, que não lhe davam um segundo de paz, chegariam ao fim. Carl levantou cedo, se arrumou, tomou seu café e foi até o endereço do seu desafeto. Tocou a campainha. Quando a porta abriu, diante de
Leia mais » -
25 outubro
Dia de Algodão-Doce
Sobre o mistério de viver com os olhos encantados e o coração desperto. Se o homem, esse ser racional, se apegar apenas ao pensamento e desacreditar dos mistérios e belezas que há no mundo, estará morto, embora vivo. Sonhar, comover-se, sentir-se maravilhado com pequenos ou grandes mistérios, sorrir das delicadezas inesperadas, espantar-se, sentir gratidão ou culpa são manifestações que nos conectam uns aos outros e dão sentido à nossa vida. É aquele insta
Leia mais » -
24 outubro
Fábula do Afeto e do Amor
Um dia Afeto chamou Amor para conversar. O olhar de Afeto era afetuoso, assim como o tom de suas palavras. Mas aos ouvidos de Amor dessa vez elas soaram estranhas, porque inéditas. Nunca ouvira da boca de Afeto nada tão neutro. Não havia agressividade, verdade seja dita, mas faltava algo. Calor. As palavras escolhidas por Afeto eram muito distantes das que Amor se acostumara a escutar em sua convivência. O que Afeto disse, a sugestão de conversarem, desceu
Leia mais » -
23 outubro
O Menino e Matisse
Na página aberta de um livro, está um desenho de linhas curvas entrelaçadas. O menino percorre com os olhos cada pedaço da imagem, procurando memorizar o caminho sinuoso de cada pincelada dada pelo artista. Pega uma folha em branco e fecha os olhos. Quer se certificar de que o desenho que acabou de ver está inteiro em sua memória. Traça linhas retas e curvas na folha branca. De vez em quando retorna ao desenho original, e percorre novamente, com os olhos e
Leia mais » -
23 outubro
Viver com medo, é ser escravo!
O precursor da carta dos direitos humanos, foi o Cilindro de Ciro que é uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberto nas ruínas de Babilônia na Mesopotâmia em 1879. Ele foi criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.), e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, e lista sua genealogia como um rei de uma linhagem de Reis. Nele foi declarada a
Leia mais » -
22 outubro
Bichanos
Larissa me pregou uma peça. Chegou em casa com uma gatinha filhote, embrulhada em sua camisa da malhação. Disse que a pobrezinha estava embaixo de seu carro, no centro da cidade, abandonada, que ela não poderia ficar assim. Logo rebati, mandando que levasse para doação. Larissa, com mil beijinhos e abraços – é assim que ela faz quando quer alguma coisa –, suplicou que ficássemos com a “neném”. Fiquei emburrado e desajeitado com a nova integrante, mas, aos
Leia mais » -
21 outubro
O homem que não gostava de nada
Tenho um amigo que não gosta de nada. Comprou um livro, mas não leu porque precisa descansar.Descansar do quê? Nem ele mesmo sabe. Certo dia, chamei para um cinema.— Nossa, cinema é tão chato.— Mas é filme do Almodóvar.— Pois é. Cor demais, e muita pouca vergonha. Veio o carnaval. Sugeri uns bloquinhos.— Eu não. Aquele monte de gente.— Uai, mas você não gosta de gente?— Gosto, mas vou preferir ir pra roça, descansar.— Descansar do quê?— Ah, sei não. Descan
Leia mais » -
21 outubro
Era uma vez Dona Namoradeira
Dona Maria era uma mulher metódica. Todos os dias cumpria seu ritual sem faltar. Acordava pelas manhãs logo que o dia raiava, preparava um café bem preto, forte e aguardava por Zequinha, o menino que vinha trazer seu pão, sempre quentinho e fresquinho. Quando chegava, ela despejava o líquido, ainda quente, em sua xicara e ia bater ponto em sua janela. Maria jamais atrasava nesse compromisso matinal. Gostava sempre de chegar em seu “serviço” bem cedo, pois
Leia mais »





























